Artes e Espetáculos Música

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Traffic, de Steven Soderbergh
Antes do Anoitecer, de Julian Schnabel
A reportagem levanta audiência do Gugu
Fora do arquivo
Uma biografia de Victor Hugo
Haruki Murakami, o escritor japonês do momento
Livro fala da vida e da obra de Bach

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

O músico do futuro

Bach criou, no século XVIII, obras que
só seriam apreciadas 200 anos mais tarde

João Gabriel de Lima

Bach: ele tinha consciência de que produzia para a posteridade

O compositor alemão Johann Sebastian Bach criou, no século XVIII, obras que só seriam devidamente apreciadas no século XX. Era, em seu tempo, um músico do futuro. Costuma-se dizer o mesmo de Mozart e Beethoven – que, junto com ele, formam a tríade dos gênios incontestáveis da história da música –, mas isso é incorreto, porque ambos foram célebres em vida. Bach, não. Em sua época, os grandes centros musicais da Europa eram Viena, Londres, Paris, Roma, Veneza. Bach passou a vida em pequenos burgos da Alemanha recém-devastada pela peste e por guerras internas, longe do público e da crítica que contavam, num tempo em que não havia gravação e as notícias demoravam dias para chegar. Numa comparação com o mundo globalizado de hoje, em que a meca cultural é Nova York, era como se um compositor criasse obras-primas num vilarejo perto de Adis-Abeba. Sua música permaneceu no ostracismo até cerca de 100 anos depois que morreu. O livro 48 Variações sobre Bach, do estudioso suíço Franz Rueb (tradução de João Azenha; Companhia das Letras; 362 páginas; 33 reais), ajuda a esclarecer o milagre da ressurreição do compositor.

A obra é um misto de biografia, ensaio e análise musical. Através do livro, mapeia-se como Bach foi aos poucos voltando à tona. No século XIX, compositores como Mendelssohn, Schumann, Chopin e Berlioz "reabilitaram" a obra do músico alemão, contando com a ajuda de gigantes intelectuais como Goethe e Nietzsche (veja quadro). Na época, no entanto, conhecer suas partituras era como ter acesso à cabala. Só no século XX Bach saiu totalmente do limbo. Graças, em parte, ao fato de ter como grande divulgador o maior pianista dos últimos 100 anos, o canadense Glenn Gould. Hoje, dezenas de trilhas de filmes têm músicas de Bach, roqueiros fazem "releituras" eletrônicas de sua obra, jazzistas como Chick Corea compõem improvisos inspirados nele e até os ETs, teoricamente, têm acesso à sua arte: um CD com músicas de Bach foi lançado ao espaço em 1987 a bordo da nave Voyager, como amostra do que de melhor os terráqueos já produziram em matéria de criação artística.

Séquito de fortões – O livro demonstra que Bach (1685-1750) tinha consciência de que compunha para o futuro. Um episódio quase folclórico exemplifica isso. Quando era diretor musical da corte na cidadezinha de Köthen, viu repentinamente sua verba minguar. O motivo: a mulher do príncipe local pressionou-o a usar o dinheiro da orquestra para criar uma guarda pessoal para ela. Segundo as más línguas, ela queria um séquito de fortões sempre dispostos a prestar "favores especiais". O que fez Bach? Aproveitou o tempo livre para criar O Cravo Bem Temperado, partitura que foi considerada pelo lendário pianista Hans von Bülow o "Antigo Testamento" da música para teclado (o "Novo" seria o conjunto das 32 sonatas de Beethoven). A Missa em Si Menor, obra-prima de Bach, nunca foi executada na íntegra durante a vida do compositor. Seus patrões em Leipzig, onde era músico de igreja, o impediam, por contrato, de produzir peças "operísticas demais" para o ofício religioso. Bach, então, criou a música na surdina e a engavetou. A primeira edição completa da partitura só veio à luz em 1845, e deixou todo mundo embasbacado. O músico alemão Johannes Brahms escreveu: "Custa-me acreditar que algo assim tão sublime e tão tocante possa ter sido obra de um homem".

Já se escreveu muita besteira sobre Bach, principalmente em teses acadêmicas. Por exemplo, que ele era anti-semita. Contribuiu para isso o fato de a Missa em Si Menor ter sido apresentada para 4.000 soldados alemães na Paris ocupada, em 1940, como demonstração da "superioridade" teutônica. O regente foi Herbert von Karajan, notório nazista. Em seu livro, Rueb mostra o absurdo dessa e de outras afirmações. A religião de Bach, a ideologia de Bach e a filosofia de Bach se resumiam numa única palavra: música. Ele compôs até no leito de morte, quando, doente e já cego, ditou uma peça vocal para o genro. Era o último capítulo de um legado inestimável à posteridade. A posteridade demorou, mas reconheceu seu talento.

 
"Eu ouvia a música de Bach e me dizia: é como se a eterna harmonia se perguntasse o que teria ocorrido no seio de Deus pouco antes da criação do mundo. Tive a sensação de não possuir nem precisar de ouvidos, de olhos ou de qualquer outro sentido."
Johann Wolfgang von Goethe
escritor alemão, em 1827

Divulgação

"Com o tempo, as fontes ficam cada vez mais próximas. Beethoven, por exemplo, não precisou estudar tudo o que Mozart precisou. Cada um já assimilou seu antecessor. Só um compositor continuou a ser fonte inesgotável de ensinamentos: Johann Sebastian Bach."
Robert Schumann
compositor alemão, em 1834
"Durante a semana ouvi três vezes a Paixão Segundo São Mateus do divino Bach e a cada vez com o mesmo sentimento de infinita admiração. Quem desaprendeu totalmente a cristandade tem a chance de ouvi-la aqui como um evangelho."
Friedrich Nietzsche
filósofo alemão, em 1870

"Não sou capaz de traduzir em palavras tudo o que tenho aprendido e continuo aprendendo com Bach – naturalmente, como uma criança sentada a seus pés. Pois meu jeito inato de trabalhar é bachiano."
Gustav Mahler
regente e compositor austríaco, em 1901

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições Especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco

CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
Submarino
Americanas
Livros
Saraiva.com.br
Submarino
Espiral
Ingressos
Fun by Net
o que é o canal