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Vida partida

Javier Bardem brilha no papel
de escritor foragido de Cuba

Isabela Boscov

Com sua prosa torrencial, sensual e repleta de metáforas, o escritor e poeta Reinaldo Arenas, morto em 1990, é um dos expoentes da literatura cubana. É um símbolo de seu país de outras formas também. Nascido numa família paupérrima na província de Oriente, em 1943, Arenas desde cedo provocou a ira do avô, que ia derrubando com um machado as árvores em cujo tronco o menino gravava seus poemas. Adolescente, fugiu de casa para aderir aos rebeldes de Fidel Castro e foi um dos entusiastas da revolução de 1959. Sua alegria, porém, foi efêmera. Homossexual assumido e pouco interessado em cortejar o regime, Arenas passou quase duas décadas em fuga ou no cárcere. Só o seu primeiro livro foi publicado em Cuba. Todos os outros tiveram de ser contrabandeados para o exterior. Em 1980 ele colocou um pingo sobre o "e" de seu sobrenome e, transformado em Arinas nos documentos, juntou-se aos mais de 100.000 cubanos que deixaram a ilha pelo Porto de Mariel, rumo a Miami. Radicou-se em Nova York, onde se matou aos 47 anos, em estado terminal de Aids. Os fluxos e contrafluxos dessa trajetória angustiante são um dos pontos altos de Antes do Anoitecer (Before Night Falls, Estados Unidos, 2000), a partir de sexta-feira no país. O outro é a atuação do espanhol Javier Bardem, indicado ao Oscar pelo papel. Um ator sempre vigoroso, Bardem incorpora aqui a languidez e a jocosidade do irreprimível Arenas.

Antes do Anoitecer se baseia na autobiografia homônima do cubano e é dirigido pelo artista plástico americano Julian Schnabel, que se converteu em cineasta com Basquiat, de 1996 – outra história real de um artista atormentado. Schnabel tem talento para exprimir os diferentes ritmos, da euforia à depressão, que perpassaram a vida de Arenas. Por vezes, consegue resultados maravilhosos na maneira como traduz seus textos hiperbólicos em imagens. Mostra faro também na arriscada escolha de Johnny Depp para dois papéis diversos: um travesti e um sargentão castrista. Mas erra de maneira crassa ao obrigar seus atores, na maioria latinos, a expressarem-se em inglês. O mais prejudicado é Bardem, que tem domínio sofrível da língua e parece suspirar de alívio a cada palavra em espanhol que intercala em seus diálogos. Para quem se anuncia tão empenhado em ser fiel ao seu personagem, o diretor fez uma concessão incompreensível ao que supõe ser a lei do mercado.

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