Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Especial
Os segredos de Senna


João Gabriel de Lima

 
Marco de Bari


Em Profundidade:
Ayrton Senna

Uma característica brasileira – que sob vários aspectos pode ser considerada positiva – é a irreverência em relação aos ídolos. O brasileiro riu das amantes de dom Pedro I, riu dos porres de Tom Jobim e da mania do rei do futebol de referir-se a si próprio na terceira pessoa, "o Pelé". A exceção é Ayrton Senna. Sua morte a 300 quilômetros por hora na curva Tamburello, em Ímola, na Itália, no dia 1º de maio de 1994, solidificou-o no imaginário popular brasileiro como um herói especial. Os brasileiros reverenciam Ayrton Senna quase da mesma maneira que a Argentina cultua Carlos Gardel ou Evita Perón, ídolos envoltos em uma certa aura de santidade. Investigar a vida deles, humanizando-os, equivale a uma quase profanação. Talvez seja por isso que só agora, dez anos depois da tragédia da Tamburello, tenha sido publicada uma biografia à altura do personagem: Ayrton, o Herói Revelado, de Ernesto Rodrigues, que chega às livrarias nesta semana. O autor foi chefe do escritório da TV Globo em Londres e dedicou dois anos ao projeto de dar uma roupagem humana à imagem deificada do herói do automobilismo. Rodrigues entrevistou 213 pessoas em sete países – Brasil, Argentina, Inglaterra, Itália, França, Portugal e Japão. O resultado é um livro que mostra pela primeira vez um Ayrton Senna humano, contraditório e, portanto, mais real do que o mito voador das pistas.

A maior parte das biografias disponíveis no mercado, como as escritas pelo inglês Christopher Hilton e pelo jornalista brasileiro Lemyr Martins, enfatiza a vida profissional do piloto. Já o forte de O Herói Revelado é o lado pessoal. Senna, o mito, é descrito como um gênio, um fanático, uma vítima e um mártir. Gênio porque ninguém pilotava como ele. Fanático por sua dedicação quase integral ao esporte. Vítima, pelos golpes baixos que sofreu de seus principais rivais, Alain Prost e Nelson Piquet. Mártir por ter morrido num momento em que lutava para melhorar as condições de segurança do automobilismo. A biografia se debruça sobre essas e outras facetas e mostra que Ayrton, o homem, era muito mais complexo do que se deixou conhecer em vida. O fanático que só pensava em automobilismo encontrava tempo para uma vida amorosa movimentada. A vítima de Nelson Piquet e Alain Prost – responsáveis por espalhar o boato que marcou a vida de Senna, segundo o qual o piloto seria homossexual – também não era tão vítima assim. Nos dois tiroteios, lembra o livro, foi Senna quem disparou o primeiro projétil. O mártir da curva Tamburello, que realmente iniciava um movimento para aumentar a segurança das pistas, era dono de um estilo de pilotagem em que a ousadia e a ânsia de superação dos limites pessoais o colocavam perto de ser desleal. O livro mostra como a batida na qual ele tirou Alain Prost da corrida decisiva do campeonato mundial de 1990, em Suzuka, no Japão, foi premeditada. Mais do que isso, uma manobra arriscadíssima, realizada a 250 quilômetros por hora, que poderia ter ferido gravemente ou até matado o francês – ou ambos. No quesito genialidade, a biografia alinha fatos que corroboram o que todo mundo sabe: ninguém pilotava um Fórmula 1 tão perfeitamente quanto Ayrton Senna.

A parte mais surpreendente do livro é a que esmiúça a vida amorosa de Ayrton. O automobilismo era a coisa mais importante para ele, mas seus ciclos vitais não eram pontuados apenas pelas temporadas da Fórmula 1 – poderiam também receber nomes de mulheres. De acordo com o livro, pelo menos cinco tiveram relevância para ele: Lilian de Vasconcellos, Adriane Yamin, Xuxa, Cristine Ferracciu e Adriane Galisteu. A fase Lilian foi a do início da carreira do piloto na Fórmula Ford inglesa. Ela foi a única com quem Senna se casou de papel passado, em 1981. Ele tinha 21 anos e ela, 19. Depois da festa de casamento, os dois seguiram para Londres, onde viveriam uma vida financeiramente apertada. Ayrton, orgulhoso, não gostava de pedir dinheiro ao pai. Em depoimento incluído no livro, Lilian se lembra do marido como uma pessoa carinhosa, mas preocupada demais com a carreira. Em véspera de corrida ou de treino, ele preferia dormir em cama separada, para não ceder às tentações da libido. Num momento em que Lilian pensava estar esperando um filho e contou para ele, Ayrton reagiu com frieza: "Se você estiver grávida, vai criar nosso filho no Brasil". O casamento durou oito meses. A fase Adriane Yamin foi a de seus primeiros tempos na Fórmula 1. O relacionamento durou de 1985 a 1988. Filha de um empresário paulistano, ela estava com 15 anos quando começou a namorar Ayrton. Ficaram noivos. De acordo com amigos íntimos do piloto, foi um namoro comportado. Na época, Ayrton morava em Esher, na Inglaterra. Adriane só esteve lá uma vez, em 1986, acompanhada dos pais e da mãe de Senna. "Não era nada chocante para o Ayrton, naquela época, a mãe de Adriane dizer que ela não podia viajar sozinha. Para ele, conservador que era, isso era o correto", diz no livro a médica Linamara Battistella, amiga de Senna.

