Estabilidade
econômica e normalidade democrática tornam Lula o interlocutor
de Bush na América Latina
Duda
Teixeira
Jason
Reed/Reuters
Bush
e Lula em depósito de biocombustível em São Paulo: acordo para promover o etanol
Quando George W. Bush veio ao Brasil pela primeira vez, em novembro de 2005, partiu
dos americanos a sugestão de os dois presidentes irem à Bahia, onde
a secretária de Estado Condoleezza Rice, que é negra, conheceria
a cultura afro-brasileira. O Itamaraty vetou o passeio, sob o argumento de que
seria ruim ampliar o tempo de exposição do presidente brasileiro
ao lado de Bush. O presidente americano voltou ao Brasil na semana passada, numa
visita-relâmpago de 23 horas e desta vez Lula ficou a seu lado durante
quase seis das oito horas em que o americano esteve à vista do público.
É um sinal positivo de que as relações entre os dois países
atravessam um momento de maior racionalidade e realismo. Em São Paulo,
os dois governos assinaram um acordo para incentivar a criação de
um mercado global para o álcool combustível, auxiliar outros países
a produzi-lo e desenvolver biocombustíveis de nova geração.
A mensagem transmitida pela viagem é a reafirmação de que
o governo americano vê no Brasil um interlocutor privilegiado na América
Latina.
À
noite, o presidente americano seguiu para Uruguai, Colômbia, Guatemala e
México. Desde Jimmy Carter, em 1978, nenhum presidente americano escapa
de um giro pela América Latina. Longe de simples rotinas diplomáticas,
viagens presidenciais servem para criar uma aproximação política
e pessoal entre os chefes de governo. Em sua primeira visita aos Estados Unidos,
em 2002, Lula descobriu inesperada afinidade pessoal com Bush. O brasileiro e
o americano se encontrarão novamente no fim deste mês em Camp David,
a residência de campo do presidente dos Estados Unidos. Aos olhos americanos,
a maior qualidade de Lula é a normalidade de seu governo. Num continente
marcado por arruaceiros e fanfarrões, de Hugo Chávez a Néstor
Kirchner, o Brasil é o bom exemplo. Fez uma transição tranqüila
para a democracia, elegeu um governo de esquerda que soube manter a estabilidade
política e econômica e se relaciona com o mundo de forma civilizada.
Celso
Junior/AE
Protesto
do PSOL e do PCdoB em Brasília: Bush ficou do mesmo tamanho. O Congresso
saiu menor do episódio
Guardadas as proporções, Bush e Lula colecionam fracassos em políticas
externas. "As três bandeiras da diplomacia brasileira no primeiro mandato
de Lula fracassaram", diz o ex-chanceler Celso Lafer. "Não conseguimos
um lugar no Conselho de Segurança da ONU, a Rodada Doha não evoluiu
e não avançamos na integração da América do
Sul." Bush enrolou-se de modo mais grave na ocupação desastrosa
do Iraque e se tornou uma figura tremendamente impopular dentro e fora de casa.
Só agora, de maneira um tanto desajeitada a ponto de oferecer aos
vizinhos um pacote de ajuda que parece resgatado de algum manual diplomático
dos anos 50 , Bush toma providências para que sua biografia não
inclua a perda por negligência do prestígio americano na América
Latina.
O interesse comum no etanol dá a Bush a oportunidade de iniciar uma parceria
concreta com o Brasil. Para Lula, o encontro com Bush serve a dois propósitos.
Um, de ordem prática, é o de transformar o etanol em uma commodity
internacional. Com três décadas de experiência tecnológica
nesse assunto, o Brasil é o país que mais teria a ganhar com o aumento
do uso do etanol como combustível para automóveis. O outro propósito
é dissipar os deslizes da diplomacia brasileira, que nos últimos
quatro anos insistiu numa política ideológica de privilegiar a aproximação
e o comércio com países pobres. "As circunstâncias externas
atuais criaram um momento único em que o Brasil é de longe o país
da região com a melhor relação com os Estados Unidos. Só
precisamos aproveitar isso da melhor maneira possível", diz Roberto Abdenur,
ex-embaixador do Brasil em Washington.
Os Estados Unidos são o principal comprador de produtos brasileiros
mas o total desse negócio representa apenas 1,3% das importações
americanas, que no ano passado atingiram 1,8 trilhão de dólares.
Há um contencioso entre os dois países, causado pelas sobretaxas
cobradas sobre o etanol, o suco de laranja, o açúcar, o fumo e o
aço brasileiros. Em São Paulo, na sexta-feira, Bush afirmou que
a redução das tarifas não depende de sua vontade e as sobretaxas
devem permanecer até o fim de 2009, quando caduca uma lei protecionista
do Congresso americano. Apesar delas, o Brasil exporta aviões, calçados,
carros e equipamentos de telecomunicações para os Estados Unidos.
As tarifas de importação não são uma desculpa para
ficarmos imóveis. Temos ainda muito o que crescer no comércio com
os Estados Unidos em várias áreas. São milhares os produtos
brasileiros que não pagam um centavo de imposto para entrar nos Estados
Unidos cada um deles é uma oportunidade de negócio.