Um herói brasileiro
Surge
finalmente a biografia de Souza Dantas,
o Oskar Schindler do Brasil
Ronaldo
França
Reprodução/Oscar Cabral
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Souza
Dantas: por piedade, passou por cima das regras do Estado
Novo para salvar 800 pessoas do nazismo |
No
início da década de 40, desafiar as mais banais
orientações do governo do Estado Novo era uma
temeridade. Dependendo do caso, o destino inevitável
era a prisão. Foi um período muito pior na Europa,
onde o avanço da ocupação nazista impunha
o clima de terror. Pois foi esse o cenário para o capítulo
mais intenso da vida do embaixador Luís Martins de
Souza Dantas, que durante vinte anos chefiou a missão
diplomática brasileira na França. Movido pelo
que chamou mais tarde de "sentimento de piedade cristã",
desafiou ao mesmo tempo as duas ditaduras. Concedeu vistos
diplomáticos para entrada no Brasil a centenas de pessoas
que, do ponto de vista da política de imigração
brasileira, eram consideradas indesejáveis. Eram judeus,
comunistas e homossexuais que fugiam dos horrores do nazismo.
Com seu gesto, Souza Dantas salvou cerca de 800 pessoas do
extermínio. Tornou-se o equivalente brasileiro do industrial
alemão Oskar Schindler, que salvou do holocausto 1.200
pessoas, conforme retratou o cineasta Steven Spielberg em
seu A Lista de Schindler. A memória dos atos
do diplomata ficou durante décadas esquecida. Somente
agora se começa a reservar seu verdadeiro lugar na
História. Em abril, inicia-se o processo de reconhecimento
do embaixador como um "Justo entre as nações".
Será um dos poucos a receber tal honraria do Museu
do Holocausto, em Israel, concedida somente aos que, sob o
jugo nazista, se arriscaram pelo bem de outras pessoas.
Os
feitos de Souza Dantas ainda não estão nos livros
escolares. Ficaram durante décadas restritos à
memória das famílias que ajudou a salvar. Parte
importante dessa história ficou confinada aos documentos
da burocracia do Estado, guardados em forma de memorandos
nos arquivos históricos do Itamaraty e do Arquivo Nacional.
Juntando principalmente essas duas fontes de informação,
o historiador carioca Fábio Koifman construiu a biografia
mais nítida do embaixador. O resultado é sua
dissertação de mestrado, que defende no próximo
mês na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Os mais de 7.500 documentos que
reuniu ajudaram a erigir a lista nominal dos 425 judeus salvos
por Souza Dantas, que é a base do processo de reconhecimento
pelo Museu do Holocausto. Dos depoimentos, colhidos ao longo
de quatro anos de trabalho, surgem histórias impressionantes
e até agora inéditas, como a do diretor teatral
polonês Zbigniew Ziembinski, considerado um dos maiores
revolucionários das artes cênicas no Brasil.
Foi graças a Souza Dantas que ele aportou no Rio de
Janeiro em 1941, depois de perambular pela Europa em busca
de uma saída do inferno da guerra. "Tinha gente deitada
no chão, na frente das embaixadas, pedindo, esperando,
submetida aos maiores escárnios, às maiores
torturas", lembrou Ziembinski, anos mais tarde, num registro
inédito de suas memórias. "Até que, de
repente, se ouve que existe um dom Quixote... o famoso embaixador
Dantas."
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| Ziembinski:
o diretor escapou da guerra graças ao "Quixote" brasileiro |
Visto
de Souza Dantas: falhas no documento revelam ação apressada
para salvar vidas |
Ziembinski,
cuja origem judaica nunca foi provada, estava entre as centenas
de pessoas que vieram para o Brasil nos vapores que faziam
a travessia do Atlântico. A viagem não constituía
o maior problema. O grande obstáculo para os refugiados
não era conseguir um navio, embora fossem raros. Difíceis
eram os vistos necessários à entrada nos países
de destino. Como é comum até hoje, o êxodo
dos refugiados era um fantasma para muitas nações.
No Brasil, somava-se à lista de dificuldades a orientação
contrária à imigração de judeus.
Mesmo sabendo do risco de contrariar Vargas, Souza Dantas
mandou abrir as portas de sua embaixada, em Vichy, para onde
se transferiu a representação diplomática
após a ocupação da França pelos
nazistas. Sua coragem, no entanto, lhe rendeu problemas, como
um inquérito, aberto pelo departamento administrativo
do serviço público a mando de Vargas. Foi acusado
de dar vistos irregulares. Em telegrama ao Itamaraty, Souza
Dantas afirmou em sua defesa que, depois de proibido, não
deu "um visto sequer". Era mentira. Descumprindo ordens expressas,
salvou ainda dezenas de pessoas. A prova viva do destemor
do diplomata chegou para Koifman por meio do depoimento da
polonesa Chana Strozemberg, cujo visto foi obtido em janeiro
de 1941, um mês após a proibição,
mas com data falsificada.
Para dar curso a sua ação solidária,
Souza Dantas usou os mais diversos expedientes. Concedeu vistos
diplomáticos a portadores de passaporte comum, para
tornar mais garantida a aceitação. Alguns nem
sequer tinham o documento. Escrevia normalmente em francês
nos passaportes para facilitar a leitura no porto de embarque.
A reprodução abaixo mostra um exemplo em que,
além de usar idioma estranho o francês
num papel destinado às autoridades de imigração
brasileiras, nem ao menos utilizou o carimbo de rotina para
o preenchimento. Koifman acredita que esse foi um dos muitos
casos de visto dado às pressas. Em outros, ele oficiou
aos colegas de outras embaixadas pedindo por brasileiros.
E o mais precioso da memória do embaixador é
que, num tempo em que muitos diplomatas vendiam vistos e aceitavam
jóias como pagamento, ele nunca se corrompeu. O marido
de Chana Strozemberg, por gratidão, chegou a insistir
com Souza Dantas para que aceitasse um presente. Como resposta
ouviu a sugestão para que o doasse à Cruz Vermelha
Internacional. A lista de bens deixados pelo diplomata, recolhida
em seu quarto no Grand Hotel de Paris, onde morava quando
morreu, em 1954, registra como objeto mais valioso um cordão
de ouro com a medalha do barão do Rio Branco. Do trabalho
cuidadoso de Koifman brota uma das mais dignificantes biografias
brasileiras.
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