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Edição 1999

14 de março de 2007
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Diogo Mainardi
Agora me acusam de antinordestino

"Eu admito que chamei Lula de oportunista.
Eu admito que, privadamente, costumo referir-me
a ele com termos bastante mais impróprios. Eu admito
até mesmo um imperdoável desconhecimento em matéria
de geografia nordestina. O que nunca poderei admitir
é preconceito"

O Ministério Público Federal me acusa de preconceito contra os nordestinos. Quer tomar de mim 200.000 reais. E mais 200.000 reais de cada um dos meus empregadores. Meu crime foi ter escrito numa coluna de VEJA:

José Eduardo Dutra fez carreira como sindicalista da CUT e senador do PT pelo estado de Sergipe. Não sei o que é pior.

Isso foi em janeiro de 2005. Na época, José Eduardo Dutra era presidente da Petrobras. A mesma Petrobras que agora aparece no site do Ministério Público de Sergipe anunciando a inauguração de uma escola e de um reservatório de água.

De acordo com a denúncia do procurador da República, "a ambigüidade da última frase apenas demonstra a intenção de espezinhar os sergipanos, também nordestinos e objeto do preconceito do Sr. Mainardi". O procurador da República pode me acusar do que ele quiser, menos de ser ambíguo. Há quatro anos espezinho a CUT e o PT. Repetidamente. Monotonamente. Eu lhe garanto que mencionei o pujante estado de Sergipe somente porque José Eduardo Dutra foi eleito pelo pujante estado de Sergipe.

Mas o Ministério Público Federal colheu mais provas contra mim. No Manhattan Connection de março de 2005, fiz o seguinte comentário:

Lula é um oportunista. Quer dizer, uma semana ele concede a exploração de madeira, na semana seguinte ele cria uma reserva florestal grande como Alagoas, Sergipe, sei lá eu... por essas bandas de onde eles vêm.

Eu admito o gaguejamento. Eu admito que chamei Lula de oportunista. Eu admito que, privadamente, costumo referir-me a ele com termos bastante mais impróprios. Eu admito até mesmo um imperdoável desconhecimento em matéria de geografia nordestina. O que nunca poderei admitir é preconceito.

O Ministério Público pediu um parecer sobre o assunto ao antropólogo Jorge Bruno Sales Souza. Ele sentenciou: "De uma rápida leitura do referido trecho do programa fica patente a intenção do jornalista de menosprezar as pessoas oriundas da região nordeste do país". Uma rápida leitura? Qual a pressa?

Outro eminente pensador citado pelo Ministério Público foi Max Weber. Fica-se com a impressão de que ele é reconhecido como autor de estudos seminais sobre o preconceito contra os nordestinos, em particular contra os sergipanos, como no trecho: "As ciências sociais caracterizam-se por não produzir categorizações universais com status de verdade, antes produzem reflexão e compreensão (Verstehen)".

Com ou sem Verstehen, o fato é que o procurador sentiu a necessidade de apimentar sua denúncia, talvez por considerar que minhas duas referências a Sergipe não eram suficientemente incriminatórias. Para me caracterizar como antinordestino e anti-sergipano, ele deu uma voltinha no Google e encontrou uma velha coluna minha sobre Cuiabá. Eu posso ser burro em matéria de geografia nordestina, mas até onde eu sei Cuiabá fica longe, muito longe de lá.

O procurador da República, na carta citatória, cita os versos de Patativa do Assaré: "Seu dotô me dê licença / Pra minha história eu contá". Eu também acabo de contar a minha história. É a história de um país indo para o beleléu.

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