O criador do termo Bric diz
que, apesar do baixo crescimento, o país ainda está no rumo
certo para se tornar potência mundial
Ronaldo
França
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"Se
o Brasil crescer 3,5% ao ano nas próximas quatro décadas, será a sexta maior economia
do mundo"
Apesar
de seu reduzido efeito prático, poucas coisas fizeram tão bem à
auto-estima nacional, nesta década, quanto a projeção de
que o Brasil chegará à metade deste século como uma das seis
maiores potências mundiais, ao lado das também emergentes Rússia,
Índia e China e somando-se aos estabelecidos Estados Unidos e Japão.
O estudo, de 2001, foi feito pelo banco americano Goldman Sachs e já passou
por várias atualizações. Quem o conduziu foi o chefe do departamento
de pesquisas econômicas globais do banco, o economista inglês Jim
O'Neill, 49 anos. É dele a autoria da sigla Bric, formada pelas iniciais
dos países. Para chegar a suas conclusões sobre a construção
das novas potências mundiais, O'Neill e sua equipe analisaram dados econômicos
e demográficos. O Brasil continua bem na fita. Segundo ele, o país
precisa de um estado menos gastador para crescer no ritmo que o levará
ao graal das potências.
Veja
O crescimento do PIB brasileiro, no ano passado, foi de 2,9%. Apesar
do resultado medíocre, é possível afirmar que o Brasil ainda
é um Bric? O'Neill O que as pessoas devem entender
é que, para o Brasil se manter como um Bric, ele precisa crescer entre
3% e 3,5% ao ano pelas próximas décadas. Nas últimas duas
semanas, as pessoas passaram a se perguntar se o Brasil ainda continuaria sendo
um Bric, já que dificilmente obteria as taxas de crescimento da China e
da Índia. Em primeiro lugar, nós nunca achamos que isso ocorreria.
Nossa previsão era que o Brasil cresceria 3,1% na primeira década
e 3,5% no decorrer de outras quatro décadas. Se isso acontecer nas próximas
quatro décadas, o país será a sexta maior economia do mundo.
Então, respondendo à sua pergunta, claro que sim, o Brasil ainda
é um Bric.
Veja
Mas nosso crescimento, nos últimos dez anos, foi de 2,2%,
em média... O'Neill É verdade. Não
parece que o Brasil vá crescer na década o que imaginávamos.
Mas o Brasil tem se portado bem. Sei que muitas pessoas estão constantemente
surpresas com o fato de considerarmos o país como Bric, mas isso é
porque elas têm falsas expectativas sobre o país. Sabemos que, para
o Brasil ser bem-sucedido como Bric, tudo de que precisa é evitar crises.
Não é necessário fazer tanto quanto as pessoas pensam. Está
indo bem.
Veja Seus críticos afirmam que o termo Bric é uma embalagem nova para
um produto velho. Que foi criado para vender mais papéis dos países
emergentes, após as crises da Rússia, da Ásia e do México.
O que o senhor costuma responder a eles? O'Neill Ouvi isso
muitas vezes e sempre acho extremamente divertido. Se eu não tivesse sido
o primeiro a usar esse termo, provavelmente diria o mesmo. Mas o estudo do Bric
é, de longe, o mais popular sobre os fatores econômicos globais já
publicado. Um grande número de pessoas subestima e não entende que,
mesmo sendo muito diferentes entre si, os países do Bric possuem populações
bem grandes, e o mais importante em termos de crescimento econômico é
ter uma extensa população economicamente ativa e boa produtividade.
Essas são as principais variáveis que utilizamos no cálculo
dos Brics. O Brasil possui a segunda melhor demografia dos Brics. A China e a
Rússia têm uma demografia ruim. Entre hoje e 2050, a população
economicamente ativa da Rússia vai diminuir 25%. Na China, em dez anos,
também cairá. No Brasil, ela continuará a crescer. Isso é
um ponto muito importante.
Veja
O governo brasileiro lançou um pacote de medidas que inclui
idéias como o investimento governamental intensivo para alavancar o crescimento.
