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Amanteigado

Haruki Murakami faz ficção japonesa
com toque ocidental

Carlos Graieb

Durante séculos, os japoneses não comeram nenhum derivado do leite. Por isso, quando deixaram de ser um país fechado, no século XIX, criaram a expressão batakusai para referir-se ao que era ocidental, ou imitava o Ocidente. A palavra quer dizer "cheirando a manteiga". Aos 52 anos, Haruki Murakami é um dos mais importantes escritores do Japão contemporâneo. Seus personagens, entretanto, não se apegam às tradições do país. Como o narrador anônimo de Caçando Carneiros (tradução de Leiko Gotoda; Estação Liberdade; 335 páginas; 28 reais), eles usam jeans americanos e comem steaks. Eles ouvem os Stones e lêem o poeta beat Allen Ginsberg. Para falar como o próprio autor, numa entrevista de anos atrás: eles "criam um país estrangeiro em sua alma". Murakami não abre mão de ser batakusai.

Há duas décadas, o odor amanteigado de sua obra causa reações opostas entre os japoneses. Os críticos acusam-no de frivolidade e, embora não consigam relegá-lo de uma vez ao plano "inferior" da literatura popular, também não aceitam alçá-lo ao olimpo da jun bungaku, a literatura pura. Os jovens, enquanto isso, o reverenciam. Transformam seus livros em sucessos instantâneos: só o mais famoso, Norwegian Wood, título que faz referência a uma música dos Beatles, vendeu 4,5 milhões de exemplares. Eles vêem nas menções à moda e à cultura ocidentais indícios de uma intenção mais profunda. Nos livros de Murakami, o que importa são os dilemas daqueles que tentam romper com o arraigado espírito coletivista da sociedade japonesa.

Do Brasil, longe da briga, pode-se concordar ao mesmo tempo com os jovens leitores e com os críticos japoneses de Murakami. O autor não é um frívolo: suas menções a grifes, canções e livros são, de fato, artifícios de alguém interessado em capturar o "espírito do tempo". Mas também é certo dizer que seus livros ocupam uma posição intermediária entre a literatura popular e a elevada. Num panteão internacional de autores, ele estaria ao lado de ingleses como Martin Amis, ou americanos como Paul Auster. Caçando Carneiros, por exemplo, é uma curiosa mistura de ficção policial, reflexão metafísica e fantasia à moda de Alice no País das Maravilhas. O livro conta a história de um homem de 30 anos, recentemente divorciado e profundamente entediado, que se vê obrigado, por uma poderosa organização do submundo japonês, a investigar o paradeiro de um carneiro dotado de poderes mágicos. Murakami se arrisca bastante ao introduzir elementos fantásticos em sua trama. Mas consegue manter de pé – e íntegro – o edifício de sua ficção. Aplausos, portanto, à Estação Liberdade, que se arriscou em publicar aqui um autor importante, de uma tradição literária pouco conhecida. E boa caçada ao leitor.

 

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