Em
1963, o publicitário americano Harvey Ball recebeu a incumbência
de combater o baixo-astral numa seguradora que estava "reduzindo os quadros".
Ele desenhou um broche para ser distribuído aos empregados que haviam escapado
da demissão: um círculo amarelo, com dois olhos e um sorriso. Os
funcionários gostaram e não só eles. Em pouco tempo
a figurinha, espalhada pelo mundo, tornou-se o mais célebre ícone
da felicidade. Muito natural: o que mais poderia representar esse sentimento,
além de um rosto sorridente? Mas, se uma máquina do tempo levasse
um desses broches ao passado, um filósofo grego como Aristóteles
não o associaria ao conceito de felicidade. Tampouco o faria Santo Tomás
de Aquino, na Idade Média. Ou John Locke, no século XVII. Na verdade,
como demonstra o historiador americano Darrin McMahon em Felicidade
Uma História (tradução de Fernanda Ravagnani e Maria
Sílvia Mourão Netto; Editora Globo; 558 páginas; 56 reais),
as idéias que fazem de Smiley um símbolo só começaram
a circular nos últimos 250 anos. Antes disso, a felicidade pouco tinha
a ver com manifestações exteriores como o sorriso. Ela não
era algo prontamente acessível às pessoas comuns. A rigor, ela nem
mesmo seria encarada como um sentimento.
Felicidade
é história cultural da melhor estirpe. É um livro bem
escrito, cheio de informações e com idéias claras. Da maneira
como McMahon a descreve, a trajetória do conceito tem muitos personagens,
mas poucas guinadas realmente significativas. Em sua forma mais arcaica, a felicidade
não era algo a que os homens pudessem almejar: ela lhes cabia por destino,
ou não. McMahon observa que em todas as grandes línguas européias
a palavra "felicidade" tem uma raiz que significa sorte ou fortuna: felix,
no latim; happ, no inglês; heur, no francês; Glück,
no alemão. Por isso mesmo, só era possível saber se um homem
tivera uma vida feliz em retrospecto, quando o seu destino já se havia
cumprido inteiramente. Gregos e romanos herdaram essa idéia de felicidade
como descrição de uma vida completa. Mas, a partir de Sócrates,
alcançar esse bem supremo tornou-se um projeto humano, e não algo
que se deixasse entregue ao acaso. O homem podia atingir a felicidade, ainda que
isso envolvesse uma busca árdua. Ser feliz era viver como os deuses: algo
para muito poucos. Ademais, o prazer tinha relativamente pequeno papel no cultivo
de uma boa vida. Mais importante que buscar sensações agradáveis
era fugir dos vícios e assimilar virtudes. A felicidade estava mais próxima
da paz contemplativa do que de uma barulhenta alegria.
O cristianismo levou a felicidade para fora deste mundo. Ela era fruto da graça
divina, que só seria experimentada de maneira plena no além. Passariam
séculos antes que a felicidade fosse definitivamente trazida de volta à
Terra, depois de alguns ensaios. O Renascimento, por exemplo, devolveu alguma
dignidade aos prazeres mundanos. Segundo McMahon, o famoso sorriso da Mona
Lisa é e não é um ancestral do sorriso de Smiley: ele
expressa a idéia de que uma pequena parcela de contentamento pode até
ser experimentada neste vale de lágrimas. Mas só mesmo com o Iluminismo,
no século XVIII, a felicidade passaria a ser algo a que todo ser humano
poderia aspirar, aqui e agora. Ela já não era "um presente de Deus,
nem um golpe do destino, ou uma recompensa por um comportamento excepcional, mas
sim um direito humano atingível, em tese, por qualquer homem, mulher ou
criança". O século XVIII inaugurou, inclusive, uma nova era no estudo
da felicidade. Como sentimento natural dos homens, ela poderia ser medida em sua
intensidade, em sua duração ou em sua pureza. Em 1780, o filósofo
inglês Jeremy Benthan inventou o "cálculo felicífico". Era
uma fórmula matemática para medir a felicidade resultante de uma
ação qualquer. A equação era capenga, como o próprio
Bentham acabou por concluir. Mas o raciocínio subjacente era revolucionário:
seria possível imaginar uma espécie de ciência da felicidade.
Essa ciência começou a tomar forma nos últimos anos. É
um campo em que convivem biólogos, neurologistas, psicólogos e até
mesmo economistas, que utilizam ferramentas como a estatística, a tomografia
computadorizada ou o mapeamento genético para tentar compreender o que
nos faz felizes.
Da mesma forma que a
felicidade dos gregos clássicos tinha pontos de contato com a do mundo
arcaico, e a felicidade dos cristãos se relaciona com a de Platão
ou Aristóteles, assim também a felicidade dos modernos carrega vestígios
de épocas anteriores, diz McMahon. Esse, de certa forma, é o ponto-chave
de seu livro. Ao mesmo tempo em que acreditam que a felicidade é um estado
de espírito que pode ser induzido por remédios como o Prozac, as
pessoas de hoje também ouvem, cada vez que pronunciam a palavra, ecos de
concepções antigas em que a felicidade era um bem supremo, um prêmio
divino e talvez inatingível. "Por mais que tenha tentado, o Iluminismo
não conseguiu separar completamente a felicidade de seu passado religioso
e metafísico. Sempre fascinante, ela manteve a aura de transcendência.
E foi em grande parte por esse motivo que continuou exercendo tanto poder", escreve
o autor. Se avanços futuros da genética ou da farmacologia vão
desvendar definitivamente os mecanismos da felicidade, e desvesti-la de todo mistério,
não se sabe. Por enquanto, trata-se de uma história com um final
aberto, mais do que um final feliz.
