Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
No supermercado,
entre as gôndolas

Uma foto de Waldomiro Diniz ilustra o estado
de espírito do ex-assessor – e também o do
governo como um todo

Um homem a empurrar seu carrinho, no cenário tão familiar do supermercado – pode existir melhor imagem de serena rotina, de vida que segue? Certas imagens são o retrato perfeito e acabado de sua época. Quarenta ou cinqüenta anos atrás a cena correspondente seria a de uma mulher com uma cesta, num daqueles lugares a que se dava o nome de empório. Hoje o homem, despido de boa parte da soberba machista, acomoda-se nela com tanta naturalidade quanto a mulher. A cesta, por sua vez, entrou em declínio, atropelada por esse engenho esquecido, quando se faz o rol dos meios de transporte, mas tão útil quanto o avião, que é o carrinho do supermercado. E o empório (ou melhor seria dizer armazém?) foi substituído pelo aparato impressionante do supermercado, essa instituição que como poucas resume o nosso tempo, internamente montada em forma de labirintos cujo objetivo não é levar os incautos a se perder, como os labirintos primitivos, mas fazê-los se achar na felicidade do consumo, e cujas prateleiras são generosamente chamadas de gôndolas, como os barcos de Veneza.

A imagem de um homem entre as gôndolas, o carrinho nas mãos, remete a clássicos da rotina e do intimismo, na história da arte. É uma imagem que serviria à perfeição a um Norman Rockwell, o pintor e ilustrador americano que, com realismo e terna cumplicidade, retratou as cenas típicas da vida cotidiana em seu país – os casais em casa, as travessuras das crianças, o jogo de beisebol na escola. Se se quer trocar o pitoresco pelo sublime, então vamos a Vermeer, o pintor holandês do século XVII, autor de cenas em que os personagens, geralmente mulheres, são flagrados a ler uma carta, a verter leite numa tigela ou a praticar o alaúde, na solidão da casa. O que há de belo e tocante em tais cenas é a ausência de pompa dos personagens. Eles são apanhados no momento, tão verdadeiro, da distração e do despreparo.

Distraído vinha ele, o homem a propósito de quem se teceu a chorumela acima, a caminhar placidamente entre as gôndolas, o carrinho das compras já cheio para mais da metade, quando foi flagrado pelas últimas pessoas que gostaria de encontrar na vida, nas presentes circunstâncias. O homem em questão é Waldomiro Diniz, o pivô do escândalo que atazana o governo. As pessoas que não gostaria de encontrar são dois profissionais de imprensa, o fotógrafo Sérgio Lima e o repórter Iuri Dantas, da Folha de S.Paulo. A foto de Waldomiro num supermercado de Brasília, por volta das 14h30 de quarta-feira, foi parar na primeira página da Folha do dia seguinte. A conversa com os jornalistas foi rápida. Waldomiro disse que confia na Justiça e que está levando "vida normal". Só. "Você acabou com minhas compras", queixou-se a Iuri Dantas. Ato contínuo, abandonou o carrinho e deu as costas. Pobre Waldomiro. Sua casa ficou tão desabastecida quanto antes.

A foto que sobrou do ocorrido pode ser explorada de diversos ângulos. Dá para tentar investigar, lupa em punho, as compras que ele fazia. Perfeitamente identificáveis são iogurtes e guardanapos de papel. Certos pacotes vermelhos parecem conter salsichas, ou salames, o que denotaria alguém sem disposição ou assistência para cozinhar de verdade. Não. Observando bem, há também produtos que parecem carnes. Então, é porque ou ele mesmo, ou alguém por ele, vem se aventurando, sim, nas panelas. Caso alguém se disponha a exame mais minucioso e competente do conteúdo do carrinho, chegará a conclusões quanto aos hábitos alimentares e ao estilo de vida do ex-assessor do ministro Dirceu. Também dá para concluir, do aspecto algo jogado dos artigos no carrinho, os iogurtes meio tombados, que Waldomiro não é um espírito metódico. Será por isso que se deixou flagrar em conversa pecaminosa com um bicheiro?

O que a foto denota de mais significativo, no entanto, é a desesperada busca da normalidade. Claro que para Waldomiro não é "normal" entregar-se às compras às 14h30 de um dia de semana. "Vida normal", para ele, eram o agito dos gabinetes e o buchincho do Congresso. Mas que fazer? Perdida uma, resta ao ser humano procurar outra "normalidade". As mais disponíveis são as que se inserem no quadro aconchegante da rotina doméstica. Por exemplo, ir ao supermercado. O que a foto flagra – arrisquemos uma interpretação – é uma tentativa de Waldomiro de provar a si mesmo que a vida segue. Mas a foto, rica de significados, diz mais. Assim como a de Waldomiro, também a vida do governo ficou de pernas para o ar. Não é só o ex-assessor que, desde então, busca uma normalidade em que se refugiar. O governo também. Donde se conclui que a imagem do supermercado serve igualmente para o que vem fazendo o governo – ele também envolvido em trabalhosa simulação de normalidade, ele também metaforicamente empurrando seu carrinho de supermercado, avançando entre as gôndolas, detendo-se aqui e ali para recolher alguma mercadoria, como se nada o abalasse, como se nada de mais estivesse acontecendo.

 

P.S.: A foto de que aqui se trata encontra-se na pág. 49.

 
 
 
 
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