O primeiro fim de semana que Ayrton passou ao lado de Xuxa foi no final de 1988, ano em que o piloto ganhou seu primeiro título mundial. Na segunda-feira subseqüente, Ayrton chegou à casa de Galvão Bueno, locutor da Globo, com ares de colegial apaixonado. Segundo outro amigo do piloto, Alfredo Popesco, a apresentadora teria sido um marco na vida de Senna. "Xuxa veio no momento certo", avalia o empresário Marcos José Magalhães Pinto, também amigo de Ayrton. "Após ser campeão mundial, ele tirou um peso dos ombros, o que abriu espaço para um relacionamento." Acostumado a ter as namoradas a seus pés, Ayrton logo se irritou com a agenda cheia de Xuxa e, principalmente, com o poder da empresária Marlene Mattos sobre ela. No início de 1989, o casal estava no Aeroporto do Galeão embarcando para Mônaco quando Marlene apareceu para dizer que Xuxa não viajaria. A empresária e o namorado tiveram uma briga cômica pela posse das malas. Xuxa acabou indo. No Natal de 1989, chateado com a perda do bicampeonato para Prost e estremecido com a namorada, Senna resolveu fazer uma surpresa para Xuxa visitando-a em Nova York. Chegou à casa onde ela estava hospedada vestido de Papai Noel. Ela o mandou embora. Depois do fora humilhante, Senna voltou para o Brasil. Até o fim da vida dele, Xuxa lhe telefonava periodicamente. Rodrigues não descobriu o que conversavam, mas, segundo amigos, o piloto costumava ficar deprimido depois de receber essas ligações.

Muitos achavam que se tratava de um namoro de fachada. Senna ganhava quase todas as corridas, e a inveja fazia que se espalhassem com mais força entre os pilotos e jornalistas que cobriam as corridas os boatos de que ele seria homossexual. De acordo com o autor Ernesto Rodrigues, nas 213 entrevistas com pessoas próximas de Senna que foram feitas para o livro, ele não ouviu nada que pudesse dar força de verdade aos boatos. O rumor começou nos bastidores da Fórmula 1. Obcecado pelos ajustes do carro, Senna costumava evitar o assédio daquelas moças de shortinho que freqüentam os boxes dos autódromos. O boato tomou corpo quando Senna, no fim de 1986, contratou Américo Jacoto Júnior, um amigo de infância, para ser seu secretário particular. Júnior era também piloto do helicóptero de Ayrton no Brasil e seu massagista. O rumor de que os dois tinham uma relação que ia além do profissional se tornou tão forte que o pai de Senna, Milton da Silva, pediu ao filho que se livrasse da companhia do amigo. Ayrton acatou a decisão e demitiu o secretário no fim de 1987. A amizade entre ambos duraria até a morte do piloto.

A convivência íntima entre os responsáveis pelo espetáculo da Fórmula 1 é inevitavelmente intensa. Eles acabam ficando nos mesmos hotéis, vão aos mesmos restaurantes e às mesmas festas. A rivalidade entre os pilotos aflora facilmente, devido à própria natureza da atividade. Ser da mesma equipe ou do mesmo país não é atenuante. Nelson Piquet já era um ídolo quando Senna começou a surgir na Fórmula 1. Desde o primeiro momento se estranharam. Senna atribuía a Piquet a boataria que o magoava profundamente. No início de 1988, Piquet acabara de ser tricampeão mundial, mas todas as atenções estavam voltadas para Senna, que pela primeira vez correria por uma escuderia competitiva, a McLaren. Numa entrevista à imprensa brasileira, Ayrton resolveu espicaçar Piquet, enquanto explicava por que tirava férias prolongadas. "Já que ninguém gosta muito dele, o único jeito era eu sumir para que ele pudesse aparecer um pouco", declarou. Em resposta, Piquet deu a famosa entrevista dizendo que Senna não gostava de mulheres. O único piloto que Ayrton considerava um amigo foi o austríaco Gerhard Berger, seu colega na equipe McLaren. Os outros foram apenas colegas de trabalho.

