A Funai tenta demarcar área
de Santa Catarina para índios paraguaios, enquanto os do Brasil morrem
de fome
José Edward, da Serra do Tabuleiro (SC)
Fotos Hermes Bezerra e Luis Carlos
À
esquerda, embiás, que foram considerados carijós. À direita,
um grupo de crianças caiabis, tribo que pode ganhar uma reserva para além
dos poderes do deus Tupã
No
período do descobrimento, o litoral de Santa Catarina era habitado por
índios carijós, subgrupo do povo guarani. Escravizada pelos colonizadores
portugueses, a etnia foi considerada extinta em meados do século XVII,
segundo os registros dos historiadores. Essa versão não foi contestada
até 1993, quando a Fundação Nacional do Índio (Funai)
adotou a tese controvertida de que ainda havia remanescentes dos
carijós. A fundação se baseou num estudo publicado dois anos
antes pela antropóloga Maria Inês Ladeira. Ela defende que alguns
dos carijós teriam se refugiado no Paraguai, onde seriam chamados de embiás.
Depois que o trabalho foi divulgado, dezenas de embiás paraguaios (e alguns
argentinos) sentiram-se legitimados para invadir o parque ecológico da
Serra do Tabuleiro, nas imediações de Florianópolis. Os índios
se instalaram no Morro dos Cavalos, um dos pontos mais acidentados da região.
Invasão consumada, a Funai planeja transformar o local em reserva indígena.
Para brasileiro pagar e paraguaio (e argentino) usufruir.
Muito escarpada, a região é considerada imprestável tanto
para a agricultura quanto para moradia. Mas ganhou valor econômico porque
o Morro dos Cavalos fica à margem da Rodovia BR-101, que atravessa a maior
parte do litoral brasileiro e está sendo duplicada. A pista adicional cortará
a área que a Funai quer converter em reserva para os embiás. Com
base nisso, a fundação determinou que o Departamento Nacional de
Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) construa túneis sob o Morro dos Cavalos
para não incomodar os hermanos invasores. A obra foi orçada
em 150 milhões de reais. Mais: por exigência da Funai, o Dnit terá
de pagar uma indenização aos embiás. Ou seja, os paraguaios
(e alguns argentinos) serão compensados já por uma reserva que ainda
não foi criada. Como o território que a Funai pretende demarcar
está dentro de um parque ecológico estadual, o processo acabou na
Justiça. O Ministério Público catarinense tenta impugnar
a demarcação. Na opinião de seus integrantes, Maria Inês
Ladeira produziu uma fraude e a Funai embarcou nela. "Os carijós tinham
características físicas e culturais distintas das dos embiás
e estão extintos", afirma o promotor José Eduardo Cardoso.
Segundo o Ministério Público, Maria
Inês empenhou-se para convencer a Funai de que os embiás são
de origem carijó. Na seqüência, a fundação contratou
Maria Inês para elaborar o relatório que instrui o processo de demarcação.
O promotor Cardoso aponta falhas metodológicas no estudo que transubstanciou
embiás paraguaios (e alguns argentinos) em carijós de ascendência
brasileira. Segundo Cardoso, a antropóloga baseou a tese no depoimento
de uma única família de paraguaios que chegou a Santa Catarina nos
anos 60. Em um trecho do trabalho, ela chega a sugerir que alguns carijós
teriam permanecido escondidos no Morro dos Cavalos desde o século XVII.
Diz Manoel João de Souza, morador da região: "Acho que eles eram
invisíveis. Estou aqui há 87 anos e só vi o primeiro índio
nos anos 90".
Wilton Junior/AE
Índios caiovás, em Mato Grosso do Sul: 47 crianças
mortas de inanição
Ao comentar
o assunto, os embiás são de uma objetividade raramente atribuída
ao pensamento indígena. "Os antropólogos nos incentivaram a vir
para cá, dizendo que a terra era nossa", afirma o paraguaio Augusto Karai
Tataendy, que se mudou para o local em 1992. Eles, no entanto, decidiram deixar
a Serra do Tabuleiro mesmo que a reserva seja demarcada. Querem usar a indenização
do Dnit para recomeçar a vida em um lugar menos inóspito do que
o Morro dos Cavalos. "Vamos pegar o dinheiro para comprar terras em outro lugar.
Aqui não dá para viver", diz o cacique argentino Artur Benites.
Atualmente, os hermanos vivem dos repasses do Bolsa Família. Foi
por um triz que não receberam a bolada do Dnit em 2005. O departamento
estava prestes a começar a duplicação da estrada e, por conseqüência,
a liberar as indenizações, quando o Tribunal de Contas da União
(TCU) declarou que a tese de Maria Inês era inconsistente. Procurada por
VEJA para explicar seu estudo, a antropóloga enviou uma correspondência
na qual esmiúça as leis e os procedimentos burocráticos da
Funai, mas deixa de lado as incongruências históricas e antropológicas
apontadas pelos promotores e pelo TCU.
Nos últimos vinte anos, a Funai se converteu numa indústria de reservas.
O número de áreas demarcadas saltou de 210 para 611. As aberrações
na delimitação de terras para índios são corriqueiras.
No Espírito Santo, a fundação classificou moradores de Aracruz
de tupiniquins, uma etnia extinta há um século. Para tal, desconsiderou
um relatório elaborado por funcionários seus em 1982 que apontava
sinais de fraude nesse processo. O documento mostrava como os tais tupiniquins
foram inventados por um jornalista e por missionários católicos:
"Habitantes da região foram pagos para colocar enfeites de pena na cabeça,
usar anzóis adornados à moda indígena e afirmar que moravam
em aldeias", registra o relatório. Em outro caso grotesco, a Funai tentou
decuplicar uma reserva caiabi do Centro-Oeste do país. A Justiça
bloqueou a ampliação porque o presidente da Funai, Mércio
Gomes, incitou os índios a invadir a região.
Imbuída de um voraz espírito demarcatório, a Funai é
leniente com os índios que vivem em reservas antigas. O exemplo mais eloqüente
do fracasso da política indigenista está em Mato Grosso do Sul.
As reservas dadas aos caiovás e nhandevas do estado são um cenário
de horrores. Nelas, 30.000 índios moram confinados em 40.000 hectares.
Nas aldeias, imperam a prostituição, o alcoolismo e, sobretudo,
a fome. Desde 2005, 47 crianças caiovás morreram de desnutrição.
Neste ano, já houve seis casos. A degradação é tamanha
que, por ano, registram-se sessenta casos de suicídio nessas comunidades.
O último ocorreu na semana passada. O sociólogo Carlos Siqueira,
que chefiou o setor de indigenismo da Funai entre 1997 e 1998, não tem
dúvida de que a fundação precisa sofrer uma intervenção.
"A Funai está sendo regida pelos interesses dos antropólogos e das
ONGs, e não pelos dos índios", afirma Siqueira.