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Edição 1999

14 de março de 2007
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A busca pelo bem supremo

Uma história do conceito de felicidade,
da Grécia Arcaica à genética e ao Prozac

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Trecho do livro

Em 1963, o publicitário americano Harvey Ball recebeu a incumbência de combater o baixo-astral numa seguradora que estava "reduzindo os quadros". Ele desenhou um broche para ser distribuído aos empregados que haviam escapado da demissão: um círculo amarelo, com dois olhos e um sorriso. Os funcionários gostaram – e não só eles. Em pouco tempo a figurinha, espalhada pelo mundo, tornou-se o mais célebre ícone da felicidade. Muito natural: o que mais poderia representar esse sentimento, além de um rosto sorridente? Mas, se uma máquina do tempo levasse um desses broches ao passado, um filósofo grego como Aristóteles não o associaria ao conceito de felicidade. Tampouco o faria Santo Tomás de Aquino, na Idade Média. Ou John Locke, no século XVII. Na verdade, como demonstra o historiador americano Darrin McMahon em Felicidade – Uma História (tradução de Fernanda Ravagnani e Maria Sílvia Mourão Netto; Editora Globo; 558 páginas; 56 reais), as idéias que fazem de Smiley um símbolo só começaram a circular nos últimos 250 anos. Antes disso, a felicidade pouco tinha a ver com manifestações exteriores como o sorriso. Ela não era algo prontamente acessível às pessoas comuns. A rigor, ela nem mesmo seria encarada como um sentimento.

Felicidade é história cultural da melhor estirpe. É um livro bem escrito, cheio de informações e com idéias claras. Da maneira como McMahon a descreve, a trajetória do conceito tem muitos personagens, mas poucas guinadas realmente significativas. Em sua forma mais arcaica, a felicidade não era algo a que os homens pudessem almejar: ela lhes cabia por destino, ou não. McMahon observa que em todas as grandes línguas européias a palavra "felicidade" tem uma raiz que significa sorte ou fortuna: felix, no latim; happ, no inglês; heur, no francês; Glück, no alemão. Por isso mesmo, só era possível saber se um homem tivera uma vida feliz em retrospecto, quando o seu destino já se havia cumprido inteiramente. Gregos e romanos herdaram essa idéia de felicidade como descrição de uma vida completa. Mas, a partir de Sócrates, alcançar esse bem supremo tornou-se um projeto humano, e não algo que se deixasse entregue ao acaso. O homem podia atingir a felicidade, ainda que isso envolvesse uma busca árdua. Ser feliz era viver como os deuses: algo para muito poucos. Ademais, o prazer tinha relativamente pequeno papel no cultivo de uma boa vida. Mais importante que buscar sensações agradáveis era fugir dos vícios e assimilar virtudes. A felicidade estava mais próxima da paz contemplativa do que de uma barulhenta alegria.

O cristianismo levou a felicidade para fora deste mundo. Ela era fruto da graça divina, que só seria experimentada de maneira plena no além. Passariam séculos antes que a felicidade fosse definitivamente trazida de volta à Terra, depois de alguns ensaios. O Renascimento, por exemplo, devolveu alguma dignidade aos prazeres mundanos. Segundo McMahon, o famoso sorriso da Mona Lisa é e não é um ancestral do sorriso de Smiley: ele expressa a idéia de que uma pequena parcela de contentamento pode até ser experimentada neste vale de lágrimas. Mas só mesmo com o Iluminismo, no século XVIII, a felicidade passaria a ser algo a que todo ser humano poderia aspirar, aqui e agora. Ela já não era "um presente de Deus, nem um golpe do destino, ou uma recompensa por um comportamento excepcional, mas sim um direito humano atingível, em tese, por qualquer homem, mulher ou criança". O século XVIII inaugurou, inclusive, uma nova era no estudo da felicidade. Como sentimento natural dos homens, ela poderia ser medida em sua intensidade, em sua duração ou em sua pureza. Em 1780, o filósofo inglês Jeremy Benthan inventou o "cálculo felicífico". Era uma fórmula matemática para medir a felicidade resultante de uma ação qualquer. A equação era capenga, como o próprio Bentham acabou por concluir. Mas o raciocínio subjacente era revolucionário: seria possível imaginar uma espécie de ciência da felicidade. Essa ciência começou a tomar forma nos últimos anos. É um campo em que convivem biólogos, neurologistas, psicólogos e até mesmo economistas, que utilizam ferramentas como a estatística, a tomografia computadorizada ou o mapeamento genético para tentar compreender o que nos faz felizes.

Da mesma forma que a felicidade dos gregos clássicos tinha pontos de contato com a do mundo arcaico, e a felicidade dos cristãos se relaciona com a de Platão ou Aristóteles, assim também a felicidade dos modernos carrega vestígios de épocas anteriores, diz McMahon. Esse, de certa forma, é o ponto-chave de seu livro. Ao mesmo tempo em que acreditam que a felicidade é um estado de espírito que pode ser induzido por remédios como o Prozac, as pessoas de hoje também ouvem, cada vez que pronunciam a palavra, ecos de concepções antigas em que a felicidade era um bem supremo, um prêmio divino – e talvez inatingível. "Por mais que tenha tentado, o Iluminismo não conseguiu separar completamente a felicidade de seu passado religioso e metafísico. Sempre fascinante, ela manteve a aura de transcendência. E foi em grande parte por esse motivo que continuou exercendo tanto poder", escreve o autor. Se avanços futuros da genética ou da farmacologia vão desvendar definitivamente os mecanismos da felicidade, e desvesti-la de todo mistério, não se sabe. Por enquanto, trata-se de uma história com um final aberto, mais do que um final feliz.