Egberto Nogueira
ÍDOLO SANTIFICADO
O adeus a Senna: morte trágica fez dele um mito com uma certa aura de santo


Senna passou a cercar sua vida privada de enormes barreiras. À maneira das grandes estrelas de Hollywood, começou a controlar todas as informações sobre sua vida e carreira. Se alguém queria uma entrevista, o escritório de Senna se prontificava a mandar ao interessado um kit com fotos e uma lista de perguntas e respostas mais freqüentes. Os namoros do piloto eram divulgados com a mesma burocracia com que seu escritório dava publicidade a suas façanhas na pista. O relacionamento de Senna com a belíssima morena carioca Cristine Ferracciu deu-se longe dos olhos da imprensa. Ayrton e Cristine estiveram juntos por quase dois anos, entre 1990 e 1991, tempo em que Senna tinha casas montadas em Mônaco e em Portugal. O relacionamento começou a balançar quando o piloto reagiu mal à decisão de Cristine de voltar para o Brasil numa época em que a mãe dela estava com câncer. Cristine ficou magoada. Além disso, conta a biografia, Ayrton era um sujeito desconfiado, que impunha restrições a amigas de infância dela por achar que estavam se aproximando de Cristine por causa da fama do piloto. "Esse lado desconfiado fez com que Ayrton jamais convidasse meus pais para ir a sua casa", diz Cristine no livro.

Senna não fazia questão de ser amado pelos colegas de pista. O profissionalismo e o espírito competitivo muitas vezes eram percebidos apenas como grosseria. A histórica briga com Alain Prost, o também lendário tetracampeão francês, foi iniciada por Senna. Em 1989, os dois pilotos tinham um pacto na McLaren, a equipe de ambos. Para evitar acidentes, um não ultrapassaria o outro na primeira volta. Na segunda corrida após o pacto, no malfadado circuito de Ímola, na Itália, Ayrton ultrapassou Prost e manteve a liderança até o fim. O bom relacionamento dos dois acabou aí.

Vários fatos narrados no livro ajudam a entender o estilo de pilotagem de Senna. Um episódio, ocorrido quando Ayrton tinha apenas 14 anos e corria de kart, é ilustrativo. Ele ia treinar levando na mão esquerda um cronômetro. Em vez de fazer a tomada de tempo da volta completa, Senna dividia o circuito em quatro e experimentava novos traçados em cada trecho, preocupado em ganhar milésimos de segundo em cada um deles. Na corrida, a soma dos pequenos ganhos fazia a diferença. Ele levou esse estilo detalhista para a Fórmula 1. Seu perfeccionismo ajudou-o a manter um entendimento perfeito com os japoneses da Honda, fornecedores de motores para a McLaren. Como queriam monitorar o desempenho do carro e não podiam contar com a boa vontade dos pilotos para fazer relatórios para eles – haviam tido más experiências com Keke Rosberg e Nigel Mansell nesse sentido –, os engenheiros japoneses aperfeiçoaram a chamada telemetria, ou seja, a coleta de dados sobre as corridas feita pelo computador do carro. Senna viu nisso um grande instrumento para aperfeiçoar a própria maneira de pilotar. "Ayrton foi o primeiro a ter a preocupação de recolher todos os relatórios disponíveis sobre o desempenho do carro e se debruçar neles até tarde da noite", lembra Ron Dennis no livro. "Era um obsessivo-compulsivo nesse aspecto." A esse detalhismo, Senna mesclava seu estilo ousado, sua disposição de frear sempre no último segundo, sua coragem de dirigir no limite em pistas encharcadas e, principalmente, sua habilidade para fazer ziguezagues a 300 quilômetros por hora, impedindo a ultrapassagem de quem vinha atrás – expediente que fez o campeão de 1982, Keke Rosberg, declarar que teria de reaprender a pilotar depois de ver Ayrton.

