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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
No
supermercado,
entre as gôndolas
Uma
foto de Waldomiro Diniz ilustra o estado
de espírito do ex-assessor e também o do
governo como um todo
Um
homem a empurrar seu carrinho, no cenário tão familiar
do supermercado pode existir melhor imagem de serena rotina,
de vida que segue? Certas imagens são o retrato perfeito
e acabado de sua época. Quarenta ou cinqüenta anos atrás
a cena correspondente seria a de uma mulher com uma cesta, num daqueles
lugares a que se dava o nome de empório. Hoje o homem, despido
de boa parte da soberba machista, acomoda-se nela com tanta naturalidade
quanto a mulher. A cesta, por sua vez, entrou em declínio,
atropelada por esse engenho esquecido, quando se faz o rol dos meios
de transporte, mas tão útil quanto o avião,
que é o carrinho do supermercado. E o empório (ou
melhor seria dizer armazém?) foi substituído pelo
aparato impressionante do supermercado, essa instituição
que como poucas resume o nosso tempo, internamente montada em forma
de labirintos cujo objetivo não é levar os incautos
a se perder, como os labirintos primitivos, mas fazê-los se
achar na felicidade do consumo, e cujas prateleiras são generosamente
chamadas de gôndolas, como os barcos de Veneza.
A
imagem de um homem entre as gôndolas, o carrinho nas mãos,
remete a clássicos da rotina e do intimismo, na história
da arte. É uma imagem que serviria à perfeição
a um Norman Rockwell, o pintor e ilustrador americano que, com realismo
e terna cumplicidade, retratou as cenas típicas da vida cotidiana
em seu país os casais em casa, as travessuras das
crianças, o jogo de beisebol na escola. Se se quer trocar
o pitoresco pelo sublime, então vamos a Vermeer, o pintor
holandês do século XVII, autor de cenas em que os personagens,
geralmente mulheres, são flagrados a ler uma carta, a verter
leite numa tigela ou a praticar o alaúde, na solidão
da casa. O que há de belo e tocante em tais cenas é
a ausência de pompa dos personagens. Eles são apanhados
no momento, tão verdadeiro, da distração e
do despreparo.
Distraído
vinha ele, o homem a propósito de quem se teceu a chorumela
acima, a caminhar placidamente entre as gôndolas, o carrinho
das compras já cheio para mais da metade, quando foi flagrado
pelas últimas pessoas que gostaria de encontrar na vida,
nas presentes circunstâncias. O homem em questão é
Waldomiro Diniz, o pivô do escândalo que atazana o governo.
As pessoas que não gostaria de encontrar são dois
profissionais de imprensa, o fotógrafo Sérgio Lima
e o repórter Iuri Dantas, da Folha de S.Paulo. A foto
de Waldomiro num supermercado de Brasília, por volta das
14h30 de quarta-feira, foi parar na primeira página da Folha
do dia seguinte. A conversa com os jornalistas foi rápida.
Waldomiro disse que confia na Justiça e que está levando
"vida normal". Só. "Você acabou com minhas compras",
queixou-se a Iuri Dantas. Ato contínuo, abandonou o carrinho
e deu as costas. Pobre Waldomiro. Sua casa ficou tão desabastecida
quanto antes.
A
foto que sobrou do ocorrido pode ser explorada de diversos ângulos.
Dá para tentar investigar, lupa em punho, as compras que
ele fazia. Perfeitamente identificáveis são iogurtes
e guardanapos de papel. Certos pacotes vermelhos parecem conter
salsichas, ou salames, o que denotaria alguém sem disposição
ou assistência para cozinhar de verdade. Não. Observando
bem, há também produtos que parecem carnes. Então,
é porque ou ele mesmo, ou alguém por ele, vem se aventurando,
sim, nas panelas. Caso alguém se disponha a exame mais minucioso
e competente do conteúdo do carrinho, chegará a conclusões
quanto aos hábitos alimentares e ao estilo de vida do ex-assessor
do ministro Dirceu. Também dá para concluir, do aspecto
algo jogado dos artigos no carrinho, os iogurtes meio tombados,
que Waldomiro não é um espírito metódico.
Será por isso que se deixou flagrar em conversa pecaminosa
com um bicheiro?
O
que a foto denota de mais significativo, no entanto, é a
desesperada busca da normalidade. Claro que para Waldomiro não
é "normal" entregar-se às compras às 14h30
de um dia de semana. "Vida normal", para ele, eram o agito dos gabinetes
e o buchincho do Congresso. Mas que fazer? Perdida uma, resta ao
ser humano procurar outra "normalidade". As mais disponíveis
são as que se inserem no quadro aconchegante da rotina doméstica.
Por exemplo, ir ao supermercado. O que a foto flagra arrisquemos
uma interpretação é uma tentativa de
Waldomiro de provar a si mesmo que a vida segue. Mas a foto, rica
de significados, diz mais. Assim como a de Waldomiro, também
a vida do governo ficou de pernas para o ar. Não é
só o ex-assessor que, desde então, busca uma normalidade
em que se refugiar. O governo também. Donde se conclui que
a imagem do supermercado serve igualmente para o que vem fazendo
o governo ele também envolvido em trabalhosa simulação
de normalidade, ele também metaforicamente empurrando seu
carrinho de supermercado, avançando entre as gôndolas,
detendo-se aqui e ali para recolher alguma mercadoria, como se nada
o abalasse, como se nada de mais estivesse acontecendo.
P.S.:
A foto de que aqui
se trata encontra-se na pág. 49.
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