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Edição 1999

14 de março de 2007
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Cinema
Como antigamente

Depois da mordacidade de Match Point, Woody Allen
volta à sua boa forma cômica com Scoop


Isabela Boscov

Woody Allen trocou Nova York por Londres, recrutou Scarlett Johansson e foi fundo no drama da traição e da dissimulação em Match Point. Todo mundo adorou. Para Scoop – O Grande Furo (Scoop, Inglaterra/Estados Unidos, 2006), Allen continuou em Londres, chamou Scarlett de novo e tratou mais uma vez de traição e dissimulação – mas em tom de farsa. A maior parte da crítica torceu o nariz. Vá entender. Scoop, que estréia nesta sexta-feira no país, trata de como Sondra Pransky, loira avoada e estudante de jornalismo, é contactada pelo espírito de um ás da reportagem durante um show de mágica. Joe (Ian McShane), o repórter recém-falecido, nem chegou ainda ao além e já ficou sabendo de um furo: Peter Lyman (Hugh Jackman), filho de um lorde, é o provável "Assassino das Cartas de Tarô", que mata prostitutas de cabelo curto e preto. A estudante quer corresponder às expectativas do jornalista desencarnado, até porque ele não pára de voltar da morte e insistir que ela apure a notícia. Sondra e o mágico Splendini (o próprio Allen), então, fingem ser pai e filha e dão um jeito de se infiltrar na intimidade de Peter. Que é bonitão, sedutor e um cavalheiro e, como tal, derrete a resistência de Sondra e faz sua objetividade evaporar sempre que está perto dele. Mal os encontros terminam, porém, a dúvida volta: será que Peter não é de fato o assassino? As evidências são apenas circunstanciais, mas nem por isso desprezíveis.

Jackman e Scarlett têm um charme à antiga, no bom sentido: dirigidos de forma adequada (e aqui o são), eles emitem aquele mesmo tipo de vibração de pares famosos de outrora, como Cary Grant e Rosalind Russell ou Clark Gable e Claudette Colbert – algo entre o sensual e o travesso, numa medida que toda comédia romântica tenta atingir e raramente consegue. Allen não apenas sabe dosar essa química, como replica com muita eficiência a arquitetura falsamente simples dos filmes estrelados por aquelas duplas – na verdade, um feito de construção, em que a trama tem de recuar um passo a cada dois avançados. (Vale também mencionar a decisão sensata de Allen de não se incluir no romance, ficando com a figura paterna, e como sempre neurótica, do triângulo.) Scoop, em suma, não tem nada de furado. É apenas leve, divertido e atraente. Como se não bastasse.

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