Senna era bom e sabia disso. Pela consciência que tinha de seu valor, era muitas vezes considerado arrogante. Era um titã para negociar contratos. No início de 1988, não havia ainda ganho nenhum título, mas fechou com a McLaren por um valor superior ao que recebia o tricampeão Nelson Piquet. Em 1993, quando já era de longe o piloto mais bem pago de todos, pediu ainda mais, 1 milhão de dólares por grande prêmio. Para conseguir captar tal valor, simulou uma briga com Ron Dennis. Ele ameaçava parar de correr, os dois trocavam farpas pelos jornais, e o patrocinador comparecia com o dinheiro, que era depositado em sua conta corrida a corrida, às vésperas dos treinos classificatórios. Ayrton, na época, gostava de repetir o mantra "no money, no race" sem dinheiro, nada de corrida.

O trecho do livro que narra a morte de Senna acrescenta ainda mais drama aos atos finais de sua vida. O autor tenta explicar os motivos pelos quais o piloto tinha o rosto crispado naquele histórico momento em que uma câmera da TV Globo captou sua imagem, com o olhar perdido, apoiado sobre o aerofólio da Williams azul e branca pouco antes da largada da corrida. Na sexta-feira 29 de abril, Senna vira o carro de Rubens Barrichello se espatifar em Ímola. Ele gostava de Rubinho. Meses antes, no Japão, eles foram juntos a um parque da Disney. Comeram cachorro-quente em uma barraquinha e deram início ao que seria um convívio bem mais pacífico do que tivera com Nelson Piquet. No sábado, véspera da própria morte, Senna viu pela primeira vez a morte de um piloto na Fórmula 1 – a do austríaco Roland Ratzenberger.

Na véspera da corrida fatídica, revela o livro, Senna teve um dissabor de outra ordem. Seu irmão, Leonardo, levou para ele uma fita cassete no quarto do hotel. Nela, havia a gravação de uma conversa telefônica de Adriane Galisteu com um antigo namorado. A quinta e última mulher da vida de Senna foi, segundo seus amigos, a que mais lhe fez bem. Com Adriane, o piloto começou a aproveitar a vida como nunca antes havia feito, além de se tornar mais afável e bem-humorado. Ele pensava em se casar com Adriane. "O Ayrton era muito sério, ele sempre namorava para casar", diz o amigo de infância Alfredo Popesco, hoje trabalhando numa concessionária da família Senna. No grampo feito no apartamento de Senna em São Paulo, o antigo namorado de Adriane zombava do piloto, dizendo que era melhor do que Ayrton na cama. Uma besteira. Nada na fita sugeria que Adriane estivesse traindo Senna ou mesmo que tivesse concordado com o comentário machista do ex-namorado. Mas, para quem conhecia Ayrton, a demonstração de intimidade entre a namorada e um outro homem na conversa gravada já seria motivo de crise. Na noite anterior a sua morte, Senna telefonou para Adriane, que estava em Portugal. Alertou-a de que depois da corrida em Ímola queria ter com ela uma conversa séria. Procurada por VEJA, Adriane informou, por meio de sua assessoria, que só se manifestaria depois de ler o livro.

Senna poderia ter vários focos de preocupação quando entrou, naquele 1º de maio, no cockpit de seu carro – mas não foi isso que o matou. O autor da biografia endossa a tese de que o acidente se deu por falha mecânica. Senna tentou fazer a curva Tamburello, mas o carro, por uma quebra na coluna de direção, não obedeceu a seu comando, espatifando-se a 300 quilômetros por hora. Não há no livro novas evidências sobre o caso, provavelmente o acidente mais investigado da história do esporte. A biografia narra, no entanto, um episódio envolvendo Frank Williams, o dono da equipe pela qual Ayrton corria quando morreu, que joga novas luzes sobre a discussão. Em março de 1995, Williams teria procurado a família Senna em São Paulo para dizer que concordava com a tese da falha mecânica. Trata-se de um fato crucial, pois na mesma época os advogados de Williams insistiam na teoria oposta – a da falha humana – para defender a equipe no processo que se arrastava na Itália.

A leitura do livro permite reviver a emoção das vitórias marcantes de Ayrton Senna. A Fórmula 1 atual tem como característica a hegemonia indisputada do alemão Michael Schumacher e de sua Ferrari. A superioridade de ambos é tão flagrante que eles parecem pertencer a uma outra categoria do automobilismo, acima da Fórmula 1. A era Senna, em contraste, foi marcada por encarniçadas rivalidades pessoais, literalmente turbinadas pelo fato de que as diferenças tecnológicas entre as equipes eram menores. Quando Senna começou a correr na categoria máxima do automobilismo, os carros eram movidos a motores cuja força era potencializada por uma turbina. Esse dispositivo, hoje proibido na Fórmula 1, permitia injetar nos motores uma quantidade maior da mistura ar-gasolina, o que lhes conferia força descomunal. Nesse período, a aerodinâmica contava menos. Freios bons e pilotos ousados faziam maior diferença. Senna sentiu-se à vontade nesse meio.

