Edição 1849 . 14 de abril de 2004

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Partidos

Montagem sobre fotos de Ricardo Stuckert, Rafael Neddermeyer/AE, Ana Araujo e Dida Sampaio
A gestão exemplar de Aécio em Minas, a força de Serra e a competência de Tasso: os presidenciáveis tucanos ainda sob as asas de FHC

Com a crise do governo Lula, FHC volta
à cena política – e até faz planos de,
quem sabe, concorrer ao Planalto


Policarpo Junior


Em Profundidade:
Anos FHC

As idéias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso estão de volta ao debate político. Na semana passada, em artigo publicado por vários jornais, FHC destravou o dique das críticas ao governo. Acusou a administração petista de sofrer de "inoperância gerencial", desperdiçar a chance de extrair vantagens do bom momento da economia mundial e de não ter projeto de longo prazo para o país. Dois dias depois da publicação do artigo, o ex-presidente fez uma palestra em São Paulo e outra em Porto Alegre, nas quais usou mais artilharia e pediu "valentia moral" ao governo para admitir que o desenvolvimento do país ainda "vai levar algum tempo". De imediato, os petistas reagiram. José Genoíno, presidente do PT, acusou Fernando Henrique de renunciar à nobre condição de ex-presidente para virar líder da oposição. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu vazão a seu incômodo. Como 2004 é ano eleitoral, disse Lula, "todo mundo se dá ao luxo de falar o que bem entende". FHC não partiu para a réplica, mas adorou a reação dos petistas. "Não precisa nem jogar a isca. Eles já mordem direto no anzol", festejou, em conversa com um aliado. Adorou porque as coisas estão indo em harmonia com o novíssimo Projeto Fênix: o projeto de, quem sabe, se tudo der certo, voltar ao Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2007.

O Projeto Fênix, assim batizado pelos aliados de FHC, nasceu há algum tempo e vem sendo mantido sob máxima discrição. O nome, Fênix, não é apenas uma referência à ave mitológica que renasce das cinzas, mas também uma paródia com o código que os seguranças da Presidência da República usavam para referir-se ao então presidente Fernando Henrique – "águia". A última reunião para tratar do assunto ocorreu cerca de três semanas atrás. Foi um jantar no apartamento de FHC, em São Paulo. À mesa, estava o trio formado por ex-estrelas do PMDB que trabalharam para o governo tucano: o ex-assessor especial Moreira Franco, o ex-líder Geddel Vieira Lima e o ex-ministro Luiz Carlos Santos, que acabou trocando o PMDB pelo PFL. No jantar, que varou a madrugada, o trio concluiu que é grave a crise deflagrada pela divulgação do achaque do ex-assessor Waldomiro Diniz – que, na semana passada, depois de um longo sumiço, foi flagrado fazendo compras num supermercado de Brasília e, por orientação de seus advogados, não deu nenhuma declaração à imprensa. Limitou-se a dizer que confia na Justiça, velho chavão do réu que quer agradar aos juízes.


Sergio Lima/Folha Imagem
Waldomiro Diniz, que, depois de um longo sumiço, foi flagrado fazendo compras num supermercado da capital: nada a dizer

A crise do governo, na avaliação dos fernandistas, começou como um resfriado, evoluiu para uma pneumonia e corre o risco de virar uma infecção generalizada. A única forma de conter sua escalada, concluíram os convivas, seria apresentar uma esperança para as eleições de 2006 – ou seja, a possibilidade de FHC voltar ao poder. Na opinião deles, o país até agüentaria um fracasso do governo Lula, mas a democracia não sustentaria a falta de uma opção para o seu lugar. O ex-presidente ouviu a conclusão calado e, depois de refletir um pouco, ponderou: "Não vou fazer com o Lula o mesmo que o Lula fez comigo", disse, recusando-se a personificar, desde já, um contraponto ao petismo e ao próprio Lula. Em seguida, Fernando Henrique prometeu: "Mas não vou ficar parado". O ex-presidente não explicou o que pretendia fazer, mas o artigo publicado na imprensa na semana passada tem todo o jeito de integrar o movimento planejado. E outros artigos virão, dizem seus aliados.

Quando passou adiante a faixa presidencial, FHC não tinha a intenção de voltar ao Palácio do Planalto. Em seus cálculos, o peso da idade não favorecia o retorno. Achava que Lula governaria por dois mandatos, ficando no poder até 2010, época em que Fernando Henrique estará completando 79 anos. A crise no governo Lula, porém, se agigantou de tal modo que os tucanos perderam a certeza de que Lula ficará tanto tempo em Brasília. A erosão da popularidade do presidente tem-se mantido numa velocidade acelerada. Na semana passada, nova pesquisa do Ibope mostrou que a confiança em Lula sofreu mais uma queda acentuada, de 7 pontos porcentuais, passando de 60% para 53%. Com isso, ultrapassou uma barreira simbólica: é a primeira vez que Lula fica menos popular que seu antecessor num período equivalente de mandato. Ao completar quinze meses de governo, em seu primeiro mandato, Fernando Henrique tinha aprovação de 60% do eleitorado, exatamente 7 pontos a mais que Lula agora. Para quem, como Lula, se elegeu com um enorme apoio popular e se manteve nas alturas por meses a fio, trata-se de uma queda preocupante.


