A partir desta
edição VEJA passará a grafar a palavra estado com letra minúscula.
Se povo, sociedade, indivíduo, pessoa, liberdade, instituições,
democracia, justiça são escritas com minúscula, não
há razão para escrever estado com maiúscula. Os dicionaristas
aconselham o uso de capitular quando a palavra for usada na acepção
de "nação politicamente organizada", como prescreve o Aurélio.
Seu rival Houaiss também assevera que estado nesse sentido se grafa
com maiúscula. Vale a pena contrariá-los.
Escrever estado com inicial maiúscula, quando cidadão ou contribuinte
vão assim mesmo, em minúsculas, é uma deformação
típica mas não exclusivamente brasileira. Os franceses, estado-dependentes,
adoradores de seu generoso cofre nacional, escrevem "État". Os povos de
língua inglesa, generalizando, esperam do estado a distribuição
equânime da justiça, o respeito a contratos e à propriedade
e a defesa das fronteiras. Mas não consideram uma dádiva do estado
o direito à boa vida material sem esforço. Grafam "state".
Com maiúscula, estado simboliza uma visão de mundo distorcida, de
dependência do poder central, de fé cega e irracional na força
superior de um ente capaz de conduzir os destinos de cada uma das pessoas. O escocês
Adam Smith (1723-1790) nunca escreveu a palavra capitalismo. O inglês Thomas
Hobbes (1588-1679) não utilizou a palavra estado. Ambos, porém,
são associados a esses termos. Smith, autor de A Riqueza das Nações,
como o primeiro pensador a explicar o funcionamento da economia capitalista. Hobbes,
com seu Leviatã, como pioneiro na denúncia do estado pantagruélico.
Foi, na verdade, defensor de uma instituição capaz de livrar a sociedade
do estado permanente de guerra entre os indivíduos, uma "entidade soberana"
em minúsculas, recomendava Hobbes, que escrevia Lei sempre com capitular.
Grafar estado é uma pequena contribuição
de VEJA para a demolição da noção disfuncional de
que se pode esperar tudo de um centralismo provedor. Em inglês grafa-se
"Eu" sempre em maiúscula, na entronização simbólica
do indivíduo. Não o faremos. Nem vamos tirar a capitular da palavra
Deus. A tentativa é refletir uma dimensão mais equilibrada da vida
em sociedade, como a proposta pelo poeta francês Paul Valéry (1871-1945):
"Se o estado é forte, esmaga-nos. Se é fraco, perecemos".