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Tormenta no mar
da tecnologia

A crise, que começou pelas empresas
de internet, agora está batendo nas
gigantes, como Dell, Intel e Oracle

Gustavo Poloni

Até duas semanas atrás, o mercado de empresas de tecnologia, que negociam suas ações na bolsa americana Nasdaq, tinha duas certezas. A primeira: por maior que fosse a crise na internet, companhias mais sólidas, que não dependem só da rede para sobreviver, continuariam exibindo bons resultados. Nesse time estão gigantes como a Intel, a maior fabricante mundial de chips, a Oracle, estrela do segmento de softwares, e a Dell, líder de venda de computadores nos Estados Unidos. A outra convicção era a de que, mesmo na internet, empresas maiores e mais bem estruturadas estariam a salvo. Para justificar a tese, um exemplo sempre lembrado era o site de busca Yahoo!

Pois bastou que essas empresas divulgassem seu desempenho nos primeiros meses de 2001 para que as duas convicções desabassem ao mesmo tempo. A crise, que antes parecia localizada nas empresas de internet, agora está chegando aos alicerces do setor de tecnologia. As piores notícias vieram do Yahoo! Na quarta-feira, os negócios com ações da companhia foram suspensos à espera de um anúncio de seu presidente, Tim Koogle. Ele informou o mercado de que o lucro no primeiro trimestre de 2001 deve ser zero, depois de um bom resultado nos últimos meses do ano passado. A notícia foi tão ruim que Koogle renunciou ao cargo e comunicou que a empresa procura alguém para comandar uma mudança radical no modelo de negócios. No dia seguinte, as ações da companhia caíram 20%.

Desde que estreou, em 1995, o Yahoo! tem como principal fonte de recursos a propaganda on-line e a valorização de seus papéis na bolsa. Nos tempos da euforia na internet, o modelo tornou milionários os fundadores do site, Jerry Yang e David Filo. O problema é que, no último ano, o preço das ações desabou junto com a venda de publicidade on-line. O Yahoo! chegou a pensar em cobrar pelo acesso a algumas áreas do site, mas desistiu ao perceber que isso afugentaria os internautas. Hoje paga caro por não ter outra forma de ganhar dinheiro além dos chamados banners publicitários.

Junto com o Yahoo!, uma batelada de outras empresas antes vistas como fortalezas passou a transmitir más notícias. A Dell, que disputa com a Compaq o primeiro lugar no ranking de fabricantes de computadores pessoais, foi afetada pela queda nas vendas do produto nos Estados Unidos. No ano passado os americanos compraram 10 milhões de unidades. É quase o total de micros instalados no Brasil inteiro, mas 1% menos do que foi vendido um ano antes no país mais rico do mundo. "Precisamos nos manter competitivos", disse o chefão Michael Dell, para justificar a decisão de demitir 1.700 funcionários, atitude inédita em dezesseis anos de existência da companhia.

A crise no setor de tecnologia é motivada por dois fatores. O primeiro é a perda de fôlego da economia americana como um todo. Diante da perspectiva de uma recessão, as aplicações no mercado acionário tendem a cair naturalmente. O segundo motivo é o desencanto dos investidores com os papéis dessas empresas, na ressaca da euforia registrada até março do ano passado. Com o dinheiro mais curto, os investidores estão fugindo das apostas de risco na área de tecnologia.

Resultado da desaceleração da economia, a queda na venda de computadores afeta todos os envolvidos na cadeia de produção das máquinas. O coração do PC é o chip, e a Intel, líder absoluta na produção desse componente, acusou o golpe. As vendas de chips cairão 25% no primeiro trimestre de 2001. Os lucros da empresa ficarão 7% abaixo do esperado. Nada menos do que 5.000 funcionários serão dispensados nos próximos nove meses. Ao saber das demissões, o mercado tremeu. Na sexta-feira, assustada com as notícias vindas do Yahoo! e da Intel, a bolsa Nasdaq caiu mais de 5%.

O trator da queda das vendas atropelou também a Oracle, que bate chapa com a Microsoft no mercado de programas de computador. Em 2 de março, quando o comandante da empresa, Larry Ellison, admitiu que os lucros do trimestre ficarão abaixo do esperado, as ações da Oracle caíram 21%. Pior foi ouvir Ellison dizer: "Os clientes não têm dinheiro para fechar negócio conosco". Um sintoma de que estão faltando dólares no caixa de grandes companhias.

Para empresas como Dell, Intel e Oracle, acostumadas a dar enormes saltos de faturamento a cada ano, uma queda mínima espanta investidores e desvaloriza as ações. Influentes, elas são capazes de empurrar para baixo o mercado inteiro. Toda essa turbulência no mar da tecnologia tem efeito mais devastador ainda nas chamadas empresas puras de internet, aquelas que prometem lucros e dão prejuízo desde que nasceram. Enquanto uma Oracle ou uma Intel tomam medidas para atenuar lucros abaixo do esperado, sites, portais e lojas virtuais fazem sacrifícios para continuar vivos. A maioria deles já não conta mais com dinheiro novo dos investidores. No terceiro trimestre de 2000, o investimento em internet nos Estados Unidos foi de 7 bilhões de dólares. Caiu para 5 bilhões nos últimos três meses do ano e deve fechar o período janeiro/março como nova queda.