Entre os melhores se contavam Alain Prost, com sua maneira cartesiana de dirigir, e Nelson Piquet, com sua mistura de ímpeto e malandragem. Havia também o inglês Nigel Mansell, o menos técnico e mais agressivo dos pilotos do primeiro time. Senna, o homem que descobria pontos de ultrapassagem onde ninguém ousava e varejava os circuitos à caça dos milésimos de segundo que faziam a diferença, era o melhor de todos. Não por acaso. A Fórmula 1 era sua vida. Senna não gostava de ler – irritava-o ficar muito tempo sentado, a não ser que fosse dentro do cockpit de um carro. Quando viajava, não visitava exposições nem ia a concertos. Não apreciava vinhos – bebia apenas para ficar de porre, quando estava eufórico ou deprimido. Senna nasceu para pilotar – e fez isso tão bem quanto os legendários Juan Manuel Fangio e Jim Clark, aos quais era freqüentemente comparado. Ao lado deles, Ayrton Senna forma a tríade dos que, nesse esporte, merecem ser chamados de gênios.

 

O boato ferino

"Um galão de combustível de altíssima octanagem foi despejado nas rodas de inimigos de Senna no início da temporada de 1987, quando o amigo Américo Jacoto Júnior, a convite de Ayrton, começou a acompanhá-lo em todos os treinos e corridas (...) Piquet e Prost viam e comentavam a relação com outros olhos e palavras.

A primeira vez que Galvão Bueno testemunhou uma provocação dos rivais foi no hotel Klagenfurt, um castelo à beira de um lago situado a 40 minutos de helicóptero do circuito de Zeltweg, às vésperas do GP da Áustria (...) Galvão dividia um quarto amplo com Reginaldo Leme e Júnior, que foram dormir antes dele. Ayrton, segundo Galvão, estava no quarto com a namorada, quando Piquet e Prost, ainda no saguão, por provocação, ofereceram dinheiro a uma das camareiras do hotel para que ela subisse e verificasse se Senna estava no quarto com a namorada ou com Júnior."

 

Papai Noel em Nova York

"Faltavam poucos dias para o Natal de 1989. Ayrton, no auge da decepção com a Fórmula 1, já estava no Brasil, preparando-se para esquecer as pistas por mais um verão. Num encontro com Braguinha (Antonio Carlos de Almeida Braga, banqueiro e amigo de Senna), revelou:

­ Vou a Nova York ver a Xuxa.

­ Ela sabe que você vai?

­ Não, vou fazer uma surpresa para ela.

(...)

Xuxa estava em uma casa em Hampton Bays, reduto da elite nova-iorquina, formado por pequenas vilas à beira-mar. Ele seguiu para lá e, antes de bater à porta, de acordo com o relato que fez a Braguinha, se vestiu de Papai Noel. Ao toque da campainha, a surpresa foi dele. Ayrton relatou depois aos amigos, à família e a pelo menos uma de suas futuras namoradas que Xuxa não quis que ele entrasse:

­ O que você está fazendo aqui? Eu não te chamei, por favor, vá embora. Você não vai entrar aqui.

Ayrton não insistiu. Voltou para o Brasil, decepcionado."

 

Acidente premeditado

"O acidente (que decidiu o campeonato de 1990) foi bem diferente do provocado por Prost no ano anterior para garantir seu tricampeonato, um enrosco na entrada da chicane, tão lento e inofensivo como

uma batida de duas madames na saída do estacionamento do supermercado. O troco de Ayrton foi dado em quinta marcha, a cerca de 250 quilômetros por hora. A caixa de brita, a generosa área de escape existente na curva, a sorte e, para quem acredita, a graça do Divino Espírito Santo garantiram que os danos fossem apenas materiais e, para alguns, morais. (...)