FELICIDADE EM CINCO TEMPOS
As
grandes mudanças na história de um conceito
Na
Grécia Arcaica A felicidade é algo que nos acontece
um produto da sorte, um capricho dos deuses. Além disso, o mundo é
tão hostil ao homem que os bons momentos tendem a ser suplantados pelos
infortúnios. Só depois da morte é possível dizer se
uma vida foi feliz ou não
Na
Grécia Clássica Sócrates e os filósofos que
lhe sucederam transformaram a felicidade em objeto de uma busca racional. Cultivar
as virtudes pode levar a ela mas são poucos os homens sábios
capazes de percorrer esse caminho
Na
doutrina cristã Desde a expulsão do paraíso, o homem
está fadado ao sofrimento neste mundo. O máximo a que ele pode almejar,
nas palavras de Santo Agostinho, é a felicidade da esperança". A
graça de Deus pode fazer feliz, mas ela só será concedida
no outro mundo
No Iluminismo
A idéia grega de que se pode conquistar a felicidade é retomada
e radicalizada: ela é um estado natural, até mesmo um direito do
homem como afirma a Enciclopédia editada por Denis Diderot. Nova
ênfase é dada à associação entre prazer e felicidade
No presente Ganha corpo
uma "ciência da felicidade", que procura compreender os mecanismos físicos
e psicológicos desse sentimento com recursos como a tomografia computadorizada
NÃO PERGUNTE SE VOCÊ É
FELIZ
Divulgação
McMahon: história cultural de boa estirpe
Professor da Universidade da Flórida,
nos EUA, Darrin McMahon falou a VEJA sobre o livro Felicidade Uma
História.
ESTUDAR A
FELICIDADE PODE FAZER ALGUÉM FELIZ? Quanto mais penso sobre a
felicidade, mais complicada ela se torna. Mas também acho que estou menos
obcecado pela felicidade do que na época em que comecei a escrever o livro.
O inglês Stuart Mill, que passou grande parte da vida estudando o tema,
descobriu a certa altura que, quando um homem se pergunta se é feliz, ele
deixa de sê-lo. Em certo sentido, concordo com ele.
POR
QUE TANTAS PESSOAS NO OCIDENTE SE AFASTAM DAS TRADIÇÕES RELIGIOSAS
QUE LHES SÃO FAMILIARES PARA BUSCAR A FELICIDADE EM VERSÕES NEW
AGE DAS FILOSOFIAS ORIENTAIS? Existe essa idéia antiga de que
a felicidade não se encontra na vizinhança, que ela está
em algum lugar "lá fora", escondida. Para encontrá-la, é
preciso tentar alguma coisa nova, diferente, e as religiões asiáticas
oferecem isso uma nova maneira de olhar para as velhas perguntas. É
um fenômeno da cultura popular. Mas, na tradição filosófica
mais estrita, há outra questão que talvez contribua para isso: está
cada vez mais difícil encontrar filósofos contemporâneos que
falem da felicidade. Este já foi o foco central da filosofia: como conduzir
uma vida boa. Mas, no século XXI, a filosofia deu uma virada para as chamadas
questões epistemológicas.
AS
NOVAS TENDÊNCIAS DA PSICOLOGIA E DA NEUROLOGIA, QUE PRETENDEM MENSURAR A
FELICIDADE AFERINDO, POR EXEMPLO, ONDAS CEREBRAIS, PODEM SER UMA REVOLUÇÃO
NO ESTUDO DO TEMA? Desde o século XVIII há tentativas de
medir a felicidade, de encontrar ferramentas científicas para analisá-la.
Avançamos muito nesse sentido, na compreensão dos aspectos fisiológicos
e genéticos do fenômeno. Mas a felicidade também possui uma
dimensão cultural relacionada a questões sobre Deus, as virtudes,
o significado da vida. Tudo isso gera anseios que não se podem medir no
laboratório.
ALGUNS ECONOMISTAS
TEM ENCONTRADO RELAÇÕES CURIOSAS ENTRE RIQUEZA E FELICIDADE
POR EXEMPLO, QUE PAÍSES QUE ENRIQUECERAM NOS ÚLTIMOS ANOS NÃO
AUMENTARAM SEU GRAU DE FELICIDADE NA MESMA PROPORÇÃO. POR QUE ISSO
ACONTECE? Tem a ver com o modo como os seres humanos se adaptam aos prazeres.
É algo que todo pai já observou nos seus filhos: logo que eles ganham
um brinquedo novo, ficam contentíssimos, mas depois o entusiasmo esfria.
Psicólogos contemporâneos chamam isso de "roleta hedônica".
Os filósofos incluindo Adam Smith, o arquiteto intelectual do capitalismo
sempre souberam que o dinheiro não compra a felicidade.
DAS ABORDAGENS MAIS RECENTES, QUAL SERIA A
MAIS PROMISSORA NO ESTUDO DA FELICIDADE? Alguns aspectos da novíssima
psicologia positiva são promissores ao conjugar o rigor científico
com a tradição filosófica. Seria um erro grosseiro criar
uma divisão entre ciência e filosofia. Uma visão estritamente
materialista do mundo botaria a perder a inspiração oferecida pela
literatura, pelas tradições religiosas. Ao mesmo tempo, será
tolo esperar que a filosofia resolva todos os problemas. Os psicólogos
positivos mais sofisticados, como Jonathan Haidt, estão tentando estreitar
esse abismo.