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Roberto Pompeu de Toledo

A comoção popular e
a bandeira do time

Uma tentativa de entender por que
a morte de Mário Covas se deu
no
clima de
emoção em que se deu

Como explicar a comoção popular que, do Incor, em São Paulo, ao Cemitério de Paquetá, em Santos, passando pelas ruas das duas cidades e pela estrada que as liga, acompanhou cada passo dos funerais do governador Mário Covas? Ele não era propriamente um político popular. Apesar de tudo o que foi dito em contrário, em dias recentes, no rastro da doce empulhação com que se costuma enfeitar os necrológios, nunca lhe foi fácil conquistar adesões, muito menos provocar entusiasmo. Não cunhou uma tendência política batizada com seu nome, conforme o hábito tão brasileiro. Não há "covismo" como houve "getulismo" e "janismo", ou como ainda há o "malufismo", de Paulo Maluf, em São Paulo e o "carlismo", de Antonio Carlos Magalhães, na Bahia.

As vitórias eleitorais, Covas conquistou-as quase sempre a duras penas. A sempre citada votação para o Senado, em 1986 – um recorde nacional de 7,8 milhões de votos –, deu-se no clima de ilusionismo do Plano Cruzado. No primeiro turno da eleição de 1998 para governador, em que buscava o segundo mandato, ficou atrás de Maluf. Em 2000, na eleição para prefeito de São Paulo, seu candidato, Geraldo Alckmin, ficou em terceiro lugar, atrás de Maluf e de Marta Suplicy. O Covas sério e honesto, digno e coerente – e essas são qualidades que ninguém lhe tira – passou boa parte da carreira ameaçado, se não superado, por um Paulo Maluf cuja biografia, de forma igualmente notória, é ornamentada pelas qualidades inversas. Se a comoção popular por sua morte se deveu ao reconhecimento por sua integridade, como tanto se disse, por que o eleitorado vivia a negar-lhe semelhante homenagem nas urnas?

O governo de Covas em São Paulo, por outro lado, distinguiu-se por virtudes não muito fáceis de entender. O que ele fez de melhor foi o saneamento financeiro do Estado. Primou pela austeridade e pela responsabilidade – fiscal e outras. Não tinha obras vistosas a exibir. Numa área em que a cobrança sobre um governador, e sobretudo o de São Paulo, é enorme – a da segurança pública –, fracassou. Seu governo assistiu, impotente como os anteriores, à escalada da violência nas ruas. Viu-se submergido pelas rebeliões nas prisões e pelo caos na Febem. Assim sendo, como explicar a comoção?

Não se está querendo diminuir a figura de Covas. Sua vida está cheia de episódios de grandeza, a começar pela resistência à ditadura. Os princípios regiam-lhe os reflexos, não as conveniências. Tais qualidades não se revelaram suficientes, no entanto, para credenciá-lo como herói das multidões. No governo de São Paulo, a obra de reerguimento do Estado não lhe valeu reeleição tranqüila. Daí que morrer "consagrado pelo povo", para citar a frase do presidente Fernando Henrique Cardoso, à beira do túmulo, não é fato que possa ser recebido como conseqüência natural de sua trajetória.

A primeira explicação para a comoção é o martírio. Com isso, deu-se o clique no elemento que faltou quase sempre, na relação entre Covas e o público: a emoção. Repetia-se o fenômeno Tancredo Neves, ele também um político mais racional que emocional, mais rico do respeito dos pares e das análises dos especialistas que de votos, e que no entanto também morreu consagrado pelo povo. O martírio não causa apenas dó e solidariedade. Também, e no caso de Covas mais ainda, pois não escondeu nem deixou que escondessem sua doença, transforma a figura do governante, em princípio tão distante, num igual. Ao mesmo tempo, transfere-a do âmbito público para o privado. Por força do afeto que se cria entre essa figura, agora fragilizada pela doença, e o homem comum, ela passa a ser como membro da família. A doença é acompanhada de perto, comove e angustia. O homem público é puxado do palácio para casa.

O historiador Sérgio Buarque de Holanda celebrizou a expressão "homem cordial" para definir o brasileiro. Com isso não quis dizer "bom" ou "pacífico", como erroneamente tantas vezes se tem interpretado, mas sim, tomando pela raiz a palavra cordial – derivada de "coração" –, que o brasileiro é um ser que se rege pelo coração. Outro intérprete do Brasil, o antropólogo Roberto da Matta, retomando e ampliando a tese de Sérgio Buarque, enfatiza em seus livros como a esfera privada, a dos afetos por excelência, "do coração", tem esmagadora precedência, entre os brasileiros, sobre a esfera pública. As honras a Mário Covas, na semana passada, eram das pessoas físicas, não do eleitorado. Homenageava-se não o político, mas o homem – aquele cuja doença abriu caminho para a comunicação via linguagem do coração e transferiu-o para a intimidade de cada um.

A bandeira que lhe cobria o caixão, ao descer ao túmulo, não era a de São Paulo nem a do Brasil, ambas referentes a círculos amplos, que remetem à esfera pública, mas a do Santos, o time pelo qual torcia – o time "do coração", como se diz. Ser conhecido pelo time do coração é algo que ocorre na intimidade dos círculos da família ou dos amigos. Covas baixou à tumba tão íntimo de todo mundo que virara um torcedor.

 

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