 

FELICIDADE EM CINCO TEMPOS

As grandes mudanças na história de um conceito

Na Grécia Arcaica
A felicidade é algo que nos acontece – um produto da sorte, um capricho dos deuses. Além disso, o mundo é tão hostil ao homem que os bons momentos tendem a ser suplantados pelos infortúnios. Só depois da morte é possível dizer se uma vida foi feliz ou não

Na Grécia Clássica
Sócrates e os filósofos que lhe sucederam transformaram a felicidade em objeto de uma busca racional. Cultivar as virtudes pode levar a ela – mas são poucos os homens sábios capazes de percorrer esse caminho

Na doutrina cristã
Desde a expulsão do paraíso, o homem está fadado ao sofrimento neste mundo. O máximo a que ele pode almejar, nas palavras de Santo Agostinho, é a felicidade da esperança". A graça de Deus pode fazer feliz, mas ela só será concedida no outro mundo

No Iluminismo
A idéia grega de que se pode conquistar a felicidade é retomada e radicalizada: ela é um estado natural, até mesmo um direito do homem – como afirma a Enciclopédia editada por Denis Diderot. Nova ênfase é dada à associação entre prazer e felicidade  

No presente
Ganha corpo uma "ciência da felicidade", que procura compreender os mecanismos físicos e psicológicos desse sentimento com recursos como a tomografia computadorizada

 

NÃO PERGUNTE SE VOCÊ É FELIZ

Divulgação
McMahon: história cultural de boa estirpe


Professor da Universidade da Flórida, nos EUA, Darrin McMahon falou a VEJA sobre o livro Felicidade – Uma História.

ESTUDAR A FELICIDADE PODE FAZER ALGUÉM FELIZ?
Quanto mais penso sobre a felicidade, mais complicada ela se torna. Mas também acho que estou menos obcecado pela felicidade do que na época em que comecei a escrever o livro. O inglês Stuart Mill, que passou grande parte da vida estudando o tema, descobriu a certa altura que, quando um homem se pergunta se é feliz, ele deixa de sê-lo. Em certo sentido, concordo com ele.

POR QUE TANTAS PESSOAS NO OCIDENTE SE AFASTAM DAS TRADIÇÕES RELIGIOSAS QUE LHES SÃO FAMILIARES PARA BUSCAR A FELICIDADE EM VERSÕES NEW AGE DAS FILOSOFIAS ORIENTAIS?
Existe essa idéia antiga de que a felicidade não se encontra na vizinhança, que ela está em algum lugar "lá fora", escondida. Para encontrá-la, é preciso tentar alguma coisa nova, diferente, e as religiões asiáticas oferecem isso ­ uma nova maneira de olhar para as velhas perguntas. É um fenômeno da cultura popular. Mas, na tradição filosófica mais estrita, há outra questão que talvez contribua para isso: está cada vez mais difícil encontrar filósofos contemporâneos que falem da felicidade. Este já foi o foco central da filosofia: como conduzir uma vida boa. Mas, no século XXI, a filosofia deu uma virada para as chamadas questões epistemológicas.

AS NOVAS TENDÊNCIAS DA PSICOLOGIA E DA NEUROLOGIA, QUE PRETENDEM MENSURAR A FELICIDADE AFERINDO, POR EXEMPLO, ONDAS CEREBRAIS, PODEM SER UMA REVOLUÇÃO NO ESTUDO DO TEMA?
Desde o século XVIII há tentativas de medir a felicidade, de encontrar ferramentas científicas para analisá-la. Avançamos muito nesse sentido, na compreensão dos aspectos fisiológicos e genéticos do fenômeno. Mas a felicidade também possui uma dimensão cultural relacionada a questões sobre Deus, as virtudes, o significado da vida. Tudo isso gera anseios que não se podem medir no laboratório.

ALGUNS ECONOMISTAS TEM ENCONTRADO RELAÇÕES CURIOSAS ENTRE RIQUEZA E FELICIDADE – POR EXEMPLO, QUE PAÍSES QUE ENRIQUECERAM NOS ÚLTIMOS ANOS NÃO AUMENTARAM SEU GRAU DE FELICIDADE NA MESMA PROPORÇÃO. POR QUE ISSO ACONTECE?
Tem a ver com o modo como os seres humanos se adaptam aos prazeres. É algo que todo pai já observou nos seus filhos: logo que eles ganham um brinquedo novo, ficam contentíssimos, mas depois o entusiasmo esfria. Psicólogos contemporâneos chamam isso de "roleta hedônica". Os filósofos – incluindo Adam Smith, o arquiteto intelectual do capitalismo – sempre souberam que o dinheiro não compra a felicidade.

DAS ABORDAGENS MAIS RECENTES, QUAL SERIA A MAIS PROMISSORA NO ESTUDO DA FELICIDADE?
Alguns aspectos da novíssima psicologia positiva são promissores ao conjugar o rigor científico com a tradição filosófica. Seria um erro grosseiro criar uma divisão entre ciência e filosofia. Uma visão estritamente materialista do mundo botaria a perder a inspiração oferecida pela literatura, pelas tradições religiosas. Ao mesmo tempo, será tolo esperar que a filosofia resolva todos os problemas. Os psicólogos positivos mais sofisticados, como Jonathan Haidt, estão tentando estreitar esse abismo.

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