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14 de março de 2007
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Qual é a letra?

Torneio de soletração do Caldeirão do Huck
coloca o português em pauta na TV


Marcelo Marthe

 

Fotos divulgação/TV Globo
As eliminatórias do Soletrando: alunos viraram celebridades em seus estados

Em exibição no Caldeirão do Huck desde sábado passado, o quadro Soletrando transforma a língua portuguesa em matéria de entretenimento. Na gincana, 27 estudantes entre 12 e 15 anos, que representam cada estado brasileiro, têm o desafio de soletrar palavras corretamente. Se o participante tropeça nas letras, é dispensado com o toque de uma daquelas sinetas usadas nas salas de aula de antigamente. Se acerta, avança na disputa pelo prêmio de 100.000 reais para financiar sua educação. A idéia é importada dos Estados Unidos. Sua matriz, o concurso Spelling Bee (algo como "Abelha soletrante"), surgiu em 1925 e é uma instituição da cultura americana: suas seletivas regionais mobilizam 9 milhões de crianças e a final é transmitida no horário nobre. Quando o apresentador Luciano Huck cogitou pela primeira vez fazer um similar brasileiro, gente na própria Globo duvidou que isso teria apelo junto ao público. Os maus prognósticos não se confirmaram. Com formato de gincana de auditório – ao contrário do programa americano, que é uma interminável sabatina oral –, o Soletrando foi responsável pelo pico de audiência da edição passada do Caldeirão.

As seletivas do Soletrando envolveram uma escola em cada estado. São todas escolas da rede pública que contam com apoio do Instituto Ayrton Senna (um co-patrocinador do programa). Nas seletivas, nenhuma escola chegou à metade da lista de 500 vocábulos com grau de dificuldade crescente elaborada pelo professor Sérgio Nogueira – um dos jurados, ao lado do titã Tony Bellotto. Ou seja, não passaram dos desafios medianos. Mas isso não significa necessariamente mediocridade. "O nível dos participantes surpreendeu", diz Nogueira. Entre eles, há exemplos de superação num ambiente educacional difícil. A acreana Rafaela Pinho, de 15 anos, nasceu num seringal e tem pais analfabetos. Precisou se mudar para uma cidade a seis horas de barco de onde vive para cursar a 5ª série.

Luciano Huck: na mira dos educadores xiitas

Com uma semana de exibição, o quadro despertou celeuma. A soletração já foi uma ferramenta de aprendizado tradicional, mas hoje é demonizada pelos adeptos do construtivismo, corrente dominante entre os educadores. Há quem ache o concurso um desserviço, por estimular a prática da "decoreba". É uma crítica fora do lugar. O programa não pretende ser uma aula de português. "A intenção é oferecer uma brincadeira com algum conteúdo cultural", diz Luciano Huck. Além disso, o simples fato de a TV aberta colocar o português em pauta já merece aplauso. O quadro fornece dicas gramaticais e informações sobre as palavras. E as seletivas motivaram estudantes a ler e pesquisar pelo país afora. Nos Estados Unidos, tais concursos são um canal de auto-afirmação para os filhos de imigrantes. O Soletrandoalém de ter transformado diversos participantes em pequenas celebridades em seus estados – pode ter efeito semelhante. Dominar a língua em qualquer dos seus aspectos é, sim, motivo de orgulho – e também uma ferramenta para avançar na vida.

TRAVA-LÍNGUA

Os participantes do Soletrando tropeçaram em palavras fáceis e não foram além das de complexidade média. Eis um teste de acordo com os níveis de dificuldade propostos pelo quadro

NÍVEL FÁCIL

1 A pegadinha: confundir palavras grafadas com "g" ou "j" – um clássico dos erros de português

Como se escreve?
TIGELA
TIJELA

NÍVEL MÉDIO

2 A pegadinha: confundir palavras parecidas.
O termo em questão era o adjetivo que se refere a odores
FRAGRANTE
FLAGRANTE

3 A pegadinha: palavras longas de uso pouco
comum – como o nome desse mamífero
ORTINORRINCO
ORNITORRINCO

4 A pegadinha: a complexidade das regras para utilizar o hífen
ARQUI-INIMIGO
ARQUIINIMIGO

NÍVEL DIFÍCIL

5 A pegadinha: palavras que oferecem dois pontos de dúvida. Aqui, o uso do "c" ou "sc" e do "s" ou "ç"  
ASCENSORISTA
ACENSORISTA
ASCENÇORISTA  

6 A pegadinha: é um enigma triplo – no caso, se começa ou não com "h", se uma das sílabas é com "j" ou "g" e a outra com "s" ou "z"
HOJERIZA
OGERISA
OJERIZA

 

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