Autor
do best-seller Ouvindo o Prozac, o psiquiatra americano Peter Kramer, de
57 anos, acaba de ter seu quinto livro lançado no Brasil. Em Enfrentando
a Depressão (Editora Melhoramentos), Kramer, professor da Universidade
Brown, alerta para os perigos envolvidos na glamourização da doença.
Ele deu a seguinte entrevista à repórter Anna Paula Buchalla.
EM SEU NOVO LIVRO, O SENHOR DIZ QUE A DEPRESSÃO
EXERCE UMA ATRAÇÃO PODEROSA. QUAL É ESSE APELO? Certos
sintomas como o desânimo e a apatia remetem a uma estética decadente
que confere certo charme aos doentes. Existem homens que são especialmente
atraídos por mulheres depressivas e vice-versa e esse apelo vai
além da simples necessidade de cuidar de alguém. A visão
romântica da depressão está profundamente entrelaçada
com a visão do amor romântico. É importante, porém,
deixar claro que não há nada de bom na depressão. Os depressivos
tendem a ter menos contatos sociais, a separar-se mais e a conceber menos filhos.
É ESTRANHO, PORTANTO,
QUE SE EMPRESTE GLAMOUR À DOENÇA. Pois é:
pergunte a uma pessoa se a depressão é uma doença e ela provavelmente
responderá que sim. Mas, quando indagamos se a depressão deveria
ser erradicada, as respostas costumam ser ambivalentes. Se a pergunta fosse sobre
o fim de uma doença como a artrite, ninguém hesitaria em responder
que, óbvio, ela deveria ser eliminada. Há, no entanto, muita gente
que simplesmente defende a existência da depressão. O motivo para
essa defesa é que, para além de uma visão estritamente romântica,
ela continua a ser associada a personalidades de grande criatividade e profundidade
intelectual da mesma forma que a tuberculose no século XIX. Trata-se
de uma bobagem: as evidências que associam depressão a inventividade
são frágeis. Essa associação, aliás, seria
mais palpável entre os portadores de distúrbio bipolar e epilepsia
e não se vê ninguém defendendo nenhuma dessas duas
doenças. Numa cultura que priorizasse o combate à depressão,
a glamourização da doença pareceria, na melhor das hipóteses,
lamentável. E, na pior, cruel.
O
SENHOR NÃO ESTÁ EXAGERANDO? É claro que não.
A depressão é uma condição grave, debilitante e associada
a anormalidades na anatomia cerebral. Ela é fator de risco para derrames,
infartos, distúrbios hormonais e osteoporose. A depressão se manifesta
em idades precoces, é recorrente e progressiva e a cada episódio
pode deixar seqüelas graves. Os deprimidos são incapazes de experimentar
o prazer, têm sentimentos de culpa, problemas de sono e de apetite, diminuição
da memória tudo isso em um nível altíssimo de perturbação.
COMO O SENHOR AVALIA OS ANTIDEPRESSIVOS
SURGIDOS DESDE O LANÇAMENTO DO PROZAC, NO FIM DOS ANOS 80? Todos
os remédios da classe dos inibidores de recaptação de serotonina,
da qual o Prozac faz parte, são, em minha opinião, antidepressivos
medíocres. Mas eles fazem com que os pacientes se sintam mais confiantes
socialmente. Não é pouco, reconheça-se. No tratamento efetivo
da depressão, no entanto, vários pacientes respondem muito melhor
aos antidepressivos mais antigos os da classe dos tricíclicos.
ESTAMOS LONGE DE CONHECER AS CAUSAS
DA DEPRESSÃO? Sim, ainda sabemos pouco sobre ela. Mas houve avanços
evidentes nos últimos quinze anos. Até algum tempo atrás,
a maior parte das pesquisas em depressão focava nos neurotransmissores,
as substâncias químicas que carregam os sinais entre as células
nervosas. Agora, a atenção se volta para a saúde individual
das células nervosas. Os estudos mostram que a depressão está
associada a alterações no funcionamento dessas células. Inclusive
já estão sendo investigados remédios capazes de proteger
e reparar aquelas que se mostram doentes.