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14 de março de 2007
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Cinema
Teoria da conspiração

Em O Bom Pastor De Niro conta, com firmeza
e competência, a história do nascimento da CIA


Isabela Boscov

 

Divulgação
Damon, com Angelina: a mulher é uma estranha para ele. Já do inimigo ele sabe tudo

 
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O Bom Pastor (The Good Shepherd, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, é um filme árduo – porque tem longos 167 minutos, porque exige o máximo de atenção para que se tenha o mínimo de entendimento e porque seu protagonista é um homem inescrutável, em cuja fisionomia não se pode ler nenhum sentimento ou propósito. Isso não quer dizer que seja um filme ruim. Ao contrário: a experiência algo exaustiva de assistir a ele é crucial ao enredo desse segundo trabalho na direção de Robert De Niro, distante catorze anos de sua estréia atrás das câmeras, com Desafio no Bronx. De Niro e o roteirista Eric Roth partem de um episódio desastroso da inteligência americana – a tentativa de invadir Cuba pela Baía dos Porcos, em 1961 – para recuar até a II Guerra e traçar as origens da CIA. É uma história de paranóia extrema e de desconfiança insana. É, também, a história de como um homem que vive dessa forma se recolhe em si mesmo e se anula, até o ponto em que as únicas pessoas com quem ele é capaz de dividir alguma coisa são seus inimigos – no caso, os agentes da KGB soviética.

Em O Bom Pastor, Matt Damon é Edward Wilson, personagem que congrega características de um punhado de oficiais célebres da CIA, como James Angleton, que se notabilizou como o principal cultor da paranóia na agência. A mulher de Wilson (Angelina Jolie) é uma completa estranha para ele. Já de Ulysses (Oleg Stefan), um dos pivôs da KGB, ele sabe tudo – ou, como se verá, quase tudo. Em 1939, na Universidade Yale, o jovem e ainda extrovertido Wilson é convidado a se juntar à sociedade secreta Skulls and Bones. O ritual de iniciação exige que se compartilhe um segredo, de forma que todos se tornem ao mesmo tempo irmãos e adversários no sigilo. A Skulls and Bones foi um dos nascedouros da OSS, ou Office of Strategic Services, formada por um punhado de homens brancos, aristocráticos e protestantes que se autodesignaram os guardiães da América. Depois da guerra, a OSS se tornaria a CIA. Não só o nome mudou: à medida que a Guerra Fria encarnecia, aprofundava-se também a cultura da contra-informação, das operações secretas e das conspirações intestinas. Parte considerável do trabalho de Wilson é eliminar companheiros, porque sabem demais ou porque estão sob suspeita de colaborar com os soviéticos. E sua grande crise vem quando as forças que estão na Baía dos Porcos são arrasadas por Fidel Castro. É preciso detectar o delator. Para Wilson, a chave está numa foto granulada, de um casal na cama, que chega à sua casa acompanhada de uma fita com fragmentos de uma conversa.

Esse é um mundo em que uma frase sem importância ganha significados insuspeitos anos depois de ter sido dita – e O Bom Pastor acompanha o raciocínio de Wilson, indo e voltando no tempo, em sua tentativa de encontrar o sentido oculto na fita e na foto. De Niro, naturalmente, não teve dificuldade em atrair dezenas de grandes atores, do inglês Michael Gambon ao ucraniano Oleg Stefan, para encarnar personagens que têm de dar seu recado em forma de nuances e minúcias. Bem mais surpreendentes são a competência e o controle com que ele conta essa história feita de fumaça e sombras.

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