Torneio de soletração
do Caldeirão doHuck coloca o português em pauta
na TV
Marcelo
Marthe
Fotos
divulgação/TV Globo
As
eliminatórias do Soletrando: alunos viraram celebridades em seus estados
Em exibição no Caldeirão do Huck desde sábado
passado, o quadro Soletrando transforma a língua portuguesa em matéria
de entretenimento. Na gincana, 27 estudantes entre 12 e 15 anos, que representam
cada estado brasileiro, têm o desafio de soletrar palavras corretamente.
Se o participante tropeça nas letras, é dispensado com o toque de
uma daquelas sinetas usadas nas salas de aula de antigamente. Se acerta, avança
na disputa pelo prêmio de 100.000 reais para financiar sua educação.
A idéia é importada dos Estados Unidos. Sua matriz, o concurso Spelling
Bee (algo como "Abelha soletrante"), surgiu em 1925 e é uma instituição
da cultura americana: suas seletivas regionais mobilizam 9 milhões de crianças
e a final é transmitida no horário nobre. Quando o apresentador
Luciano Huck cogitou pela primeira vez fazer um similar brasileiro, gente na própria
Globo duvidou que isso teria apelo junto ao público. Os maus prognósticos
não se confirmaram. Com formato de gincana de auditório ao
contrário do programa americano, que é uma interminável sabatina
oral , o Soletrando foi responsável pelo pico de audiência
da edição passada do Caldeirão.
As seletivas do Soletrando envolveram uma escola em cada estado. São todas
escolas da rede pública que contam com apoio do Instituto Ayrton Senna
(um co-patrocinador do programa). Nas seletivas, nenhuma escola chegou à
metade da lista de 500 vocábulos com grau de dificuldade crescente elaborada
pelo professor Sérgio Nogueira um dos jurados, ao lado do titã
Tony Bellotto. Ou seja, não passaram dos desafios medianos. Mas
isso não significa necessariamente mediocridade. "O nível dos participantes
surpreendeu", diz Nogueira. Entre eles, há exemplos de superação
num ambiente educacional difícil. A acreana Rafaela Pinho, de 15 anos,
nasceu num seringal e tem pais analfabetos. Precisou se mudar para uma cidade
a seis horas de barco de onde vive para cursar a 5ª série.
Luciano
Huck: na mira dos educadores xiitas
Com uma semana de exibição, o quadro despertou celeuma. A soletração
já foi uma ferramenta de aprendizado tradicional, mas hoje é demonizada
pelos adeptos do construtivismo, corrente dominante entre os educadores. Há
quem ache o concurso um desserviço, por estimular a prática da "decoreba".
É uma crítica fora do lugar. O programa não pretende ser
uma aula de português. "A intenção é oferecer uma brincadeira
com algum conteúdo cultural", diz Luciano Huck. Além disso, o simples
fato de a TV aberta colocar o português em pauta já merece aplauso.
O quadro fornece dicas gramaticais e informações sobre as palavras.
E as seletivas motivaram estudantes a ler e pesquisar pelo país afora.
Nos Estados Unidos, tais concursos são um canal de auto-afirmação
para os filhos de imigrantes. O Soletrando além de ter transformado
diversos participantes em pequenas celebridades em seus estados pode ter
efeito semelhante. Dominar a língua em qualquer dos seus aspectos é,
sim, motivo de orgulho e também uma ferramenta para avançar
na vida.