Nunca
te li, sempre
te amei
Apesar da obra datada, o mito
de
Victor Hugo persiste
Flávio Moura
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| Caricatura
de Roubaud, em 1841: o escritor reina sobre Paris |
O
escritor francês Victor Hugo é uma figura paradoxal.
Representa, talvez como ninguém na história
da literatura européia, o "grande homem de letras".
Mas também é um exemplo perfeito de escritor
ultrapassado tão "démodé" quanto
o espartilho. E, mesmo assim, num outro volteio do paradoxo,
continua falado e discutido. Ainda hoje, quase 120 anos depois
de sua morte, cerca de 3.000 palavras
são escritas pelo mundo em louvor de Hugo, todos os
dias. Graças às adaptações cinematográficas
e teatrais (só O Corcunda de Notre-Dame e Os
Miseráveis têm mais de vinte cada um), ele
é uma espécie de ícone pop. Ao mesmo
tempo, leitores e críticos não se cansam de
constatar: há poucas coisas mais difíceis de
encarar do que um texto de Victor Hugo. Muitos conhecem os
enredos de seus romances, mas poucos têm fôlego
para percorrer suas páginas prolixas e rebuscadas.
Victor Hugo (tradução de Alda
Porto; Record; 658 páginas; 70 reais), biografia escrita
pelo professor de Oxford Graham Robb, é a melhor fonte
para entender essas e outras contradições que
marcaram a vida do autor.
O
livro ajuda a mapear a criação do mito em torno
de Victor Hugo. Ele foi um homem de letras capaz de abordar
qualquer tema em sua obra. E também conquistou grande
renome como homem público. Eleito parlamentar, construiu
na política a mesma imagem de "pai dos pobres" que
procurou sedimentar na literatura, em obras como Os Miseráveis.
Em 1851, pouco depois da subida de Napoleão III ao
poder, Victor Hugo se desentendeu com o governo e partiu para
o exílio na Ilha de Jersey, no Canal da Mancha. Era
o que faltava para personificar de vez a resistência
contra o arbítrio dos poderosos e fazer proselitismo
em nome da liberdade. Quase vinte anos depois, quando voltou
do exílio, com aura de grande vulto, parecia encarnar,
sozinho, a história da França desde a revolução
de 1789 até o fim do império, em 1871. Quando
morreu, em 1885, cerca de 2 milhões de pessoas compareceram
ao seu enterro. Um número superior ao de habitantes
de Paris na época.
É
essa dimensão grandiosa como figura pública
que faz com que a mitologia a seu respeito seja alimentada
até hoje. Mas, se um de seus maiores esforços
em vida foi associar as passagens mais importantes da história
do século XIX à própria trajetória
de vida, isso também levou sua obra a ser identificada
com uma época e, praticamente, tornar-se prisioneira
dela. Hugo teve o azar de ser o último grande autor
antes do surgimento de ícones da ficção
moderna, como o romancista Gustave Flaubert e o poeta Charles
Baudelaire. Com isso, passou a representar tudo o que deveria
ser repudiado dali em diante: a verborragia, o derramamento
romântico, a grandiloqüência, o paternalismo
político. Mesmo que seus últimos escritos prefigurem
elementos da escrita moderna, a geração artística
que o sucedeu foi veemente demais em rejeitar o seu legado.
Walt Disney
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| O
Corcunda de Notre-Dame (foto) e Os Miseráveis:
dezenas de adaptações |
Além de ajudar a deslindar o paradoxo Victor Hugo,
a biografia de Graham Robb tem interesse pelo enorme acúmulo
de detalhes a respeito de uma existência movimentada.
A vida familiar do escritor daria, com perdão do clichê,
um romance, daqueles repletos de tragédias. O irmão
mais velho, Eugène, era apaixonado por Adèle,
a amiga de infância com quem Hugo se casou. O irmão
acabou no hospício. Adèle, nos braços
de Sainte-Beuve, o principal crítico francês
da época e amigo do escritor. Hugo, por sua vez, nunca
abandonou as amantes e sempre dava um jeito de instalá-las
perto de casa. Léopoldine, sua filha, morreu afogada
em 1843. A outra filha, Adèle, se apaixonou por um
sujeito, não conseguiu fisgá-lo e morreu esquizofrênica
num asilo. Hugo também afirmou de pé junto ter
recebido lições literárias dos espíritos
de Dante, Shakespeare e Chateaubriand. Sim. Nos primeiros
anos de exílio, ele promovia sessões espíritas
em sua casa, algumas delas documentadas em Conversando
com a Eternidade, um livro de gosto duvidoso recém-lançado
por aqui pela editora Madras. "Victor Hugo era um louco que
se considerava Victor Hugo", dizia o artista francês
Jean Cocteau, em tom de blague. Graham Robb, em seu estudo
meticuloso, separa o Victor Hugo da lenda do Victor Hugo de
verdade e constata que, por estranho que pareça, os
dois são reais.
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