"Existem as mulheres
maltratadas, aviltadas, submetidas. Mas a maioria de nós pode lutar
com determinação por uma vida mais plena"
O assunto já está enjoando, embora a medicina tenha encontrado recentemente
novos motivos para as diferenças entre masculino e feminino, ou, como dizem
minhas netas gêmeas de 4 anos e seu primo da mesma idade, entre meninos
e meninas (para eles o pai, os tios e o avô emprestado são "meninos",
enquanto a mãe, as avós e as tias estão na categoria "meninas").
Muito de verdadeiro ou de fantasioso se
tem dito e escrito sobre a questão da mulher. Fora das culturas em que
mulher vale menos do que um animal de tração, uma das lorotas é
que ela foi sempre esmagada pelo troglodita brutal, traída pelo sem-vergonha,
desprezada pela sociedade cruel. Nem todas. Nem sempre. Basta ler um pouco de
história não a dos livros escolares, mas alguma coisa mais
bem documentada para ver que em todas as épocas houve mulheres realizadas,
influentes política e culturalmente. Talvez não tenham sido maioria,
mas homens interessantes também não são a maioria.
Ilustração
Atômica Studio
É
verdade que mulheres sempre causaram desconforto, ou por sua postura vitimal ou
por suspeitas que despertam quando não são bobas. A Igreja queimou
milhares como bruxas, porque conheciam ervas medicinais, por serem parteiras,
portanto chegadas ao mistério da vida e da morte, outras simplesmente porque
de alguma forma não se enquadravam. Acabo de ler uma boa biografia de Joana
d'Arc, recheada de documentos comprovando a ignorância, a farsa, a brutalidade
com que foi processada e queimada viva pela chamada Mãe Igreja. Tinha menos
de 20 anos, a pobre moça que em sua aldeia chamavam de Joaninha. Pouco
depois resolveram mudar tudo, e recentemente até a declararam santa. Histórias
da Inquisição são de vomitar: homens, crianças, velhos
e velhinhas, por qualquer motivo, eram vítimas de tortura, sangue e fogueira.
Mas as mulheres, ah, essas criaturas que sangram todo mês e não morrem,
com orifícios que prometem prazeres inomináveis, certamente têm
parte com o Demo, e foram as vítimas preferidas. Antigamente, da Inquisição;
agora ainda, em muitos casos, da fogueira do preconceito (também das próprias
mulheres, diga-se de passagem).
Mas é
folclore que fomos sempre submissas e sacrificadas: muitas de nossas doces avozinhas
dirigiam a família com olho rápido, língua afiada e pulso
firme. Mesmo em séculos passados, a mãe eventualmente detinha um
poder invejável. O marido não raro a consultava no secreto do quarto
sobre decisões importantes, nas propriedades rurais ela administrava a
casa da cidade, fiscalizava o estudo dos filhos, negociava casamentos, cuidava
do dinheiro, enquanto o marido e senhor corria com seus peões pelas vastidões
do campo atrás do gado.
Houve e
ainda há as maltratadas, traídas e inferiorizadas. As que não
tiveram escolha, submetidas e humilhadas já pela cultura perversa em que
nasceram; existem as que se acomodam por interesse, as que se acovardam por serem
infantis, e acabam cobrando alto preço aos que com elas convivem. Quanto
à traição masculina, muitas mulheres sabem, fingem ignorar,
para assim dominarem o trapalhão através da culpa, e ao mesmo tempo
serem dispensadas do chatíssimo (para elas...) dever conjugal. "Perdoam"
infidelidades maritais, para ter sossego na cama, para não perder o provedor,
para manter o status de casada, "para não desmanchar a família"
(filhos manipulados como desculpa para coisas atrozes entre os pais).
Não, a mulher não foi sempre ou somente a coitadinha. Muitos homens
sofrem com a silenciosa ou eloqüente chantagem emocional da mulher, de quem
não conseguem se separar por culpa, sentimento de responsabilidade ou mesmo
simples fraqueza.
Mulher vitimal, se generalizado,
é um conceito altamente hipócrita. Existem as maltratadas sem saída,
as aviltadas sem socorro, as submetidas sem opção. Mas a maioria
de nós nem é santa nem é boazinha e, em lugar de acusar e
se queixar, pode lutar com determinação por uma vida mais plena.
Isso dependerá de cada uma, de sua personalidade, suas marcas de vida,
sua condição familiar, sua informação, sua neurose
e sua frustração. Nas proximidades do Dia da Mulher, quero dizer
que ela dispensa elogios falsos e louvações consoladoras, porque
ela não é vítima por essência, porque na nossa cultura
pode construir sua vida e seu destino e escrever sua história, embora com
limitações, como todos as têm. Talvez pudéssemos começar
não nos pensando em primeiro lugar como "mulheres", mas como pessoas, e
como pessoas buscar respeito, espaço, trabalho, tranqüilidade, alegria
e amor. Masculino e feminino são secundários à essência
"ser humano": vêm depois disso, nessa velhíssima e nem sempre bem
contada história da guerra dos sexos.