(O piloto Gerhard) Berger, àquela altura já um amigo e confidente de Senna, não reproduziu nenhum diálogo específico em que Ayrton tenha antecipado para ele a manobra de tirar Prost da pista, mas sua análise do acidente demonstrou não apenas a premeditação, mas também uma curiosa preocupação com a segurança, por mais absurda que ela possa parecer: 'Se tinha que bater, melhor que fosse ali logo, onde o perigo era menor, e de preferência logo no começo, porque aí normalmente a velocidade não é tão grande'."

 

Namorada virgem

"Anos depois do fim do namoro com Adriane Yamin, ocorrido no Natal de 1988, Ayrton disse à médica e confidente Linamara Battistella ter certeza de que ela jamais se adaptaria ao tipo de vida dele, embora representasse tudo o que queria de uma mulher: uma moça com estrutura e hábitos de família iguais aos dele, o que incluía virgindade:

'Não era nada chocante, para o Ayrton, naquela época, a mãe de Adriane Yamin dizer que ela não podia viajar sozinha. Para ele, conservador que era, isso era o correto'.

Adriane Yamin hospedou-se apenas uma vez na casa de Ayrton em Esher, em 1986, para uma única oportunidade de acompanhá-lo durante os grandes prêmios da França, Inglaterra e Alemanha. Estava, claro, acompanhada pelos pais e pela mãe de Senna.

A vigilância da mãe de Adriane foi tão rigorosa que, uma tarde, antes de sair para compras com dona Neyde (mãe de Senna), ela encarregou a empregada Juracy de ficar de olho no casal. (...) Para Linamara, Ayrton só veria a questão da virgindade de modo menos conservador muito tempo depois, com Adriane. A Galisteu."

 

O telefonema grampeado

"O assunto daquela conversa séria para a qual Senna ditou instruções tão detalhadas era conhecido por pouquíssimas pessoas. De acordo com Braguinha, eram gravações de conversas feitas no telefone do apartamento de Ayrton em São Paulo. Entre as conversas gravadas uma era entre Adriane e um antigo namorado.

O conteúdo dessa gravação estava em Ímola. Tinha sido levado por Leonardo (Senna, irmão de Ayrton), que havia recebido uma cópia e a mostrou a Ayrton no início da noite de sábado. Além de Ayrton e Leonardo, pelo menos Braguinha e Galvão Bueno tinham conhecimento da fita. De acordo com Braguinha, o diálogo de Adriane com o ex-namorado era entremeado por provocações não muito sutis dele, dizendo que era melhor na cama do que Ayrton.

A gravação foi mostrada a Ayrton no quarto dele, no hotel Castello.

A conversa foi muito difícil para os irmãos. Mas Senna e Leonardo foram juntos para o autódromo no dia seguinte."

 

O plano teatral

"No script concebido por Ron (Dennis, diretor da McLaren) e que foi posto em prática durante as semanas seguintes, ele e Ayrton quase brigaram em público, especialmente diante dos jornalistas. Também fazia parte do 'plano teatral', de acordo com Ron, convencer John Hogan, o diretor da Philip Morris, o principal patrocinador, de que só um orçamento maior manteria Senna na equipe: 'E quando alguém dissesse que era tudo encenação, eu diria que não era de jeito nenhum. E Ayrton entraria com seu discurso, ameaçando mais uma vez não correr. Então eu procuraria o John Hogan'. (...)

Ao se levar em conta a lembrança que Julian Jakobi (responsável pelos negócios de Senna no exterior) guardou do episódio, um detalhe parece reforçar que tudo era mesmo uma encenação: 'Dentro do carro, no trajeto entre o aeroporto e a sede da Philip Morris, eu fui ao lado do motorista. Ayrton e Ron, no banco de trás, não estavam preocupados. Pareciam dois meninos, falando de seus brinquedos, os jatinhos'."

 

A razão da morte

"E se a questão fosse apenas saber, afinal, o que aconteceu na curva Tamburello? (Bernie) Ecclestone (presidente da associação dos construtores de carros) mudou o tom, pensou um pouco e concluiu:

'Jamais saberemos se a coluna quebrou porque ele saiu da pista ou se ele saiu da pista porque a coluna quebrou. Talvez tenha mesmo quebrado antes. Talvez'.

Opinião semelhante foi manifestada por um visitante especial que, em março de 1995, um ano depois da tragédia, pegou um helicóptero em Interlagos, na semana do GP do Brasil, e foi até o prédio empresarial da família Senna, na rua Doutor Olavo Egídio, no bairro de Santana. Num encontro com Viviane, Fabio Machado e Julian Jakobi, ele disse que achava que o acidente fora causado pela quebra da coluna de direção. Era Frank Williams."

 

 
 
 
 
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