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Em
foco: Gustavo Franco
Por uma política
não industrial
"Inovar
seria enunciar políticas de
geração de
emprego focadas no setor de serviços,
que
poderiam começar, por exemplo, atacando
os preconceitos enfrentados pelo setor"
Ilustração Ale Setti
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Nada contra a idéia de "política industrial", tema
tão antigo e polêmico e sobre o qual tivemos recentemente
mais uma variação. O impacto da iniciativa foi tão
avassaladoramente insignificante que a sensação foi
de que o governo errou o alvo e que devia na verdade buscar caminhos
novos, dedicando atenção a outros setores, como o
vasto e inexplorado setor de serviços, em que se gera nunca
menos do que a metade do PIB e em que estão três quartos
dos empregos. Com efeito, um governo preocupado com geração
de empregos devia estar preocupado em fazer crescer o setor de serviços,
o que em si seria uma notável inovação em matéria
de políticas públicas. Em vez disso, temos mais uma
tentativa, depois de dezenas de fracassos, de reinventar a "política
industrial".
Tornou-se
um clichê entre lideranças industriais assumir ares
de virtude ultrajada ao dizer que o Brasil não tem política
industrial, tampouco se interessa pelo assunto. Bobagem. Basta pensar
dois segundos sobre o que faz o BNDES, cujos empréstimos
alcançam 87 bilhões de reais, representando cerca
de 20% de todas as operações de crédito no
país.
O
BNDES faz política industrial, e muito bem, pois analisa
projetos individualmente, com critérios bancários
e sem privilégios, desembolsos condicionados a desempenho,
assim cuidando do retorno do dinheiro que empresta; financia investimento
e não o capital de giro, e nunca a totalidade do projeto,
a fim de que o empreendedor seja solidário no risco. O corpo
técnico da casa é da melhor qualidade, e seu conhecimento
da economia brasileira só fez melhorar com o tempo.
Note-se
que o BNDES não faz apenas política industrial, mas
políticas de fomento, pois não se restringe à
indústria. Tem tido papel fundamental na infra-estrutura
e em alguns setores de prestação de serviços,
mas encontra obstáculos conceituais quando se vê diante
de investimentos mais intangíveis, como em pesquisa e desenvolvimento,
ou no que os economistas chamam de "capital humano", ou seja, em
educação ou treinamento específico.
Esses
são temas interessantes que se imaginaria pertencerem ao
universo de preocupações que o governo colocou na
rubrica "política industrial". Com efeito, nesta reedição
recente da "política industrial" o governo anunciou 57 "ações"
e 15 bilhões de reais de crédito do BNDES para setores
"prioritários". A CNI, que ofereceu a plataforma de lançamento
da iniciativa, fez circular em paralelo um documento seu apontando
apenas três "méritos da iniciativa do governo" e 29
"pontos de atenção".
Não
há incentivos fiscais "na veia", porque o ministro Palocci
não deixou, mas lá estão os setores "especiais",
sempre difíceis de explicar. O fato é que o anúncio
veio cercado de mal-estar entre as autoridades anunciantes, e para
o qual o presidente quase não veio, e nem sequer discursou.
As indicações parecem ser no sentido de que a coisa
não estava pronta; as intenções são
boas, o Brasil, o país do futuro, mas tudo vai depender da
operacionalização, sobre a qual ninguém sabe
dizer muita coisa. Típico deste governo, não?
Contudo,
inovar mesmo seria enunciar políticas de geração
de emprego focadas no setor de serviços, que poderiam começar,
por exemplo, atacando os preconceitos enfrentados pelo setor. O
mais evidente, inclusive porque vem da indústria, é
na verdade um truísmo: diz-se que não produz nada,
ou seja, não produz mercadorias. Que bobagem. Dentro de serviços
estão a infra-estrutura, o setor financeiro, a "cadeia produtiva"
da educação, o "complexo" do turismo e o trabalho
intelectual em geral. Como dizer que aí não se produz
"nada"?
Mas,
tirando os serviços públicos e o sistema financeiro,
todo o resto está no sereno, enfrentando um sistema tributário
ultra-hostil, ou mesmo discriminatório, especialmente depois
da nova Cofins e do aumento do escopo do ISS, e uma legislação
trabalhista da Era Vargas que simplesmente não ajuda as empresas
do século XXI, em que predominam o "capital humano", a criatividade
e o trabalho intelectual. Não há dúvida de
que o setor de serviços é a grande fronteira de modernização
da nossa economia.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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