O
enxadrista russo Garry Kasparov sofreu uma derrota histórica na Filadélfia,
em 1996 para um computador. Projetado por cientistas da IBM, o Deep Blue
tornou-se a primeira máquina a derrotar um campeão mundial em uma
partida do mais clássico jogo de raciocínio. A ambição
de construir um equipamento capaz de tal proeza iniciou-se, naturalmente, muito
antes de o rei de Kasparov se curvar diante do supercomputador americano. A mais
célebre das tentativas nesse sentido, diz a lenda, data do século
XVIII; é ela que orienta os movimentos de A Máquina de Xadrez
(tradução de André del Monte e Kristina Michahelles; Record;
406 páginas; 49,90 reais), o curioso romance de estréia de Robert
Löhr, um dos mais celebrados nomes da nova literatura alemã. O livro
recria a inacreditável história do "invento" de um certo barão
Wolfgang von Kempelen, conselheiro da imperatriz Maria Teresa, da Áustria
e da Hungria. A notoriedade de sua "máquina de jogar xadrez" espalhou-se
pela Europa e chegou até os Estados Unidos Edgar Allan Poe escreveu
um ensaio no qual especulava sobre o funcionamento da engenhoca. O autor de A
Queda da Casa de Usher percebeu o fato fundamental sobre o autômato:
tratava-se de uma fraude.
Von
Kempelen apresentava sua criação como um autômato inteligente,
um tipo de máquina com aparência humana no caso, a de um turco
de turbante disposta a desafiar qualquer oponente no tabuleiro de xadrez.
Nas suas apresentações, sempre exibia o interior da máquina,
para demonstrar que ela não escondia um manipulador humano. Era um truque,
claro os movimentos do boneco eram guiados por um enxadrista oculto. O
romance de Löhr segue uma tese mais fantasiosa para explicar o funcionamento
do turco: ele seria operado, de dentro, por Tibor Scardanelli, um anão
praticamente imbatível no jogo, que Von Kempelen encontrou em Veneza, preso
sob acusação de trapaça no tabuleiro.
Réplica
do "turco": manipulado por um jogador escondido
A
Máquina de Xadrez traz os lances típicos de um romance de entretenimento
com ares históricos, na linha de O Perfume, o best-seller do também
alemão Patrick Süskind: perseguições, crimes e sexo
protagonizados por um conjunto de figuras que realmente existiram caso
de Von Kempelen e personagens de ficção, como Tibor e a insinuante
Elise, por quem ele se apaixona. A profusão de diálogos, artifício
comum em livros desse gênero, torna a leitura mais rápida
além de piscar o olho para uma adaptação cinematográfica.
Löhr também evita se demorar na descrição das partidas,
pois isso perturbaria o andamento da narrativa para quem não domina as
regras do xadrez.
Von Kempelen
morreu em 1804, aos 70 anos, sem admitir a falsidade de sua obra o que
só foi feito mais tarde pelo francês Jacques-François Mouret,
um dos jogadores que costumavam participar do embuste. Desmascarado, o turco virou
cinzas no incêndio que, em meados do século XIX, tomou conta do museu
que o abrigava, na Filadélfia a mesma cidade onde Deep Blue tornaria
assustadoramente real o sonho de uma máquina inteligente.