Depois da mordacidade de Match
Point, Woody Allen volta à sua boa forma cômica com Scoop
Isabela
Boscov
Woody Allen trocou Nova York por Londres,
recrutou Scarlett Johansson e foi fundo no drama da traição e da
dissimulação em Match Point. Todo mundo adorou. Para Scoop
O Grande Furo (Scoop, Inglaterra/Estados Unidos, 2006), Allen continuou
em Londres, chamou Scarlett de novo e tratou mais uma vez de traição
e dissimulação mas em tom de farsa. A maior parte da crítica
torceu o nariz. Vá entender. Scoop, que estréia nesta sexta-feira
no país, trata de como Sondra Pransky, loira avoada e estudante de jornalismo,
é contactada pelo espírito de um ás da reportagem durante
um show de mágica. Joe (Ian McShane), o repórter recém-falecido,
nem chegou ainda ao além e já ficou sabendo de um furo: Peter Lyman
(Hugh Jackman), filho de um lorde, é o provável "Assassino das Cartas
de Tarô", que mata prostitutas de cabelo curto e preto. A estudante quer
corresponder às expectativas do jornalista desencarnado, até porque
ele não pára de voltar da morte e insistir que ela apure a notícia.
Sondra e o mágico Splendini (o próprio Allen), então, fingem
ser pai e filha e dão um jeito de se infiltrar na intimidade de Peter.
Que é bonitão, sedutor e um cavalheiro e, como tal, derrete a resistência
de Sondra e faz sua objetividade evaporar sempre que está perto dele. Mal
os encontros terminam, porém, a dúvida volta: será que Peter
não é de fato o assassino? As evidências são apenas
circunstanciais, mas nem por isso desprezíveis.
Jackman e Scarlett têm um charme à antiga, no bom sentido: dirigidos
de forma adequada (e aqui o são), eles emitem aquele mesmo tipo de vibração
de pares famosos de outrora, como Cary Grant e Rosalind Russell ou Clark Gable
e Claudette Colbert algo entre o sensual e o travesso, numa medida que
toda comédia romântica tenta atingir e raramente consegue. Allen
não apenas sabe dosar essa química, como replica com muita eficiência
a arquitetura falsamente simples dos filmes estrelados por aquelas duplas
na verdade, um feito de construção, em que a trama tem de recuar
um passo a cada dois avançados. (Vale também mencionar a decisão
sensata de Allen de não se incluir no romance, ficando com a figura paterna,
e como sempre neurótica, do triângulo.) Scoop, em suma, não
tem nada de furado. É apenas leve, divertido e atraente. Como se não
bastasse.