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Receita para não sumir do mapa

Em ascensão ou declínio, famosos agora
descobrem o truque do livro autobiográfico

Aida Veiga

 
Antonio Milena
"Os jornais e revistas disseram que o Chacrinha havia me dispensado porque eu era uma prostituta. Fiquei muito magoada, porque eu é que havia pedido demissão. Não que eu não fizesse programas. Fazia, sim, porque quem tem filho faz qualquer coisa para sobreviver. Fiz de tudo, menos roubar e matar."
Rita Cadillac, ex-chacrete

É dura a vida dos famosos, uma seara em que os requisitos para se manter sob a luz dos holofotes são cada vez maiores. Além de fazer operação plástica, implantar silicone, alongar os cabelos, mostrar a decoração da casa, namorar outros famosos ou pelo menos freqüentar suas festas e, de preferência, ter um programa de entrevistas, celebridade que segue o manual agora precisa suar a maquiagem em outra atividade: escrever livros. As obras da lavra de celebridades são, previsivelmente, de qualidade irregular. Há autores que estão subindo e aqueles já assombrados pelo apagar das luzes; histórias de vida com substância, outras vazias como os mais ocos manuais de auto-ajuda. O time dos esportistas começa a comparecer: tanto o ex-jogador de futebol Walter Casagrande quanto a ex-jogadora de vôlei Ana Moser estão organizando suas memórias em livros. Outra que revira as muitas e saborosas lembranças neste momento, compondo uma obra que pode dar o que falar, é a ex-chacrete Rita Cadillac, ainda em plena ativa com shows em clubes e locais menos visitados (é, oficialmente, a madrinha do Carandiru, o megapresídio de São Paulo). Um pouco menos de substância espera-se dos livros planejados por Jefferson Schmengler, quase esquecido participante do primeiro programa No Limite, pela socialite Carola, ex-mulher do playboy paulistano Chiquinho Scarpa, ou por Suzana Alves, a Tiazinha.

Falar sobre si mesmo é uma delícia, especialmente para personalidades narcisistas, e no caso dos famosos funciona como instrumento de manutenção da própria fama. Em geral, os livros do gênero acariciam mais o ego do que o bolso. A socialite carioca Narcisa Tamborindeguy, a precursora dessa leva autobiográfica, lançou Ai, que Loucura! em maio do ano passado, vendeu 25.000 exemplares e faturou, no total, cerca de modestos 20.000 reais. Outro sucesso editorial, a emergente Vera Loyola, contabiliza cerca de 15.000 exemplares vendidos de seu segundo livro, Totalmente Vera Loyola (o primeiro era de receitas; este é "uma pincelada en passant da minha vida, sem pretensão literária"), lançado em novembro, pelos quais arrecadou pouco mais de 10.000 reais. Ambas, no entanto, brilharam no pós-lançamento: noites de autógrafos, entrevistas na televisão, nome nos jornais. "O autor não faz para ganhar dinheiro", explica Vera. "Faz para ter uma coisa falada, comentada."

 
Liane Neves
"Recebi uma ligação do meu chefe para saber se eu iria ou não aceitar um trabalho em Minas Gerais. Como ele não podia esperar, fiz minha escolha. Lembrei-me de um ditado que diz: 'Quem persegue dois coelhos não consegue nenhum'. Todo assunto que exige decisão implica escolha e, conseqüentemente, o abandono de alguma opção. Abandonar significa renunciar. O homem precisa renunciar sem apego. E, educadamente, recusei uma oportunidade que havia perseguido nos últimos doze anos."
Jefferson, ex-participante de No Limite

"Ditados chineses" – Nem sempre (felizmente) dá certo. Carola, a ex-Scarpa, 30 anos, em dois meses preencheu 100 páginas com detalhes escabrosos da vida íntima do casal. O livro encalhou e sumiu das prateleiras. Escolada, ela se deu agora todo este ano para escrever o segundo, um "tratado político" ainda embrionário (veja trecho). "A glória seria ver meu livro adotado por uma faculdade", sonha a loira, que concorreu a vereadora pelo PMDB de São Paulo, mas teve apenas 1.000 votos. A pouca repercussão da obra literária de Carola contrasta com o sucesso da ex-cabeleireira Elaine de Melo. Celebridade instantânea depois de vencer o No Limite, ela não perdeu tempo: no começo de dezembro, lançou Vencendo os Limites, um misto de relato da aventura e manual de auto-ajuda que já está na segunda edição, com 20.000 exemplares vendidos. Seu adversário no programa, o gaúcho Jefferson Schmengler, 32 anos, viu, gostou e, mesmo atrasado, imitou: está escrevendo – bem no começo ainda – um livro sobre sua experiência, recheado de "ditados chineses e crenças populares". "Sou místico", declara redundantemente Jefferson, fã de Paulo Coelho.

O ex-jogador e hoje comentarista de futebol Casagrande, 37 anos, há meses relembra seus dias nos gramados na frente do gravador do guitarrista Marcelo Fromer, dos Titãs. Articulista nas horas vagas, Fromer pretende co-assinar uma "biografia pop" do amigo. "Não vai ser um desses livros chatos, em que o cara diz que nasceu no dia tal, fez isso, aquilo e acabou", explica Fromer. "Vai ter ação, humor." As amostras não são muito promissoras, mas já tem editora interessada. Igualmente em negociações para publicação de um texto já pronto, a aposentada jogadora de vôlei Ana Moser, 32 anos, não pediu ajuda a ninguém – escreveu sozinha, em tom de desabafo, especialmente quando trata do seu prolongado problema no joelho. ("Chegou uma hora em que sonhava em mudar para um planeta onde não existissem joelhos", filosofa.)

Como Madonna – Fazer terapia através da literatura também foi a motivação declarada de Rita Cadillac, que tem planos de aposentar o rebolado e curtir a velhice comendo peixe frito na praia logo após o lançamento de suas memórias. Rita, 44 anos declarados, tem dedicado boa parte de seus dias ao livro. "Estou tentando descobrir o porquê da minha existência", entusiasma-se a dançarina, que pretende contar como foi abandonada pelos pais e estuprada pelo marido e sobreviveu fazendo sexo pago com famosos. Mais pretensiosos, os planos da Tiazinha Suzana incluem um livro nos moldes de Sex, de Madonna, com fotos ousadas acompanhadas de legendas de sua autoria. Mas é coisa para o futuro. "Quem quiser ter um gostinho da minha veia literária pode comprar meu próximo CD, com músicas de minha autoria", anuncia.

 
Rogério Voltan
"O imperialismo é a única forma de poder onde o governante assume total responsabilidade por seus atos, onde a culpa não se dispersa e onde qualquer problema tem uma resolução. A solidariedade é o primeiro quesito para um bom governante, e a Princesa moderna de Maquiavel, a Princesa que assumi, sabe bem disso: mesmo na luta pelo poder carrega essa virtude para nunca se esquecer de sua missão."
Carola, ex-Scarpa

 

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