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Edição 1999

14 de março de 2007
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Internacional
Como bons amigos

Estabilidade econômica e normalidade democrática
tornam Lula o interlocutor de Bush na América Latina


Duda Teixeira

 

Jason Reed/Reuters
Bush e Lula em depósito de biocombustível em São Paulo: acordo para promover o etanol

Quando George W. Bush veio ao Brasil pela primeira vez, em novembro de 2005, partiu dos americanos a sugestão de os dois presidentes irem à Bahia, onde a secretária de Estado Condoleezza Rice, que é negra, conheceria a cultura afro-brasileira. O Itamaraty vetou o passeio, sob o argumento de que seria ruim ampliar o tempo de exposição do presidente brasileiro ao lado de Bush. O presidente americano voltou ao Brasil na semana passada, numa visita-relâmpago de 23 horas – e desta vez Lula ficou a seu lado durante quase seis das oito horas em que o americano esteve à vista do público. É um sinal positivo de que as relações entre os dois países atravessam um momento de maior racionalidade e realismo. Em São Paulo, os dois governos assinaram um acordo para incentivar a criação de um mercado global para o álcool combustível, auxiliar outros países a produzi-lo e desenvolver biocombustíveis de nova geração. A mensagem transmitida pela viagem é a reafirmação de que o governo americano vê no Brasil um interlocutor privilegiado na América Latina.

À noite, o presidente americano seguiu para Uruguai, Colômbia, Guatemala e México. Desde Jimmy Carter, em 1978, nenhum presidente americano escapa de um giro pela América Latina. Longe de simples rotinas diplomáticas, viagens presidenciais servem para criar uma aproximação política e pessoal entre os chefes de governo. Em sua primeira visita aos Estados Unidos, em 2002, Lula descobriu inesperada afinidade pessoal com Bush. O brasileiro e o americano se encontrarão novamente no fim deste mês em Camp David, a residência de campo do presidente dos Estados Unidos. Aos olhos americanos, a maior qualidade de Lula é a normalidade de seu governo. Num continente marcado por arruaceiros e fanfarrões, de Hugo Chávez a Néstor Kirchner, o Brasil é o bom exemplo. Fez uma transição tranqüila para a democracia, elegeu um governo de esquerda que soube manter a estabilidade política e econômica e se relaciona com o mundo de forma civilizada.

 

Celso Junior/AE
Protesto do PSOL e do PCdoB em Brasília: Bush ficou do mesmo tamanho. O Congresso saiu menor do episódio

Guardadas as proporções, Bush e Lula colecionam fracassos em políticas externas. "As três bandeiras da diplomacia brasileira no primeiro mandato de Lula fracassaram", diz o ex-chanceler Celso Lafer. "Não conseguimos um lugar no Conselho de Segurança da ONU, a Rodada Doha não evoluiu e não avançamos na integração da América do Sul." Bush enrolou-se de modo mais grave na ocupação desastrosa do Iraque e se tornou uma figura tremendamente impopular dentro e fora de casa. Só agora, de maneira um tanto desajeitada – a ponto de oferecer aos vizinhos um pacote de ajuda que parece resgatado de algum manual diplomático dos anos 50 –, Bush toma providências para que sua biografia não inclua a perda por negligência do prestígio americano na América Latina.

O interesse comum no etanol dá a Bush a oportunidade de iniciar uma parceria concreta com o Brasil. Para Lula, o encontro com Bush serve a dois propósitos. Um, de ordem prática, é o de transformar o etanol em uma commodity internacional. Com três décadas de experiência tecnológica nesse assunto, o Brasil é o país que mais teria a ganhar com o aumento do uso do etanol como combustível para automóveis. O outro propósito é dissipar os deslizes da diplomacia brasileira, que nos últimos quatro anos insistiu numa política ideológica de privilegiar a aproximação e o comércio com países pobres. "As circunstâncias externas atuais criaram um momento único em que o Brasil é de longe o país da região com a melhor relação com os Estados Unidos. Só precisamos aproveitar isso da melhor maneira possível", diz Roberto Abdenur, ex-embaixador do Brasil em Washington.

Os Estados Unidos são o principal comprador de produtos brasileiros – mas o total desse negócio representa apenas 1,3% das importações americanas, que no ano passado atingiram 1,8 trilhão de dólares. Há um contencioso entre os dois países, causado pelas sobretaxas cobradas sobre o etanol, o suco de laranja, o açúcar, o fumo e o aço brasileiros. Em São Paulo, na sexta-feira, Bush afirmou que a redução das tarifas não depende de sua vontade e as sobretaxas devem permanecer até o fim de 2009, quando caduca uma lei protecionista do Congresso americano. Apesar delas, o Brasil exporta aviões, calçados, carros e equipamentos de telecomunicações para os Estados Unidos. As tarifas de importação não são uma desculpa para ficarmos imóveis. Temos ainda muito o que crescer no comércio com os Estados Unidos em várias áreas. São milhares os produtos brasileiros que não pagam um centavo de imposto para entrar nos Estados Unidos – cada um deles é uma oportunidade de negócio.

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