Mistério na
pacata província argentina: por que
as mulheres estão matando mais que os homens?
Thomaz Favaro
Carlos Villagra/Ag Infoto
A ex-policial Ema Gómez: ela
matou um juiz a tiros
Em Tucumán,
a menor província da Argentina e distante 1.300 quilômetros
da capital, Buenos Aires, as taxas de homicídio estão
entre as mais baixas do país. No momento, a região
está abalada por homicídios surpreendentes
quatro dos seis assassinatos de maior repercussão ocorridos
por lá desde 2004 foram cometidos por mulheres. Espanta
sobretudo o aparente rompimento de uma regra básica
dos crimes brutais: os homens matam mais que as mulheres.
Na Argentina, elas representam apenas 11,5% da população
carcerária. Pelas tradições locais, seria
mais aceitável se os crimes tivessem ocorrido numa
favela qualquer. Mas não é assim. Três
das assassinas são de classe média. No caso
mais recente, a contadora Liliana Cruz, de 52 anos, foi degolada,
esquartejada em oito partes e guardada dentro do armário
de uma farmácia. A acusada pelo crime é María
Dip, de 53 anos, farmacêutica e amiga íntima
da vítima. O motivo, segundo os parentes de Liliana,
seria uma dívida equivalente a 8.000 dólares.
O primeiro caso
envolvendo mulheres homicidas em Tucumán aconteceu
em novembro de 2004. O juiz Héctor Araóz foi
morto com nove tiros por sua namorada, a ex-agente policial
Ema Gómez. A polícia acredita que o crime tenha
ocorrido depois de uma briga violenta do casal, pois foram
encontrados restos de pele de Araóz sob as unhas da
namorada e nas mãos do cadáver havia chumaços
do cabelo dela. Os métodos usados nos dois casos contrariam
outro lugar-comum a respeito de mulheres homicidas: o de que
elas preferem um crime limpo, sem sangue ou sinais de brutalidade,
e cuidadosamente planejado. Nos Estados Unidos, 80% das assassinas
envenenam suas vítimas. Apenas uma das quatro assassinas
de Tucumán se utilizou desse recurso. No ano passado,
Nora Rivadeneira, de 64 anos, adicionou ao macarrão
com frango, tradicional no almoço de domingo da família,
grandes quantidades de pesticida. O marido e três netos
de 13, 9 e 1 ano de idade morreram. Apenas uma
neta de 12 anos sobreviveu. Nora, que é analfabeta
e mora na região rural, disse que não comeu
do próprio veneno porque não estava com fome.
Fotos Juan P. Sanchez
Noli/LG/Ag. Infoto
Por causa de uma dívida: María
Dip (à esq.) cortou Liliana (à
dir.) em oito pedaços e os guardou no armário
O crime mais bem
planejado foi o que levou à morte da professora Angela
Argañaraz, de 45 anos, que desapareceu em 31 de julho,
dia em que deveria assumir a diretoria da escola católica
onde lecionava. A polícia não encontrou seu
corpo, mas descobriu vestígios de seu sangue no apartamento
de duas de suas colegas de trabalho. Uma delas teria pedido
ao irmão, atualmente foragido, que enterrasse o cadáver.
"Os quatro assassinatos não têm conexão
entre si", disse a VEJA Carlos Santiago Caramuti, professor
de direito penal do Colégio de Advogados de Tucumán.
"Permanece um mistério por que tantas mulheres em Tucumán
estão cometendo crimes dessa natureza."