A guerra do vôo 402
Disputa
de advogados ameaça
acordo para a indenização às
famílias do acidente da TAM

Marcelo
Carneiro
Antonio Milena

O
cenário da destruição: 99 mortos
na maior tragédia da aviação em São
Paulo |
Da
decolagem à queda foram apenas 24 segundos. Nos tribunais,
a tragédia do Fokker 100 da TAM, que causou a morte
de 99 pessoas em 1996 e entrou para a história como
o maior desastre da aviação em São Paulo,
arrasta-se há quatro anos. Processos desse tipo são
dolorosos pelas lembranças que trazem do parente morto
e pela lentidão da Justiça. No caso do acidente
com o Fokker, para piorar a situação surgiu
um ingrediente extra. Uma briga entre dois grupos de advogados
que juntos assumiram a causa de 62 famílias de vítimas
está ameaçando a primeira possibilidade concreta
de acordo conjunto com a TAM e outras empresas envolvidas
no episódio. A disputa trouxe à tona um enredo
de traições, insultos e trocas de correspondências
com todo tipo de acusação. No meio do tiroteio,
atônitas, as famílias não sabem o que
fazer.
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Fotos: Claudio Rossi

Lottenberg,
o elo no Brasil entre o escritório americano e
as famílias: "A maioria não agüenta
mais essa história e quer fazer o acordo"
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O
confronto põe em campos opostos o advogado paulista
Renato Guimarães Júnior e o escritório
americano Speiser Krause, especializado em ações
de indenização por acidentes aéreos.
A disputa gira em torno de uma questão central, os
valores do acordo proposto pelo escritório americano
a seus clientes brasileiros. A montanha de dinheiro que mobiliza
os dois fronts dessa batalha beira 40 milhões de dólares,
total da soma das indenizações propostas. Só
em honorários, os advogados levarão cerca de
35% dessa bolada, algo em torno de 14 milhões de dólares.
O mais impressionante é que, no início do processo,
há três anos e meio, essa turma era unha e carne.
Guimarães foi um dos primeiros advogados a atuar nos
processos movidos por parentes de vítimas do vôo
da TAM. Chegou a ter 26 clientes. Foi dele a idéia
de contratar um escritório americano para processar,
nos Estados Unidos, duas empresas fabricantes de peças
que, em tese, contribuíram para a queda do avião
a Justiça permite que se movam várias
ações. Juntos, Guimarães e o Speiser
Krause conquistaram a confiança de 62 famílias
das 99 vítimas do acidente.
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Guimarães,
o ex-aliado dos advogados americanos: "Eles estão
traindo as famílias apresentando propostas com
valores muito baixos" |
A
confusão teve início justamente a partir da
entrada do Speiser Krause no processo. A intenção
de Guimarães era usar a experiência do escritório
em casos de repercussão internacional que resultaram
em indenizações vultosas nos Estados Unidos.
Em abril do ano passado, porém, os advogados americanos
apresentaram às famílias brasileiras uma proposta
de acordo com a TAM e outras empresas envolvidas no acidente.
Os valores, que variavam de 300.000
a 1,2 milhão de dólares, deixaram Guimarães
indignado. "Aqui no Brasil, em outro processo, as famílias
conseguiram, ainda que em primeira instância, mais de
1 milhão de dólares por dano moral, fora os
danos materiais. Agora eles querem fechar um acordo com valores
menores", diz o advogado paulista. O Speiser Krause rebate
a acusação dizendo que a ação
em curso na Justiça brasileira ainda está sujeita
a várias apelações por parte dos réus,
em um vai-e-vem que poderá durar anos. "A maior parte
das pessoas quer fazer logo o acordo e tocar a vida", diz
o advogado Fernando Lottenberg, que após o rompimento
de Guimarães com o Speiser Krause assumiu o papel de
intermediário entre as famílias e o escritório
americano.
A disputa entre os advogados acabou se transformando em uma
guerra pesada. A estratégia usada pelos dois lados
foi passar a enviar comunicados às famílias.
Em uma carta, o acordo era defendido com unhas e dentes pelo
Speiser Krause. Em outra, Guimarães insinuava que o
escritório americano estaria passando a perna em seus
clientes. O clima ficou irrespirável há um mês,
após uma nova e furiosa troca de insultos. No dia 14
de fevereiro, o Speiser Krause alertava: "Alguns de vocês
devem ter recebido correspondências do doutor Renato
Guimarães. Elas são enganosas e irreais (...)
Seus ataques à nossa empresa só ajudam a criar
obstáculos ao acordo". Seis dias depois, também
por carta, Guimarães respondia: "O Speiser Krause trai
as famílias, só insistindo naqueles acordos
infames, e defende os interesses da TAM".
No calor de uma briga dessas proporções, os
parentes das vítimas também acabaram se dividindo.
A maior parte é favorável ao acordo e acredita
que Guimarães desrespeitou uma regra básica
na relação entre advogado e cliente, a de que
o cliente tem sempre a palavra final. "O acordo parou seis
meses porque ele não queria que as famílias
assinassem. Esse é um direito delas", diz Sandra Assali,
viúva de um dos mortos no vôo da TAM e presidente
da Associação Brasileira de Parentes e Amigos
de Vítimas de Acidentes Aéreos. Suzana Klepetar,
que também ocupa um cargo na associação,
discorda. "Em abril, saí horrorizada da reunião
com os americanos. Eles me pediram até para não
comentar com as outras famílias o valor da minha proposta",
ataca Suzana, que trocou o Speiser Krause por outro escritório
americano. As 62 famílias, antes unidas, vivem uma
cisão que dificilmente será contornada. Em comum,
apenas a sensação de fastio com uma batalha
que, a julgar pela disposição dos advogados
para o confronto, será interminável. E, pior:
pode adiar indefinidamente a possibilidade de as famílias
receberem as indenizações.
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