A nova lei
de Murphy
O
novo ministro da Economia argentino
vive
o dilema de acertar ou acertar
Raul Juste Lores, de Buenos Aires
Martin Zabala/AP
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"A
Argentina deve fazer uma redução nominal de 10% em todos
os salários para recobrar produtividade."
López Murphy,
49 anos, novo ministro da Economia da Argentina
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De
la Rúa (à esq.) e Murphy: medida
para cortar gastos |
A
imprensa local o apelidou de "Buldogue". Os economistas o classificam
como radical e ortodoxo. Ele tem ótimo trânsito com
os investidores estrangeiros. De cara amarrada, de poucas palavras
e sem medo da impopularidade, o economista Ricardo López
Murphy assumiu na semana passada o Ministério da Economia
da Argentina. Foi guindado do Ministério da Defesa com o
desafio de tirar o país de uma crise sem precedentes, numa
nação que há anos vive imersa em crises sem
precedentes. Depois da ajuda de quase 40 bilhões de dólares
recebida do FMI no final do ano passado, acreditava-se que a Argentina
reencontraria o caminho do crescimento econômico. Não
foi o que aconteceu. Todos os indicadores de fevereiro mostraram
que a estagnação está afundando o país.
Já são trinta meses consecutivos de recessão.
Para ser ouvido num ambiente assim, Murphy teve de assumir com um
discurso feroz. Prometeu ajuste de 1,5 bilhão de dólares
nas contas federais e corte nos gastos dos governos das províncias.
A reação imediata do mercado foi positiva.
Murphy
sabe o que fazer do ponto de vista econômico. Mas há
dúvida se os políticos lhe darão espaço
para agir. Todas as medidas mais ou menos racionais que seu antecessor,
José Luis Machinea, tentou foram sabotadas no Parlamento.
Os políticos cavalgam na onda de impaciência dos argentinos,
cansados do arrocho, para tolher as autoridades econômicas.
A economia só tem dado más notícias. "Depois
de fazer negócios de até 100 milhões de dólares
em seus dias de euforia entre 1992 e 1997, hoje a bolsa movimenta
uma média de 15 milhões de dólares por dia",
queixa-se o economista Ricardo Cavanagh, do banco de investimentos
Raymond James. Essas minguadas transações representam
quase um décimo das da Bovespa. Empresas multinacionais fecham
suas fábricas no país, alegando altos custos e queda
brusca no consumo: Gillette, Philips, Adams, Goodyear e a rede de
lanchonete Wendy's. Na semana passada, a General Motors demitiu
102 funcionários e deixou de fabricar, em Córdoba,
o jipe Grand Cherokee. As vendas de automóveis caíram
42,2% em fevereiro em relação ao ano passado. A desesperança
é tanta que o secretário-geral da União Industrial
Argentina, José Ignacio de Mendiguren, ousou falar o impensável.
Ele defendeu o fim da conversibilidade do peso em relação
ao dólar o que Murphy prometeu manter. "O custo do
capital financeiro e dos serviços públicos é
insustentável", disse ele.
O
presidente De la Rúa governa com uma aliança política
fraca, que em apenas quinze meses no poder só produziu escândalos.
Depois de digerir a renúncia do ex-vice Chacho Alvarez, que
saiu denunciando suborno no Senado, agora De la Rúa tenta
minimizar as denúncias contra Pedro Pou, presidente do banco
central. Pou é acusado de ter feito vista grossa à
lavagem de 5 bilhões de dólares. "Os membros da Alianza
ainda não digeriram a nomeação de Murphy, só
o aceitaram porque não tinham outra escolha. Mas não
está claro que irão apoiar suas reformas", explica
o economista Carlos Rodríguez, ex-secretário de Política
Econômica do governo Menem e atual reitor da Universidade
do Centro de Estudos Monetários da Argentina. "Com apenas
poucos dias de Murphy, o mercado se deu conta de que o ministro
foi implantado, que essa coligação não apóia
a economia de mercado, que desconfia dos empresários e dos
estrangeiros e que De la Rúa é incapaz de fazer uma
transformação genuína." Nesta semana Murphy
receberá uma comissão do FMI. Vai tentar ganhar tempo.
Jogam a seu favor a redução dos juros americanos,
o crescimento da economia brasileira e o fortalecimento do euro
diante do dólar. Mas é pouco. O novo ministro vai
ter de fazer jus ao apelido alcunhado pela imprensa de Buenos Aires
para impor sua lei. A ver se o buldogue morde.
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