Luta pela sobrevivência – Conhecida pela ousadia para gastar fortunas em marketing e tecnologia, a livraria virtual Amazon.com agora sofre a cobrança dos que a querem ver cortando despesas. Depois de um prejuízo de 90 milhões de dólares no último trimestre de 2000, a empresa comandada por Jeff Bezos fechou um grande depósito e mandou 1.300 funcionários para a rua. "É pouco para uma companhia que se diz agressiva", reagiu o analista americano Faye Landes, da Sanford Bernstein. Para complicar, na última sexta-feira, uma reportagem do jornal The New York Times revelou que o próprio Bezos está sendo investigado por uma agência reguladora por conduta irregular no mercado acionário. O motivo: valendo-se de informações confidenciais, Bezos vendeu às pressas parte de suas ações da Amazon.com às vésperas da divulgação do relatório de uma consultoria que desaconselhava os investidores a comprar papéis da empresa. Não poderia haver pior recado: se o próprio dono da Amazon está tentando livrar-se de suas ações, o que dirá o investidor comum, assustado com as notícias sobre seu desempenho financeiro? Nas últimas semanas, as ações da Amazon caíram 20%.

Para surpresa geral, em meio ao maremoto, algumas poucas empresas do setor continuam navegando em águas calmas. Um caso exemplar é o eBay, o portal americano de leilões comandado por Meg Whitman e tido como um dos modelos de negócio mais bem- sucedido da internet. Mais de 22 milhões de americanos têm ali um ponto de encontro para comprar e vender produtos. É possível se livrar daquele disco de vinil ou comprar um computador novinho em folha. Passam pelo eBay oito em cada dez produtos novos ou usados leiloados via internet nos Estados Unidos. Uma das espertezas de Meg foi oferecer um serviço que jamais poderia existir no mundo real. "Se a Amazon.com fechar as portas, por exemplo, os americanos podem comprar livros na Barnes & Noble", explica Bruno Laskowsky, diretor da consultoria A.T. Kearney. "Mas não haverá para onde correr se o eBay encerrar as suas operações."

A compra e venda de produtos no eBay movimentou 5 bilhões de dólares no ano passado. O faturamento da empresa foi de 430 milhões de dólares e o lucro líquido passou dos 40 milhões. No final de fevereiro, a empresa deu mais um sinal de vitalidade ao comprar o concorrente iBazar por 100 milhões de dólares. Com uma só tacada, o eBay desembarca em sete países da Europa e no Brasil, mercados onde o iBazar opera. "Estamos bem perto de alcançar o sonho de ser um mercado sem fronteiras", disse Meg ao anunciar o negócio. Tudo o que analistas e investidores desejam é que o mar revolto se acalme e fique mais para eBay do que para Yahoo!

 

O vento sopra a favor dele

 

Bill Gates: uma reviravolta no processo pode salvar a Microsoft

A maior fabricante mundial de programas de computador, a Microsoft vive um inferno astral desde junho do ano passado, quando o juiz Thomas Penfield Jackson mandou o bilionário Bill Gates dividir a empresa em dois pedaços. Num processo movido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, junto com governos de vários Estados americanos, Jackson entendeu que a Microsoft infringia as regras de mercado com práticas monopolistas e predatórias, como promover vendas casadas de produtos, favorecer companhias associadas e prejudicar concorrentes. Pela decisão do juiz, uma das metades da empresa ficaria com o sistema operacional Windows. A outra, com o pacote de softwares Office.

A notícia fez o valor das ações da Microsoft despencar de 346 bilhões de dólares em junho para 221 bilhões em dezembro. Mas um recurso de Bill Gates na Corte de Apelações dos Estados Unidos está mudando o destino do processo. No final de fevereiro, um tribunal de sete juízes questionou a conduta de Thomas Jackson, que, em pleno julgamento do processo, criticava a empresa em entrevistas. Para a Corte de Apelações, os fatos apresentados não justificam a divisão da Microsoft. "Estamos falando de um monopólio tomando o lugar do outro?", perguntou o juiz Harry Edwards. "Eu não sei", respondeu o advogado do governo, sugerindo que nem o acusador sabe a pena que deseja impor ao réu. O caso pode ser devolvido ao juiz Jackson, que corre o risco de levar um pito dos colegas.

Com a reviravolta, a chance de divisão da Microsoft é cada vez mais remota. As ações da companhia vêm subindo desde o final de fevereiro e o valor de mercado da empresa já está próximo de 316 bilhões de dólares. Ainda é pouco, se comparado a abril do ano passado, quando atingiu mais de 500 bilhões. Mas o suficiente para renovar o fôlego de Bill Gates, que já prepara novos vôos. A empresa deve lançar no segundo semestre o x-Box, um console para videogames para rivalizar com Sony e Nintendo.

 

 

 

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