Roberto Castro/AE
Ricardo Stuckert
Moreira Franco (à esq.), Geddel (à dir.) e Luiz Carlos Santos: o trio está fazendo tudo para ver FHC de volta ao Planalto

Nada disso significa que FHC será candidato, mesmo porque ainda falta muito tempo até lá. A seus aliados mais fiéis, o ex-presidente tem dito que não pretende envolver-se numa disputa eleitoral. Ou seja: se em 2006 as pesquisas mostrarem que terá de disputar voto a voto para vencer, Fernando Henrique preferirá manter sua aposentadoria. Mas, se as pesquisas lhe forem amplamente favoráveis, apontando uma vitória de goleada, FHC cairia com prazer nos braços do povo. "Uma pessoa na minha posição, que foi eleita duas vezes, governou oito anos, não pode entrar na briga de estilingue da política, não deve ficar se oferecendo de enxerido para nada", já disse Fernando Henrique. Tanto é que o trio do Projeto Fênix queria manter seus encontros sob sigilo para não dar a impressão de uma conspiração. Moreira Franco até nega a existência do jantar no apartamento de FHC há três semanas. "Nem sei desse jantar", diz. Os deputados Geddel Vieira Lima e Luiz Carlos Santos, porém, não escondem a verdade. Sem saber das negativas de Moreira Franco, eles confirmaram a VEJA as reuniões periódicas, o jantar e até a presença de Moreira Franco, que estava lá, sentado à mesa, dando seus palpites. Moreira Franco tem suas razões para negar tudo. Ele próprio as explica: "Pegaria mal eu aparecer articulando a volta de Fernando Henrique quando eu sou um dos defensores da candidatura própria do PMDB".

Curiosamente, os tucanos não têm participado das reuniões do Projeto Fênix. A explicação para tal ausência é que, entre os tucanos, há mais candidatos presidenciais do que eleitores. "No PSDB tem uma fila e eu me coloco no fim dela", admite o senador Tasso Jereissati, sempre lembrado numa corrida presidencial. O nome mais cotado no momento é o de José Serra, eleito presidente nacional do PSDB. Serra perdeu para Lula no segundo turno do pleito presidencial de 2002, mas, na disputa, acabou ganhando um balaio de mais de 30 milhões de votos, o que o credencia para concorrer novamente. Serra é um antigo aliado de Fernando Henrique e pertence à galeria de seus amigos mais íntimos, mas também é o maior adversário da ambição presidencial de Fernando Henrique. Afinal, neste momento, o ex-presidente é a única figura política capaz de tirar Serra do páreo entre os tucanos e concorrer à Presidência com o partido unido. Correndo em faixa própria, há dois outros nomes de peso. Um é o governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, que já andou pedindo aos seus correligionários que o convoquem para debates sobre temas nacionais mesmo que não tenham nenhum interesse para o seu Estado. O outro é o governador Aécio Neves, de Minas Gerais, que tem um belo exemplo de gestão pública no Estado para apresentar ao Brasil como mais uma de suas credenciais. Aécio é um dos poucos a achar que o governo petista ainda tem muito a fazer e está longe de ter entrado numa fase de moribundo.

A exemplo do que fazia quando trabalhava no Palácio do Planalto, Fernando Henrique tem orientado seus movimentos por pesquisas detalhadas e abrangentes. Recentemente, ele recebeu uma, encomendada por empresários, que lhe revelou dois detalhes importantes: que o PMDB é, na percepção do eleitor, o partido mais estruturado do país, e que o PFL conseguiu consolidar-se como sigla de oposição. Fernando Henrique também obteve um estudo sobre o desemprego. Ficou tão surpreso com os números que planeja fazer seu próximo artigo à imprensa sobre o assunto. Os dados são tão catastróficos que, ao tomar conhecimento deles, o presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, até sugeriu que se espalhassem pelas capitais do país painéis eletrônicos atualizados de hora em hora com o número de trabalhadores desempregados. "O presidente pediu reserva sobre o estudo do desemprego", diz um interlocutor que teve acesso aos dados. Com seu arsenal de pesquisas, Fernando Henrique também foi um dos primeiros brasileiros a saber que a popularidade de Lula estava em queda, conforme revelou uma pesquisa do Ibope anunciada no fim de março. Tudo isso mostra que o ex-presidente está longe de viver na aposentadoria – e que a crise do governo Lula serviu como mola propulsora para recolocá-lo no centro do palco, e bem mais cedo do que se esperava.

 
 
 
 
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