As duas vidas de Mandela


"Mártir do combate contra a opressão
no passado e estadista da democracia
no presente, o presidente sul-africano
é um homem raro em nosso século"

Ilustração: Pepe Casals

O mandato do presidente Nelson Mandela na África do Sul marcará a História contemporânea. Aos 80 anos, Mandela começa a se retirar da vida pública. No dia 2 de junho a África do Sul terá a segunda eleição democrática de sua História. Um novo Parlamento e nove governos provinciais serão eleitos. Muito provavelmente o partido de Mandela, o Congresso Nacional Africano, CNA, obterá uma nova maioria parlamentar e Thabo Mbeki, atual vice-presidente, será escolhido presidente da República. Há poucas semanas, na cerimônia de despedida no Parlamento sul-africano, um líder da oposição branca comparou Mandela a Gandhi e ao dalai-lama. Gesto generoso mas impreciso, pois só dá conta de um período da vida de Mandela. Na realidade, há dois Mandela, duas vidas na carreira do maior líder africano contemporâneo que é também uma das personalidades políticas mais notáveis do século XX. O primeiro Mandela é o prisioneiro de Robben Island, ao largo da Cidade do Cabo, onde ele esteve encarcerado de 1962 a 1990. Dez mil vezes o sol nasceu no horizonte de Robben Island e nem em um só dia Mandela abriu mão do combate contra o apartheid. Da luta armada no interior sul-africano, do combate nos tribunais, da briga nos jornais e na opinião pública internacional contra um regime fundado na opressão e no racismo. Na maior parte desses 27 anos de cárcere, as perspectivas de Mandela foram sombrias. Em plena Guerra Fria, a aliança do CNA com o Partido Comunista Sul-Africano espantava os governos dos países do Ocidente, os quais, com a notável exceção da Suécia, apoiavam o regime do apartheid. Isolado de tudo e de todos, Mandela só podia agarrar-se a sua determinação de homem livre. No mesmo ano da condenação de Mandela, lutando sozinho contra um regime muito mais arraigadamente opressivo que o apartheid, Soljenitsin publicava na URSS seu primeiro romance, Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch (1962), e começava a escrever seus outros livros de combate contra o gulag soviético. A batalha cotidiana e solitária desses dois homens, tão separados pela geografia quanto pela cultura e pelas idéias, defendia a liberdade de todos os outros homens. Na mesma época ascendiam ao poder dois grandes líderes políticos que haviam lutado contra seu país em nome dos valores superiores da liberdade. Nos anos 40, Willy Brandt vestira o uniforme militar norueguês para combater a ditadura nazista alemã, e De Gaulle se refugiara em Londres para bater-se contra o regime pró-nazista do marechal Pétain. Nos anos 60, em Berlim Ocidental e em Paris, Willy Brandt e De Gaulle ajudavam a consolidar a democracia depois de ter vencido a tirania.

A segunda vida de Mandela começa em 1990, quando sai da prisão para mediar as negociações sobre o fim do apartheid, culmina em 1994, com sua eleição à Presidência, e conclui-se agora, no término democrático de seu mandato. Aqui é preciso atinar para a dificuldade dessa segunda vida: uma coisa é aparecer como líder contra a tirania, outra é manter essa liderança na transição, no assentamento da democracia. Willy Brandt e De Gaulle deram seguimento a sua trajetória política em países onde a tirania tinha sofrido uma derrota militar acachapante. Dotadas de balizas democráticas, a Alemanha Ocidental e a França se uniram em torno dos dois políticos que as haviam tirado da opressão para levá-las à paz civil.

Muito mais trabalhosa é a tarefa de desarmar os espíritos nos países onde a democracia aparece como uma flor exótica. Como na África do Sul, ou na ex-URSS. Aliás, é possível imaginar que Soljenitsin, travado na militância eslavófila e no misticismo religioso, daria um péssimo primeiro-ministro ou um desastroso ministro da Cultura na Rússia atual. A grandeza de Mandela reside na junção que ele realizou entre suas duas vidas, seus dois destinos. Mártir do combate contra a opressão no passado e estadista da democracia no presente, Mandela é um homem raro em nosso século.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador





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