J. R. Guzzo
Em modo extremo
"Lula não corrige
nenhum dos erros que comete, pois acabou
convencido de que não erra nunca;
além disso, é estimulado
o tempo todo a continuar errando"
O brasileiro
comum, do tipo que não pode nomear parentes nem agregados para "cargos
em comissão" no serviço público, raramente tem a oportunidade
de ser bajulado. Em compensação, passa a vida pagando pelos estragos
causados pela bajulação praticada em escala maciça, e todos
os dias, nas esferas mais altas do governo a começar pela esfera
mais alta de todas. Não existe uma única alma, ali, capaz de admitir
que possa haver algum erro, mesmo de pequeno porte, em qualquer coisa que o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva diga, faça ou pense. O resultado é
que Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou convencido
de que não erra nunca; além disso, é estimulado o tempo todo
a continuar errando. A conta, como de costume, é paga pelo público
em geral. Como poderia ser diferente, quando as pessoas com quem Lula fala e convive
diariamente estão dispostas a tudo para deixar claro, claríssimo,
que ele tem sempre razão, seja lá no que for?
O
presidente, por sua própria iniciativa, já se acha a obra mais bem-acabada
que a história do Brasil conseguiu produzir até hoje. Fica ainda
mais convencido disso, naturalmente, quando é chamado por seus ministros
e principais mandarins de "Nosso Mestre", "Nosso Guia" ou
"Nossa Luz", e passa o dia inteiro cercado de gente cuja grande preocupação
na vida é dar um jeito de dizer só o que ele quer ouvir. Ou então
não dizer, de jeito nenhum, o que ele não quer ouvir. Talvez ninguém
tenha resumido melhor essa questão do que a ex-ministra Dilma Rousseff,
pré-candidata oficial nas próximas eleições presidenciais. Questionada recentemente sobre o que achava da situação
dos presos políticos em Cuba, que Lula havia acabado de comparar com "bandidos"
de São Paulo, Dilma mostrou que só pensa naquilo como concordar
com o chefe. "Vocês não vão tirar de mim nenhuma
crítica ao presidente Lula", respondeu aos jornalistas. "Nem
que a vaca tussa." A candidata, em suma, não disse nada sobre a liberdade
em Cuba. Ao mesmo tempo, disse tudo sobre o padrão de conduta hoje em vigor
no governo.
Até algum tempo atrás, com seus índices
de popularidade que não param de subir, Lula parecia satisfeito em ouvir
de seus auxiliares, concordando 100% com eles, que é o maior presidente
que o país jamais teve. Hoje já começa a dar a impressão
de que está se sentindo grande demais para caber nas fronteiras do Brasil.
"Eu gostaria que todos os governantes do mundo agissem como eu ajo",
disse ele numa de suas recentes viagens ao exterior. Ultimamente deu para achar
que o Brasil tem condições de resolver o problema do Oriente Médio,
que está aí pelo menos desde 1948, ou de convencer os aiatolás
do Irã a utilizar de maneira construtiva a bomba atômica que, segundo
se suspeita, estão fabricando. Imagina que a melhor maneira de amansar
ditadores é ficar amigo deles, e vive ouvindo de seus colaboradores que
é um grande nome para chefiar as Nações Unidas depois que
acabar seu mandato presidencial; aparentemente, até agora, vem achando
muito natural essa possibilidade.
É óbvio que
não se pode esperar nada muito diferente disso; a Presidência da
República, aqui ou em qualquer lugar do mundo, é um ecossistema
voltado para a sobrevivência dos mais aptos a bajular, obedecer e dissimular
o que pensam. Tome-se, por exemplo, o caso da Casa Branca, onde a palavra "transparência"
tem um valor quase religioso, pelo menos no discurso oficial da política
americana. Ninguém que tenha um gabinete ali dentro sairia de casa de manhã,
rumo ao trabalho, prometendo a si próprio: "Hoje eu vou dizer umas
boas verdades a esse Obama". Se disser, serão as suas últimas
palavras no emprego o índice de mortalidade na carreira é
altíssimo para pessoas que querem, ao mesmo tempo, servir a presidentes
da República e manter intacta a sua sinceridade. Na verdade, a história
se repete em qualquer lugar, público ou privado, onde alguém manda.
O máximo que se consegue nesses ambientes, em matéria de crítica,
são comentários do tipo: "O grande defeito do chefe é
que ele trabalha demais". Ou é perfeccionista demais, sincero demais,
confia demais nas pessoas, e por aí afora.
O problema,
nos casos de bajulação em modo extremo como a que existe hoje em
torno do Palácio do Planalto, é que o governo já começa
a achar que a ausência de aplauso é uma anomalia; algo tão
incompreensível que só pode ser má-fé. "Eu inaugurei
2 t000 casas e não vi uma nota no jornal", espantou-se o presidente
tempos atrás. É nisso que veio dar essa história de "Nosso
Mestre"...
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