Ponte
para Terabítia: em vez de efeitos,
muita imaginação e um bom elenco
Ponte
para Terabítia (Bridge to Terabithia, Estados Unidos, 2007. Estréia
nesta sexta-feira no país) A família de Jesse (Josh Hutcherson)
tem gente de mais e dinheiro de menos; já Leslie (AnnaSophia Robb) é
uma solitária. Juntos, porém, os dois se completam como só
as crianças são capazes de fazê-lo e, no seu refúgio
imaginário de Terabítia (na verdade, o bosque nos fundos do quintal),
sentem-se livres das pressões escolares e domésticas. A publicidade
do filme baseado no clássico infantil da americana Katherine Paterson dá
a entender que ele é algo à moda de As Crônicas de Nárnia,
com criaturas e efeitos especiais. O que se tem aqui é muito melhor: um
pequeno drama que de fato compreende o mundo de seus personagens. Outro ponto
a favor é a presença do irresistível Hutcherson, de ABC
do Amor, um ator que dispensa a classificação "mirim". Veja
cenas.
Um
Amor Além do Muro: a vida como um improviso
Um
Amor Além do Muro (Der Rote Kakadu, Alemanha, 2006. Desde sexta-feira
em cartaz no país) A despretensão é a chave desse
filme do alemão Dominik Graf, sobre um triângulo amoroso que se forma
entre jovens de Dresden, em 1961, às vésperas da construção
do Muro de Berlim portanto, logo antes que Leste e Oeste se separassem
de vez. Siggi, aspirante a cenógrafo, conhece Luise num bailinho improvisado
(e duramente reprimido pela polícia). Mas Luise, que se diz poeta, é
casada com Wolle, que é devotado à mulher e, ao mesmo tempo, a todas
as outras mulheres que encontra. Em comum, o trio tem a sensação
de que sua vida é um improviso ditado pela instabilidade política
uma atmosfera que Graf capta de forma muito palpável e, felizmente,
sem rompantes ideológicos.
DISCOS
Rodrigues:
de MPB a Irving Berlin, um talento
Fake
Standards, Rodrigo Rodrigues (Dubas) Morto em 2005, o cantor paulistano
Rodrigo Rodrigues foi um dos artistas mais criativos da música brasileira
recente. Ele participou da criação do grupo Música Ligeira,
que se especializou em reinventar clássicos do cancioneiro brasileiro.
Em 2001, iniciou as gravações de Fake Standards, que chega
somente agora ao mercado. Um dos méritos do CD está no repertório
bem-cuidado, que tem de Irving Berlin (Let's Face the Music and Dande)
a Suzanne Vega (a bossa Caramel). O outro é que Rodrigues sabe cantar
em inglês e conhece o significado das letras que interpreta. O toque final
fica por conta dos arranjos caprichados de Mario Manga e Fabio Tagliaferri, companheiros
de Rodrigues no Música Ligeira.
Long
Blondes: reciclagem, mas com inspiração
Someone
to Drive You Home, The Long Blondes (Trama) O quinteto liderado
pela vocalista Kate Jackson recicla o que a música inglesa produziu de
melhor nos últimos trinta anos. Ele foi formado por cinco moradores da
cidade industrial de Sheffield que se trombavam constantemente em livrarias e
casas noturnas. O Long Blondes emula a sonoridade pop de bandas como Human League
e ABC, e o guitarrista Dorian Long mostra-se um ouvinte atento dos Smiths (em
especial dos riffs de guitarra de Johnny Marr). As letras de Kate, por sua vez,
transbordam ironia. É o caso de Once and Never Again, em que ela
passa uma carraspana na amiga doida para arrumar um namorado. A interpretação
da cantora, aliás, é um dos pontos altos do grupo. Ela mostra fôlego
e energia nas músicas mais pesadas, e elegância e equilíbrio
nas baladas.
LIVROS
Fogo
Negro, de C.J. Sansom (tradução de Flávia Rössler;
Record; 560 páginas; 60 reais) Formado em história e ex-advogado,
o inglês C.J. Sansom faz uma convincente reconstituição da
Londres do século XVI em Fogo Negro. Mais importante, o autor também
sabe armar uma envolvente trama policial. A história é narrada em
primeira pessoa pelo corcunda Matthew Shardlake, advogado e detetive que já
estrelava Dissolução, livro de estréia de Sansom.
A serviço de Thomas Cromwell, poderoso conselheiro do rei Henrique VIII,
Shardlake investiga o assassinato de dois alquimistas que teriam descoberto o
segredo do fogo negro, lendária arma utilizada em batalhas navais. Ao mesmo
tempo, Shardlake tem doze dias para salvar da execução uma jovem
injustamente acusada de assassinato. Leia
trecho.
Gino
Domenico/AP
Paula:
redescoberta oportuna
Desesperados,
de Paula Fox (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia
das Letras; 192 páginas; 35,50 reais) Aos 83 anos, a americana Paula
Fox foi recentemente "redescoberta" em seu país. Livros seus publicados
na década de 70 voltaram às livrarias. É o caso de Desesperados,
uma arrasadora história de dissolução familiar e social no
meio da elite de Nova York. Na introdução que escreveu para o livro,
Jonathan Franzen, autor de As Correções, diz que o romance
é superior às produções dos contemporâneos mais
célebres da autora John Updike, Saul Bellow e Philip Roth. Exageros
à parte, Desesperados é de fato uma narrativa notável
no modo como dá significado moral a pequenos gestos: a debacle existencial
da protagonista, a rica Sophie Bentwood, começa quando ela é mordida
por um gato de rua ao qual ofereceu um pires de leite.