Em
Maria Antonieta (Marie Antoinette, Estados Unidos, 2006),
que estréia nesta sexta-feira no país, a música vem de bandas
como New Order, Air e Gang of Four; os tons pastel que tingem as roupas e os cenários
são os mesmos dos confeitos que a corte consome; a linguagem é casual,
sem empostação; e Versalhes, aquela pocilga magnífica, aparece
livre dos cheiros medonhos e dos excrementos humanos e de animais que, na falta
de qualquer tipo de instalação sanitária, se acumulavam em
seus cantos. A diretora Sofia Coppola quer porque quer, enfim, deixar claro que
esse não é um filme "histórico" ou "de época" sobre
a arquiduquesa austríaca que, entregue aos 14 anos em casamento ao príncipe
francês Luís XVI (15 anos, obeso e passivo), viria a simbolizar todos
os males do ancien régime e, na visão de alguns estudiosos,
servir de estopim à Revolução Francesa de 1789.
Filmes históricos são aborrecidos e distantes, justificou Sofia
em diversas entrevistas, ao passo que o seu seria uma interpretação
pessoal da trajetória de uma menina obrigada a sobreviver sozinha no ambiente
hostil e sufocante da corte francesa. Famosamente, Maria Antonieta (no filme,
Kirsten Dunst) encontrou um expediente para facilitar sua vida: seu dom para inventar
e ditar moda. Calcula-se que ela gastava, por ano, o equivalente a 7 milhões
de dólares em seus vestidos impossíveis. Era o dobro do que o orçamento
do estado alocava para esse fim, e muito menos do que ela desperdiçava
ainda em diamantes, jantares, penteados pouf e na manutenção
de seu retiro pessoal, o Petit Trianon. O filme faz jus à obsessão
da rainha, nos figurinos da excelente Milena Canonero e nos sapatos encomendados
a Manolo Blahnik. E, em mais uma demonstração de como a tática
de Antonieta funcionava (a seu favor e contra ela), muita gente caiu no conto
de Sofia a começar pela imprensa francesa, que vaiou em peso o filme
no último Festival de Cannes. Mas não é o caso de se deixar
enganar. Maria Antonieta é, sim, um filme "histórico". Não
apenas pela fidelidade com que adere à biografia da rainha que lhe serve
de base, lançada em 2001 pela inglesa Antonia Fraser (e disponível
no Brasil pela Record), como no jeito sem-querer-querendo com que evoca o culto
obstinado ao ócio e à artificialidade de um estado que se havia
divorciado escandalosamente das pessoas às quais deveria servir. Maria
Antonieta é, de certa forma, a biografia de uma vida inútil.
E é também, como nos filmes anteriores de Sofia, As Virgens Suicidas
e Encontros e Desencontros, a história de uma jovem que não
tem nenhum poder sobre si mesma.
Sofia
andou ela própria à deriva, teoricamente oprimida pela sombra do
pai, Francis Ford Coppola, até se reconfigurar como cineasta (depois de
ser atriz, estilista, fotógrafa ou apenas princesa do pop e do chic,
título que ainda ostenta). Não é difícil a ela, portanto,
entender a Maria Antonieta descrita na biografia de Antonia Fraser. Filha da imperatriz
Maria Teresa da Áustria, um animal político que, curiosamente, nunca
se interessou em cultivar nas filhas um tino ou uma desenvoltura comparáveis
aos seus, a jovem arquiduquesa foi sempre um peão. Serviu, primeiro, como
oferta de uma aliança entre as inimigas Áustria e França;
depois, foi apropriada pela Revolução (que a decapitaria em 1793)
como emblema de tudo de vil que havia no absolutismo. Antonieta não desempenhou
bem o primeiro papel: Luís demorou sete anos para consumar o casamento.
Em cada um desses cerca de 2.500 dias, Antonieta teve os lençóis
vasculhados em busca de secreções, e o insucesso em produzi-las
divulgado para toda a corte e a nação. Sem um herdeiro, sua situação
era precária. Daí, especula-se, Antonieta, coroada rainha em 1774,
ter procurado deleite e poder na criação de sua imagem. Isso, ela
fez com sucesso inqualificável.
Ao contrário de monarcas como Cleópatra ou Elizabeth I, entretanto,
Antonieta não se vestiu para intimidar e controlar; ela se vestiu como
uma atriz (o que, à época, era quase que uma meretriz), para a fruição
pública, ou como uma garota carente que tenta preencher seu vazio no shopping
center. Trata-se da alienação suprema e, se Maria Antonieta
permanece alheio à convulsão que se desenrolava além dos
portões de Versalhes, é porque as avestruzes lindamente emplumadas
que estavam no interior do palácio também o faziam. A rainha, ao
que se presume, surpreendeu-se ao se ver convertida na personificação
do abjeto, e aí está a lição política do filme
de Sofia: não há nada mais frustrante e insatisfatório
além de perigoso do que ser um símbolo que não está
no controle do que simboliza.