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Edição 1999

14 de março de 2007
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O babalorixá que fala
com as estrelas

Reequilibrar energias, sim. Unir casais, não.
E nada de espíritos, por favor. Assim é Tuca
Franchini, o pai-de-santo de Naomi


Silvia Rogar

 
Lailson Santos
Franchini no bar do Fasano: roupas de grife, coleção de óculos e agrados dos muitos amigos

Conhecida por arrumar confusão com Deus e o mundo, a modelo inglesa Naomi Campbell adora ouvir a opinião dele antes de tomar uma decisão importante. É o seu telefone que toca primeiro quando, ligando do Rio de Janeiro, a milionária viúva Ariadne Coelho quer, como se diz no jargão do ramo, recarregar as energias. O chiquérrimo ator inglês Rupert Everett, que dividiu a tela com Julia Roberts no filme O Casamento do Meu Melhor Amigo, recorreu a seus préstimos quando esteve no Brasil, no fim de 2005. Ombro amigo e restaurador oficial de energias de ricos e famosos, o pai-de-santo paulista Tuca Franchini, 36 anos, atende por celular, e-mail e até em domicílio. No caso de turistas de passagem por São Paulo, faz hora extra nas elegantes suítes do Hotel Fasano, um de seus points prediletos na cidade. O auge da fama aconteceu em janeiro, quando Naomi baixou em corpo (sempre divino) e alma (sempre perturbada) no Rio apenas por uma noite, para abrilhantar a sua festa de aniversário – que, por sinal, está entrando para o calendário social do eixo Rio–São Paulo.

Franchini definitivamente não é um babalorixá comum. O traje branco tradicional (feito com rendas renascença e richelieu), só usa quando está em ação no seu terreiro na Lapa, bairro paulistano onde cresceu e mora até hoje com a mãe, numa casa de classe média. À paisana, tem predileção por grifes italianas, não foge do preto (exceto às sextas-feiras, quando prefere não arriscar) e é louco por óculos escuros: tem dezoito pares de marcas como Chanel, Gucci e equivalentes. Com quatro tatuagens e uma lipo no corpinho bem mantido, Franchini é um pai-de-santo moderno e, surpreendentemente, até realista. "Se um espírito aparecer na minha frente, eu caio duro", avisa, gesticulando com um anelão de ouro Cartier no dedo anular. "O que faço é jogar búzios para ver se a pessoa está num momento favorável. Caso precise, busco reequilibrar as energias dela" – estão aí, de novo, as tais energias. Previsão do futuro está fora do seu repertório. "Que ninguém me convide para adivinhar resultado de jogo de futebol na televisão. Deixo isso para a Mãe Dinah!", desdenha ele, que durante as sessões não recebe santo nem muda de voz. Idem, milagres amorosos. "Trazer o amor em três dias? Isso não existe. Não dá para forçar uma pessoa a ficar com alguém que não queira", pondera. Considera, inclusive, que promessas vãs desmerecem a profissão. "Hoje todo mundo quer arrumar desculpa para suas falhas. Às vezes o casamento já está acabado, a mulher anda toda esculhambada na frente do marido e aí, quando ele arruma uma amante siliconada, ela sai anunciando que foi trabalho de pai-de-santo", protesta, em defesa da categoria.

Franchini insiste que a maior parte de seus amigos da sociedade não é praticante do candomblé. A cautela se justifica: são pessoas que não querem ter o nome ligado a práticas em geral vistas como primitivas. Já restaurar energias... quem resiste? "A energia do Tuca é muito boa. De vez em quando, peço a ele que acenda uma velinha para mim", diz a socialite paulista Ana Paula Junqueira. "Sou superesotérica e gosto de ouvir o Tuca porque ele fala a minha língua e já faz parte do meu meio", depõe a promoter Fernanda Barbosa. Franchini não sai de casa sem dois celulares (um que manda e recebe e-mails, outro que também funciona como rádio) e calcula receber até 100 ligações por dia. Basta passar algumas horas a seu lado para ver que não é exagero. "Ele tem uma paciência para ouvir e falar que as pessoas, em geral, não têm mais. E ainda entende de tudo um pouco: moda, restaurantes, tratamentos de beleza, negócios", elogia a voluptuosa Ariadne.

De família de origem italiana e, claro, católica, Tuca se iniciou no candomblé aos 16 anos e se atribui uma nobre genealogia: filho de Obaluaê, o orixá das doenças e da cura, com Oxum, a senhora dos rios, do amor e – voilà – da riqueza. Antes de virar pai-de-santo, foi funcionário da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e prestou vestibular para jornalismo, mas largou tudo para se dedicar a atividades mais instigantes como o jogo de búzios. O ganha-pão da família Franchini é uma confecção de roupas "nada fashion", segundo ele. Os jogos de búzios, orações e oferendas para os orixás são cobrados de acordo com as possibilidades financeiras do cliente. Qual a faixa de preço? "Sou associado aos famosos, mas também atendo muita gente humilde, que não me paga 1 centavo. Não existe um valor fechado, mas não vamos ser hipócritas: quem pode deve ajudar mesmo", esquiva-se. Boa parte de sua renda vem do que chama de "intermediação de negócios": apresenta muita gente a muita gente e ganha recompensas por isso. "Conheço engenheiros, arquitetos, cirurgiões plásticos. Indico o trabalho deles para outros amigos que precisam. Às vezes eles retribuem essa ajuda com dinheiro, às vezes com presentes", explica. Com um cliente agradecido aqui, uma aura restaurada ali, mais as inevitáveis energias recarregadas, Franchini vai solidificando a fama de pai-de-santo (macumbeiro, jamais) das estrelas.

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