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Home  »  Revistas  »  Edição 2160 / 14 de abril de 2010


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Livros

Criminosos honestos

Um romance retrata a cultura da violência de um clã siberiano


Moacyr Scliar

Alberto Estevez/Corbis/Latinstock
A VIDA É COMBATE
Nicolai Lilin: as regras de conduta dos urcas são estritas. Mas o assassinato é permitido

A denúncia da opressão foi um tema forte na literatura produzida na finada União Soviética. O dissidente Alexander Soljenitsin (1918-2008) revelou o universo sombrio dos campos de trabalhos forçados em obras como Arquipélago Gulag. Com a queda do comunismo, outros aspectos da vida social nas antigas repúblicas soviéticas começam a ser exorcizados. O crime organizado é um exemplo: a emergência da máfia russa mostra que, contrariando certas ilusões, setenta anos de regime comunista não erradicaram a tendência à transgressão – ao contrário, podem tê-la acentuado. Lançado com sucesso na Itália, onde o autor vive, Educação Siberiana (tradução de Eliana Aguiar; Alfaguara; 336 páginas; 54,90 reais), romance de Nicolai Lilin, veterano da guerra da Chechênia e dublê de escritor e tatuador, oferece um retrato realista e brutal de um clã criminoso – os urcas, povo de origem siberiana deportado nos tempos do stalinismo para a cidade de Bender, hoje pertencente à Moldávia.

Educação Siberiana mistura comentários sobre a cultura criminosa de Bender com cenas de violência extrema – pauladas, punhaladas, tiros –, que se repetem à exaustão, justificando o provérbio urca que serve de epígrafe ao livro: "Há quem goze a vida, há quem a sofra; para nós, a vida é combate". Embora se apresente como ficção, o poder do livro está em seu caráter de depoimento. Nascido em Bender, em 1980, Lilin foi criado segundo os estranhos códigos urcas. Esse clã – que não gosta de ser confundido com a máfia russa – impõe uma série de regras de conduta para o "criminoso honesto". Pode-se matar e roubar, mas o estupro é proibido. Presos e suas famílias devem ser amparados. A religião é respeitada, mas o governo e seus agentes são hostilizados. Aclamado pelo jornalista italiano Roberto Saviano – autor de Gomorra, a impressionante radiografia da máfia napolitana –, o livro de Lilin examina como, em um mundo globalizado, a cultura da violência pode emergir de laços grupais estreitos. A identidade criminosa vincula-se a uma etnia e a suas leis informais. É preciso, porém, não levar Lilin muito ao pé da letra quando ele fala da ética de seu clã – a tal "educação siberiana" do título. Bandido, afinal, é bandido.

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