O Bom Pastor (The
Good Shepherd, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira
no país, é um filme árduo porque tem longos 167 minutos,
porque exige o máximo de atenção para que se tenha o mínimo
de entendimento e porque seu protagonista é um homem inescrutável,
em cuja fisionomia não se pode ler nenhum sentimento ou propósito.
Isso não quer dizer que seja um filme ruim. Ao contrário: a experiência
algo exaustiva de assistir a ele é crucial ao enredo desse segundo trabalho
na direção de Robert De Niro, distante catorze anos de sua estréia
atrás das câmeras, com Desafio no Bronx. De Niro e o roteirista
Eric Roth partem de um episódio desastroso da inteligência americana
a tentativa de invadir Cuba pela Baía dos Porcos, em 1961
para recuar até a II Guerra e traçar as origens da CIA. É
uma história de paranóia extrema e de desconfiança insana.
É, também, a história de como um homem que vive dessa forma
se recolhe em si mesmo e se anula, até o ponto em que as únicas
pessoas com quem ele é capaz de dividir alguma coisa são seus inimigos
no caso, os agentes da KGB soviética.
Em O Bom Pastor, Matt Damon é Edward Wilson, personagem que congrega
características de um punhado de oficiais célebres da CIA, como
James Angleton, que se notabilizou como o principal cultor da paranóia
na agência. A mulher de Wilson (Angelina Jolie) é uma completa estranha
para ele. Já de Ulysses (Oleg Stefan), um dos pivôs da KGB, ele sabe
tudo ou, como se verá, quase tudo. Em 1939, na Universidade Yale,
o jovem e ainda extrovertido Wilson é convidado a se juntar à sociedade
secreta Skulls and Bones. O ritual de iniciação exige que se compartilhe
um segredo, de forma que todos se tornem ao mesmo tempo irmãos e adversários
no sigilo. A Skulls and Bones foi um dos nascedouros da OSS, ou Office of Strategic
Services, formada por um punhado de homens brancos, aristocráticos e protestantes
que se autodesignaram os guardiães da América. Depois da guerra,
a OSS se tornaria a CIA. Não só o nome mudou: à medida que
a Guerra Fria encarnecia, aprofundava-se também a cultura da contra-informação,
das operações secretas e das conspirações intestinas.
Parte considerável do trabalho de Wilson é eliminar companheiros,
porque sabem demais ou porque estão sob suspeita de colaborar com os soviéticos.
E sua grande crise vem quando as forças que estão na Baía
dos Porcos são arrasadas por Fidel Castro. É preciso detectar o
delator. Para Wilson, a chave está numa foto granulada, de um casal na
cama, que chega à sua casa acompanhada de uma fita com fragmentos de uma
conversa.
Esse é um
mundo em que uma frase sem importância ganha significados insuspeitos anos
depois de ter sido dita e O Bom Pastor acompanha o raciocínio
de Wilson, indo e voltando no tempo, em sua tentativa de encontrar o sentido oculto
na fita e na foto. De Niro, naturalmente, não teve dificuldade em atrair
dezenas de grandes atores, do inglês Michael Gambon ao ucraniano Oleg Stefan,
para encarnar personagens que têm de dar seu recado em forma de nuances
e minúcias. Bem mais surpreendentes são a competência e o
controle com que ele conta essa história feita de fumaça e sombras.