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• Dengue: Os repelentes que funcionamArtes e Espetáculos
• Música: Como a internet mudou a relação dos músicos com seus fãsLivrosO chefe, esse eterno vilãoGeorges Perec foi um dos grandes prosadores franceses.
Mas, na hora
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Michel Clement/AFP![]() |
| ELE ERA DE VÊNUS Perec: forma inventiva que as ideias nem sempre acompanham |
Se
você quer pleitear um salário melhor no trabalho, A Arte e
a Maneira de Abordar Seu Chefe para Pedir um Aumento (Companhia das Letras;
tradução de Bernardo Carvalho; 88 páginas; 29,50 reais) não
é, de jeito nenhum, o livro que vai ajudá-lo. Ele entrega o exato
contrário do que o título promete: não conselhos e regras
práticas, mas uma narrativa experimental, sem vírgulas nem pontos
finais, cujo desfecho inevitável é a frustração do
projeto. E nem seria diferente, em se tratando de uma obra do escritor Georges
Perec (1936-1982). Se os autores de autoajuda são de Marte, Perec era de
Vênus. Ou melhor, do planeta cujos habitantes se descrevem com as palavras
do modernista Franz Kafka: "Sou feito de literatura". Muitos o consideram
o prosador francês mais importante da segunda metade do século XX.
Não há dúvida de que, formalmente, foi o mais inventivo.
Cada um de seus livros obedecia a restrições autoimpostas. A letra "e" está ausente do romance La Disparition (O Sumiço), mas é a única vogal empregada em Les Revenentes (algo como Os Retornantes). Dezenas de pequenas regras operam na obra-prima A Vida Modo de Usar a mais célebre obriga a narrativa a saltar pelos apartamentos de um edifício como um cavalo no tabuleiro de xadrez. Para o livrinho agora lançado no Brasil, Perec partiu de um organograma simples e explorou, um a um, os percursos que levariam à sala do chefe, bem como os contratempos que impediriam que se chegasse até lá. Fez isso de maneira tão cabal que o título mais preciso para o texto seria Como Construir um Labirinto. A despeito da engenhosidade literária, contudo, a visão que Perec transmite da vida num escritório nada tem de penetrante: é um clichê.
Desde o século XIX, boa parte da literatura ocidental tem sido "antiburguesa". A condenação não é necessariamente política. Antes mesmo de ser um inimigo das classes mais baixas, o burguês é um inimigo do espírito livre. A ficção sobre funcionários, gerentes e executivos é uma fatia importante dessa literatura. Seu tema central é a mutilação da individualidade. O homem do escritório tem mente estreita, é conformado e tacanho. Nas versões mais extremas, transforma-se numa figura oca, num autômato.
Bartleby, o escriturário inventado pelo americano Herman Melville num conto de 1853, é um dos exemplos mais antigos desse homem vazio. No fim da história, sua interação com o mundo se resume a uma frase: "Prefiro não fazer". Também memoráveis são os burocratas de pesadelo criados por Kafka em romances como O Castelo. Na primeira metade do século XX, romancistas americanos como Theodore Dreiser e Sinclair Lewis procuraram descrever as salas das grandes empresas para onde se deslocava a existência de um contingente cada vez maior de pessoas. Em 1922, Lewis congelou a figura do funcionário de corporação em Babbitt, anti-herói do romance de mesmo nome. A palavra babbittry entrou para a língua inglesa, significando estreiteza e complacência. Publicado em 1961 e recentemente redescoberto (com direito a filme com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet), o romance Foi Apenas um Sonho, de Richard Yates, traz o retrato amargo de um homem que, ao sonho de uma vida boêmia na Europa, acalentado por sua mulher, prefere o cotidiano num departamento de vendas.
É claro que a rotina numa grande empresa pode fomentar a mediocridade e levar a uma vida cinzenta. Mas as companhias modernas também são lugares de inovação e abrigam, com frequência, uma fauna pitoresca como sabe qualquer um que trabalhe nelas. Retratar essa realidade mais nuançada tem ficado a cargo da cultura "popular" do cinema ou da televisão. Na literatura dita "séria", tudo o que se encontra é o lugar-comum centenário. Como no livro de Georges Perec, em que as pessoas ganham nomes como sr. X e sr. Z, e o virtuosismo da forma não mascara a mesmice das ideias.
Corporações do tédioA vida em empresas e escritórios na versão cinzenta de três escritores
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