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Diogo
Mainardi Agora me acusam de antinordestino
"Eu admito que chamei Lula de oportunista.
Eu admito que, privadamente, costumo referir-me a ele com termos bastante
mais impróprios. Eu admito até mesmo um imperdoável desconhecimento em matéria
de geografia nordestina. O que nunca poderei admitir é preconceito"
O Ministério Público Federal me acusa de preconceito contra os nordestinos.
Quer tomar de mim 200.000 reais. E mais 200.000 reais de cada um dos meus empregadores.
Meu crime foi ter escrito numa coluna de VEJA: José
Eduardo Dutra fez carreira como sindicalista da CUT e senador do PT pelo estado
de Sergipe. Não sei o que é pior.
Isso foi em janeiro de 2005. Na época, José Eduardo Dutra era presidente
da Petrobras. A mesma Petrobras que agora aparece no site do Ministério
Público de Sergipe anunciando a inauguração de uma escola
e de um reservatório de água.
De acordo com a denúncia do procurador da República, "a ambigüidade
da última frase apenas demonstra a intenção de espezinhar
os sergipanos, também nordestinos e objeto do preconceito do Sr. Mainardi".
O procurador da República pode me acusar do que ele quiser, menos de ser
ambíguo. Há quatro anos espezinho a CUT e o PT. Repetidamente. Monotonamente.
Eu lhe garanto que mencionei o pujante estado de Sergipe somente porque José
Eduardo Dutra foi eleito pelo pujante estado de Sergipe.
Mas o Ministério Público Federal colheu mais provas contra mim.
No Manhattan Connection de março de 2005, fiz o seguinte comentário:
Lula é um oportunista. Quer dizer,
uma semana ele concede a exploração de madeira, na semana seguinte
ele cria uma reserva florestal grande como Alagoas, Sergipe, sei lá eu...
por essas bandas de onde eles vêm.
Eu admito o gaguejamento. Eu admito que chamei Lula de oportunista. Eu admito
que, privadamente, costumo referir-me a ele com termos bastante mais impróprios.
Eu admito até mesmo um imperdoável desconhecimento em matéria
de geografia nordestina. O que nunca poderei admitir é preconceito.
O Ministério Público pediu um parecer sobre o assunto ao antropólogo
Jorge Bruno Sales Souza. Ele sentenciou: "De uma rápida leitura do referido
trecho do programa fica patente a intenção do jornalista de menosprezar
as pessoas oriundas da região nordeste do país". Uma rápida
leitura? Qual a pressa? Outro eminente
pensador citado pelo Ministério Público foi Max Weber. Fica-se com
a impressão de que ele é reconhecido como autor de estudos seminais
sobre o preconceito contra os nordestinos, em particular contra os sergipanos,
como no trecho: "As ciências sociais caracterizam-se por não produzir
categorizações universais com status de verdade, antes produzem
reflexão e compreensão (Verstehen)".
Com ou sem Verstehen, o fato é que o procurador sentiu a necessidade
de apimentar sua denúncia, talvez por considerar que minhas duas referências
a Sergipe não eram suficientemente incriminatórias. Para me caracterizar
como antinordestino e anti-sergipano, ele deu uma voltinha no Google e encontrou
uma velha coluna minha sobre Cuiabá. Eu posso ser burro em matéria
de geografia nordestina, mas até onde eu sei Cuiabá fica longe,
muito longe de lá. O procurador
da República, na carta citatória, cita os versos de Patativa do
Assaré: "Seu dotô me dê licença / Pra minha história
eu contá". Eu também acabo de contar a minha história. É
a história de um país indo para o beleléu.
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