Isso funciona? O'Neill As evidências, ao redor do
mundo, mostram que o investimento dos governos para o crescimento não obteve
muito sucesso. O que o governo brasileiro poderia fazer de melhor seria não
se envolver tanto em assuntos econômicos. O maior problema que o Brasil
enfrentou nos últimos trinta anos foi a hiperinflação. O
essencial agora é permitir ao Banco Central manter o regime de metas e
uma inflação baixa. Isso, por si só, será um enorme
benefício. Permitirá ao país fazer com que as taxas de juro
de longo prazo caiam gradativamente, pois haverá maior confiança
das pessoas em que a estabilidade será um estado permanente. Isso é
mais importante do que tudo.
Veja
Os juros básicos altos são apontados como a principal
causa do baixo crescimento brasileiro. O que o senhor acha? O'Neill
Para que o Brasil confirme nossas projeções, precisa
reduzir as taxas de juro de longo prazo. Isso quer dizer que as expectativas de
inflação têm de cair e, adicionalmente, a situação
fiscal do país precisa melhorar. Acho que a chave é o controle permanente
dos gastos do governo. Mas, insisto, é fundamental que as pessoas aceitem
que o Banco Central mantenha o atual sistema de metas de inflação.
Sem isso, as taxas de juro de longo prazo não cairão, o que certamente
impedirá os investimentos no Brasil e o crescimento do PIB.
Veja O governo não tem sido
muito tímido na redução da taxa de juros? O'Neill
Me parece que o governo está um pouco tímido nessa questão.
Ele poderia ser mais desafiador.
Veja
Em suas projeções, a moeda brasileira terá
uma valorização de 129% em termos reais até 2050. Como crescer
com câmbio tão desfavorável? O'Neill
Quem culpa o câmbio pelo baixo crescimento do país está definitivamente
errado. O ponto central é o aumento da produtividade. A valorização
da moeda brasileira tem até ajudado nesse ponto. Quando o Brasil atingir
taxas de produtividade ainda maiores, comparáveis às do mundo desenvolvido,
a questão do câmbio desaparece. Se você olhar o que realmente
aconteceu desde que fizemos as projeções, não há evidência
de que o real valorizado tenha prejudicado o crescimento do país.
Veja Além
das sempre lembradas reformas estruturais, o que mais o Brasil precisa fazer para
atrair mais investimentos e se integrar de vez ao fluxo internacional de capitais? O'Neill Três coisas. Uma delas, que eu sempre cito, é
que o Brasil deverá se tornar uma sociedade em que a inflação
baixa seja uma expectativa de longo prazo. Se fizer isso, atrairá tremendamente
mais investimentos estrangeiros do que hoje. Em segundo lugar, a adequação
de leis, regulamentos e características de comportamento do governo, que
fariam com que os investidores se sentissem mais seguros ao investir no país.
A terceira, que sempre falo em tom de brincadeira, é que o Brasil deveria
se mudar para a Ásia ou para a Europa. Sua localização geográfica
é obviamente uma desvantagem. Mas esse é um problema insolúvel.
Os únicos que conseguiram superá-lo foram os jogadores da seleção
brasileira.
Veja Um estudo recente do FMI mostrou que toda vez que o investimento estrangeiro
aumenta na Ásia, especialmente na China, diminui na América Latina.
O que fazer? O'Neill A China é o maior fenômeno
da nossa era. Não há nada que o Brasil possa fazer a respeito. Eu
não me preocuparia com isso. Acredito que o que está acontecendo
com a China e a Índia é um superciclo que o mundo não vê
desde a reconstrução da Alemanha e do Japão. Ou o equivalente
moderno ao que ocorreu com a América após a guerra civil. O Brasil
e a América Latina não são os únicos que sofrem com
a comparação na velocidade de crescimento. China e Índia
são os grandes casos globais de sucesso do presente e do futuro imediato.
É inviável a idéia de que o Brasil possa competir com países
que têm mais de 1 bilhão de habitantes e, mais importante, centenas
de milhares de pessoas se urbanizando rapidamente.
