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Edição 1999

14 de março de 2007
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Cérebro oculto

Um curioso romance sobre a máquina
que enganou o mundo no século XVIII


Rinaldo Gama

Fotos divulgação
Robert Löhr: fantasia do anão enxadrista
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Trecho do livro


O enxadrista russo Garry Kasparov sofreu uma derrota histórica na Filadélfia, em 1996 – para um computador. Projetado por cientistas da IBM, o Deep Blue tornou-se a primeira máquina a derrotar um campeão mundial em uma partida do mais clássico jogo de raciocínio. A ambição de construir um equipamento capaz de tal proeza iniciou-se, naturalmente, muito antes de o rei de Kasparov se curvar diante do supercomputador americano. A mais célebre das tentativas nesse sentido, diz a lenda, data do século XVIII; é ela que orienta os movimentos de A Máquina de Xadrez (tradução de André del Monte e Kristina Michahelles; Record; 406 páginas; 49,90 reais), o curioso romance de estréia de Robert Löhr, um dos mais celebrados nomes da nova literatura alemã. O livro recria a inacreditável história do "invento" de um certo barão Wolfgang von Kempelen, conselheiro da imperatriz Maria Teresa, da Áustria e da Hungria. A notoriedade de sua "máquina de jogar xadrez" espalhou-se pela Europa e chegou até os Estados Unidos – Edgar Allan Poe escreveu um ensaio no qual especulava sobre o funcionamento da engenhoca. O autor de A Queda da Casa de Usher percebeu o fato fundamental sobre o autômato: tratava-se de uma fraude.

Von Kempelen apresentava sua criação como um autômato inteligente, um tipo de máquina com aparência humana – no caso, a de um turco de turbante – disposta a desafiar qualquer oponente no tabuleiro de xadrez. Nas suas apresentações, sempre exibia o interior da máquina, para demonstrar que ela não escondia um manipulador humano. Era um truque, claro – os movimentos do boneco eram guiados por um enxadrista oculto. O romance de Löhr segue uma tese mais fantasiosa para explicar o funcionamento do turco: ele seria operado, de dentro, por Tibor Scardanelli, um anão praticamente imbatível no jogo, que Von Kempelen encontrou em Veneza, preso sob acusação de trapaça no tabuleiro.

 
Réplica do "turco": manipulado por um jogador escondido

A Máquina de Xadrez traz os lances típicos de um romance de entretenimento com ares históricos, na linha de O Perfume, o best-seller do também alemão Patrick Süskind: perseguições, crimes e sexo protagonizados por um conjunto de figuras que realmente existiram – caso de Von Kempelen – e personagens de ficção, como Tibor e a insinuante Elise, por quem ele se apaixona. A profusão de diálogos, artifício comum em livros desse gênero, torna a leitura mais rápida – além de piscar o olho para uma adaptação cinematográfica. Löhr também evita se demorar na descrição das partidas, pois isso perturbaria o andamento da narrativa para quem não domina as regras do xadrez.

Von Kempelen morreu em 1804, aos 70 anos, sem admitir a falsidade de sua obra – o que só foi feito mais tarde pelo francês Jacques-François Mouret, um dos jogadores que costumavam participar do embuste. Desmascarado, o turco virou cinzas no incêndio que, em meados do século XIX, tomou conta do museu que o abrigava, na Filadélfia – a mesma cidade onde Deep Blue tornaria assustadoramente real o sonho de uma máquina inteligente.

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