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Manicômio tributárioO Brasil tem impostos demais e arrecada mal. |
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Os brasileiros trabalham quatro dos doze meses do ano para pagar impostos. São 55 tributos diferentes. Nesse quesito, da carga tributária, que beira os 33% do PIB, o Brasil se iguala aos países ricos. Isso não é motivo de orgulho. Países em desenvolvimento com altas taxas de desemprego, que precisam crescer rapidamente e botar lenha na fogueira da economia não podem extrair tanto tributo da sociedade. Num momento de crise como o atual, em que o caixa do governo parece um abismo sem fundo, planeja-se arrancar ainda mais dinheiro da população. Na semana passada, o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, foi à Câmara dos Deputados dar um empurrãozinho na reforma tributária e terminou por propor novo aumento de impostos. O que Maciel disse provocou furor entre economistas, empresários e banqueiros. Ele destravou duas granadas e colocou-as no colo dos deputados. A primeira: o governo está interessado em manter, a médio e longo prazo, a CPMF, o imposto provisório sobre movimentação financeira que hoje morde 0,38% do valor de todos os cheques emitidos no país. É um velho contra-senso brasileiro, em que as medidas passageiras tendem a durar para sempre, enquanto as definitivas são revogadas no ano seguinte. A segunda: estuda-se a possibilidade de criação de um imposto de renda mínimo a ser cobrado de todas as empresas, quer elas tenham lucro, quer tenham prejuízo. Ou, dizendo de outra maneira, a idéia é cobrar imposto de renda, haja renda ou não. As idéias são confortáveis do ponto de vista da máquina de arrecadação. A CPMF é um imposto automático. É dinheiro certo no fim do mês e não requer fiscalização. O imposto de renda mínimo ignora a situação econômica do país. Com crescimento ou com recessão, o dinheiro pinga como um pedágio nos cofres do governo. Como, nas contas da Receita, metade das empresas brasileiras escapa do Leão de uma maneira ou de outra, essa seria uma forma de cercá-las. A cobrança automática de imposto de renda que desconsidera o desempenho da empresa é uma idéia ruim na essência. Ela vai acabar, mais uma vez, penalizando quem sempre procurou andar na linha com suas obrigações com o Fisco. "O que o secretário está fazendo é admitir que o Brasil é um país incontrolável e que o governo jogou a toalha", diz Antoninho Marmo Trevisan, contador e consultor de empresas em São Paulo. Vistas do ângulo da eficiência da economia brasileira, as propostas do secretário da Receita são absurdas. A CPMF onera as transações financeiras. Ela é um dos chamados impostos cumulativos, que distorcem os preços e aumentam os custos da produção. Com a CPMF, tudo fica mais caro – o capital de giro, o financiamento para o consumo e os produtos. Ela inibe o crescimento do país. A cobrança de um imposto básico sobre as empresas é ainda pior. Pune os empreendedores. Aquele que vai montar um negócio novo normalmente não tem retorno nos primeiros anos. Mas a receita estará ali, vigilante, cobrando imposto sobre uma renda que ele ainda não tem e, em muitos casos, inviabilizando o negócio.
Infelizmente o Brasil, com as finanças em estado de calamidade, não pode arriscar-se agora a reduzir todos os seus impostos. Por enquanto, o sucesso obtido no caso dos carros deve continuar sendo uma exceção. O volume de despesas fixas do governo é muito grande e, enquanto ele não for reduzido, o risco de o país quebrar por falta de arrecadação é muito alto. O país gasta, só com previdência social e funcionalismo público, 22% de tudo o que produz. Com os juros pagos para rolar a dívida interna, vão-se pelo menos mais 5% do PIB. Portanto, só com os três itens acima, o governo tem uma despesa fixa de 27% do PIB. E ainda tem de investir em saúde, educação, estradas e programas sociais. Nessa situação não se pode arriscar tudo numa virada radical. A hipótese catastrófica seria o governo reduzir alíquotas e eliminar impostos na esperança de que os sonegadores se convertessem em bons pagadores – e isso simplesmente não ocorrer, ou demorar a acontecer. Nesse caso o Estado poderia ficar sem caixa para honrar suas dívidas, pagar pensões ou a merenda escolar. "O Brasil está condenado a ter uma carga tributária alta e distorsiva enquanto não cortar despesas", diz o ex-ministro Mailson da Nóbrega. Existe um consenso antigo entre os tributaristas brasileiros de que o país, além de ter carga tributária muito pesada para uma economia que precisa crescer, tem a cobrança de impostos muito mal distribuída. As contas do governo pesam no bolso de poucos. Os tributaristas dizem que seria muito melhor se uma reforma espraiasse a cobrança. Alguns projetos que correm na Câmara dos Deputados tocam nesse ponto. O mais elogiado é o do deputado Luiz Roberto Ponte. Ele tenta democratizar a tributação cobrando impostos sobre o consumo de energia elétrica, combustíveis e comunicações. Numa mostra de que não existe solução indolor e simples em matéria tributária, o projeto de Ponte tem um ponto fraco. Coloca muito peso sobre os impostos automáticos, aqueles que a pessoa paga sem intermediários, sem fiscalização ou coletores. Eles são a menina dos olhos dos reformadores da legislação tributária brasileira porque praticamente acabam com a sonegação. O problema é que criam um ambiente em que ninguém percebe que o governo está tomando dinheiro, seja no refrigerante da criança, no saque no caixa do banco ou na sessão da tarde vista em casa pela televisão. Nos Estados Unidos, optou-se por uma solução diferente: o imposto de consumo é cobrado à parte, deixando que o consumidor saiba exatamente o que está pagando. "É um processo mais democrático. Tem a vantagem de criar o hábito de cobrança de realizações do governo, pois todo mundo sabe que está entregando a ele um dinheiro", diz Trevisan. O nó que se precisa desenroscar na legislação tributária brasileira está nos impostos sobre consumo. Hoje eles são seis: IPI, ICMS, ISS, PIS, Cofins e CPMF. Isso sem contar que se a compra for feita a prazo recolhe-se também o IOF. Estas siglas comem a lucratividade dos negócios e inibem os empreendedores. No caso do ICMS, como cada Estado tem uma alíquota diferente, estabelece-se um prazo de recolhimento e exigem-se informações e documentação próprias em cada um deles. Há 27 regimes distintos de ICMS no Brasil. Uma selva tributária, portanto. Esse emaranhado de siglas que compõe o manicômio dos impostos do país é responsável por 80% de tudo o que se arrecada no Brasil. É aí que se deve mexer, não para aumentar a receita ou para desafogar o governo de sua tarefa fiscalizadora, mas para acabar com o caos e desamarrar a economia. No final das contas, com o progresso econômico, o governo acabará arrecadando bem mais.
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