Veja Mas, então, que vantagens
o Brasil tem sobre os outros emergentes? O'Neill O Brasil
é particularmente rico em produtos primários, as commodities, das
quais a China e a Índia tanto precisam. Isso é uma grande vantagem,
que o Brasil deveria explorar continuamente. Confesso que não nos demos
conta disso quando fizemos nossa análise dos Brics. É um ponto vital.
Veja Esquecer o mercado americano e apostar em comércio com os países
pobres, opção de nossa diplomacia, atrapalha o crescimento? O'Neill Não me empolgo muito com esses acordos regionais
de comércio. Como são burocratas, os funcionários de comércio
exterior ficam muito excitados com essas coisas, mas existem muitos outros fatores
para o desenvolvimento econômico natural. O Brasil deveria se concentrar
neles, em vez de se preocupar com acordos específicos de comércio
com Alca, África ou qualquer outro. Como disse antes, o Brasil tem muitas
coisas de que a China precisa, e isso é o mais importante para a próxima
década, no que diz respeito ao comércio internacional. Não
acho que acordos comerciais sejam mais relevantes do que isso.
Veja Dá para prever o que
acontecerá no mundo com uma possível desaceleração
da economia da China? O'Neill O que está havendo
na China é uma desaceleração feliz. Será uma pequena
desaceleração, muito pequena. A China crescerá 9,5%, em vez
de 11%, e a América, 2,5%, em vez de 3%. Ainda assim, não existirá
recessão na América e teremos uma economia extremamente forte na
China.
Veja A Índia tem mesmo condições de superar a China ? O'Neill
Não. As pessoas que dizem isso são populistas, não
estão apoiadas em evidências. A Índia tem déficit fiscal,
um déficit crônico, e muitas coisas para mudar em termos de produtividade.
A China deverá se manter muito forte. Os dois países estão
bem, mas a China encontra-se numa posição bem mais forte hoje em
dia.
Veja Mas o fato de não ser uma democracia, e todas as conseqüências
que isso traz ao desenvolvimento do próprio país, não coloca
a China em desvantagem? O'Neill Isso pode ser uma vantagem.
Veja Uma vantagem? O'Neill O fato de a Índia ser uma
democracia é provavelmente uma desvantagem. Para um país que se
desenvolve tão rapidamente, com grande número de pessoas, conseguir
estabelecer a concordância entre 1,1 bilhão de pessoas é algo
muito difícil. Isso é mais fácil na China, onde o governo
pode simplesmente dizer a 1,3 bilhão de pessoas o que vai fazer e pronto.
Então eu tenho uma visão, que é evidentemente controvertida,
de que, no atual estágio de desenvolvimento dos dois países, a democracia
é provavelmente uma desvantagem.
Veja
Com isso, o senhor está dizendo que, para os mercados emergentes,
ser uma democracia é um problema? O'Neill Não
de forma geral. O que estou dizendo é que para países com população
extremamente grande, como China e Índia, que são os únicos
do mundo com mais de 1 bilhão de habitantes, ser aberto como uma democracia
não é obviamente uma vantagem em termos de crescimento econômico.
Veja O que
o senhor acha da proposta sempre presente no Brasil de o estado fazer superávits
menores para sobrar dinheiro para gastar e com isso incentivar o crescimento?
O'Neill É saudável para o Brasil ter crescimento
maior e mais rápido, o que não pode é relaxar a meta de superávit
fiscal pelo crescimento. Como disse antes, o governo brasileiro está muito
presente na economia. É preciso diminuir essa presença.
Veja Bem,
agora vamos falar de um assunto sério para encerrar: futebol. Como ex-diretor
do clube inglês Manchester United, este é um tema do qual o senhor
gosta e entende. O que temos de fazer para ganhar a próxima Copa do Mundo? O'Neill O Brasil perdeu a última Copa simplesmente porque
alguns jogadores não estavam em forma o suficiente para chegar a uma final
de Copa do Mundo. O Ronaldinho não estava bem. Foi nisso que deu ele ter
ido para o Barcelona em vez de vestir a camisa do Manchester United! Mas vocês
provavelmente vencerão. Ganharam quase todos os outros torneios recentemente.
Só que, ao contrário da economia, no futebol vocês têm
de deixar algum outro país ganhar de vez em quando.