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Socorro, quero dormir!Novos remédios trazem alívio
para o tormento
Dorme-se cada vez menos no mundo estressado de hoje, e o problema se manifesta de forma mais aguda nas grandes cidades. Conforme as estatísticas disponíveis, três entre dez adultos sofrem de insônia. E metade de toda a população adulta experimenta, pelo menos uma vez por semana, uma noite maldormida. Ou o sono não vem logo, ou, quando vem, é interrompido, e depois não se pregam mais os olhos. Uma das mais promissoras frentes de batalha contra as noites em claro é o arsenal químico, e há boas novidades na área. Zopiclone, zolpidem e zaleplon são os nomes dos princípios ativos dos novos remédios. Não por acaso, todos começam por "z", e juntos formam "zzz", a onomatopéia do sono profundo das histórias em quadrinhos. Brincadeira de cientistas, mas que funciona. Quando comparados aos remédios tradicionais, os novos são mais seguros, mais eficientes e mais rápidos. Os dois primeiros zês já estão no mercado, com os nomes comerciais de Imovane, da Rhodia, e Lioram, da Schering-Plough. O terceiro acaba de ser aprovado na Europa e deve chegar ao Brasil em breve. É o Sonata, da Wyeth-Whitehall. Sonata é um sinônimo popular para soneca.
As drogas antigas equivaliam a uma paulada na cabeça. Eram como um desmaio. De olhos fechados, o corpo largado, o sujeito que ingeria esses remédios parecia repousar. Mas não. No dia seguinte, estava um caco, como alguém de ressaca. Isso acontecia porque o sono é bem mais do que um simples fechar de olhos. Implica etapas bem definidas que só muito recentemente a ciência conseguiu decifrar e sobre as quais pôde interferir. Dessas fases, a mais importante é a conhecida por REM, sigla inglesa que significa "movimentos oculares rápidos". Essa é uma das etapas mais profundas do sono, na qual acontecem os sonhos. Sempre que o sono é confortador, inclui de quatro a seis passagens pela fase REM. Ou, dito de outra forma, sono bom é aquele em que se sonha, mesmo quando não lembramos disso no dia seguinte. Os novos medicamentos preservam todas as etapas do sono – até as mais profundas. Ou seja, com o zzz é possível dormir de verdade. E mais: cair no sono com maior facilidade. O Lioram e o Sonata, por exemplo, levam de meia a uma hora para fazer efeito. É a metade do tempo requerido pelos antecessores. Para completar o milagre, a nova geração de remédios antiinsônia é eliminada do organismo mais rapidamente – alguns numa velocidade até vinte vezes maior do que os tradicionais. Em uma hora, o remédio da Wyeth-Whitehall já foi embora. Ele induz o sono, começa a ser eliminado e o organismo continua sozinho o processo do repouso. Termina, assim, aquela sensação de embriaguez que acompanha pelo dia afora os usuários de soníferos.
Parece sonho – o sono feliz em pílulas! Cautela, no entanto. Por se tratar de novidade, a ciência ainda não sabe se, a exemplo dos perigos oferecidos pelas drogas antigas, as mais modernas não criam dependência, amnésia parcial ou depressão. "Os remédios não tratam a causa da insônia", alerta o neurologista Flávio Alóe, do Centro de Sono do Hospital das Clínicas de São Paulo. É até explicável que alguém que tenha perdido um ente querido faça uso de soníferos por um tempo. Mas o uso ininterrupto por mais de três semanas é condenável. "Há casos em que a insônia é provocada pelo abuso das próprias drogas que deveriam combatê-la", diz o neurologista Sérgio Tufik, coordenador do Laboratório do Sono da Universidade Federal de São Paulo. Isso acontece porque, com o tempo, o organismo se acostuma ao medicamento e este deixa de fazer efeito. Muitos insones precisam mesmo é aprender a adormecer, argumenta o neuropsicólogo canadense Stanley Coren, no livro Ladrões de Sono. Nove de cada dez insones sofrem de stress e ansiedade. São pessoas que levam para a cama as preocupações do dia seguinte e se sentem obrigadas a dormir. "A ansiedade para dormir atua como um ótimo despertador", afirma a neurofisiologista Stella Tavares, dos centros de sono do Hospital das Clínicas e do Albert Einstein, em São Paulo.
A adoção de novos comportamentos muitas vezes é mais eficaz a longo prazo do que os comprimidos. O consumo excessivo de álcool, o tabagismo, as jornadas prolongadas de trabalho, por exemplo, ameaçam uma boa noite de sono. É fator de risco, sobretudo, a ignorância sobre o que fazer para dormir bem. Há quem acredite, por exemplo, que tomar um ou mais goles de uísque seja um santo remédio. O sono pode até chegar logo, mas o sujeito, por causa da bebida, tende a acordar uma ou várias vezes durante a noite. Foi-se o tempo em que dormir era sinônimo de desperdício, coisa de preguiçosos. "Você terá tempo de sobra para dormir quando estiver morto e enterrado", chegava-se a pregar. Dormir bem é essencial. "Se o sono não desempenha uma função absolutamente vital, então ele é a maior falha do processo evolutivo, já que consumimos nele um terço de nossas vidas", diz o médico Allan Rechtschaffen, da Universidade de Chicago. Não é à toa que os bebês dormem muito. São horas preciosas, que ajudam na construção do cérebro da criança. Não é por menos que os insones adoecem com mais facilidade. Já está comprovado que não dormir, ou dormir mal, enfraquece o sistema imunológico. O maior militante anti-sono de todos os tempos foi, ele mesmo, um insone. Thomas Edison e seu invento mais célebre, a lâmpada elétrica, alteraram o ciclo biológico humano ao criar a luz no meio da noite. Um estudo de 1910 mostrava que as pessoas dormiam em média nove horas. Naquela época, o uso da lâmpada elétrica ainda não se tinha disseminado. Hoje, a média é de 7,5 horas. Edison gabava-se de dormir quatro, no máximo cinco horas por noite, e talvez até por isso se tenha envolvido tanto com a criação da luz artificial. Em Ladrões de Sono, o neuropsicólogo Stanley Coren lembra uma visita-surpresa do industrial Henry Ford ao inventor. Ford foi barrado na entrada, sob o argumento: – O senhor Edison está repousando. – Ouvi dizer que ele não costuma dormir – respondeu Ford. – Não dorme quase nada, mas cochila bastante
– disse o assistente de Edison. Melhor seria
se dissesse: "Não dorme quase nada e por isso fica cansado o dia
todo".
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