Uma
babá imperfeita
Inglesa
que cuidou de filhos de astros
de
Hollywood ensina em best-seller seus
truques
polêmicos para acalmar bebês
Juliana Saboia
A
inglesa Tracy Hogg conseguiu realizar o sonho de milhares
de jovens que emigram para os Estados Unidos para trabalhar
como babás. Ficou rica e famosa cuidando de filhos
de celebridades, como os atores Arnold Schwarzenegger, Jodie
Foster, Jamie Lee Curtis, Michael J. Fox e a megamodelo Cindy
Crawford. O preço dos serviços da babá
das estrelas, como é conhecida em Los Angeles, é
salgadíssimo: 500 dólares por duas horas de
consulta telefônica ou 1.000 dólares por um dia
de consultoria em domicílio. Os menos abonados têm
agora uma chance para conhecer sua receita para cuidar de
bebês. Trata-se de seu primeiro livro, Secrets of
the Baby Whisperer (Segredos dos Suspiros dos Bebês),
há três semanas na lista de best-sellers do jornal
The New York Times e ainda sem tradução
prevista no Brasil. A explicação para o título
está no fato de Hogg se dizer capaz de fazer com os
recém-nascidos aquilo que o personagem de Robert Redford
faz com os cavalos no filme O Encantador de Cavalos (The
Horse Whisperer, em inglês). "Eu entendo a linguagem
dos bebês", disse Hogg numa entrevista à televisão.
"Esse é o meu dom."
A promessa da babá, que encantou tanta gente famosa
e endinheirada, consiste em que é possível ter
filhos sem perder noites de sono. É tudo, segundo ela,
uma questão de saber decifrar as sutis variações
de choro e comportamento dos bebês e perceber quais
as causas da irritação. De modo prático,
Hogg elaborou um guia de conduta baseado em cinco perfis psicológicos
dos bebês, em gradações que vão
do mais calmo ao mais agitado. Basta a mamãe observar
a "linguagem corporal" do rebento, interpretá-la com
a ajuda do guia e acudir a criança intervindo exatamente
na causa da choradeira. As idéias da babá são
sob medida para mães que trabalham fora e não
querem deixar que a maternidade atrapalhe a carreira. Quando
diz que as mães não devem anular-se diante dos
caprichos dos filhos e que os bebês precisam de disciplina,
a freguesia agradece. "Com a ajuda da Tracy minha filha dorme
onze horas por noite. Muita gente que eu conheço ainda
passa a noite correndo para o quarto dos filhos cada vez que
eles acordam", diz Dana Walden, presidente da Twentieth Century
Fox Televison.
A carreira de Hogg em Los Angeles progrediu da forma tradicional
para uma babá: mamães agradecidas a recomendavam
umas para as outras. É curioso que tanta gente se dê
por satisfeita com um serviço de aconselhamento que
se sustenta no diagnóstico dos problemas de uma criança
baseado simplesmente em seu choro ouvido através da
linha telefônica. É claro que suas recomendações,
na maioria, são puro senso comum, daquelas em que vovó
alguma põe defeito. Mas há certas excentricidades.
Se um bebê chora no berço, a mãe deve
acalentá-lo. Deve devolvê-lo ao leito logo que
pare de chorar. O processo deve ser repetido até que
dê certo, mesmo que seja necessária uma centena
de tira-põe no berço. A mamãe exasperada
com a choradeira é aconselhada a usar walkman. Hogg
era enfermeira na Inglaterra. Os médicos torcem o nariz
à falta de fundamento científico de suas teorias.
"Alguns de seus conselhos são válidos", diz
o médico Leonardo Posternak, do Hospital Albert Einstein,
em São Paulo. "O problema é que ela leva tudo
ao extremo."
Sem
autorização legal para exercer sua profissão
nos Estados Unidos, foi cuidar dos filhos dos outros. Em 1995
abriu uma loja de artigos infantis e hoje tem uma página
na internet para vender produtos para mamães e bebês.
Uma editora americana pagou um adiantamento de 750.000 dólares
por Secrets of the Baby Whisperer e uma continuação
a ser publicada em breve. É uma quantia considerável,
sobretudo para uma autora estreante. O sucesso do livro fez
surgir algumas questões para as quais Hogg, aos 40
anos, não tem resposta satisfatória. A primeira:
onde aprendeu tanto sobre bebês? A babá das estrelas
diz ter herdado da avó o talento para entender a linguagem
dos recém-nascidos. Em sua biografia oficial, conta
ter trabalhado como enfermeira de crianças deficientes
em Londres, o que lhe permitiu entender melhor o universo
infantil. Também diz ter sido condecorada pelo Hospital
Great Ormond Street, em Londres. Por fim, fez mestrado em
hipnose terapêutica na Universidade da Califórnia.
Repórteres curiosos não demoraram para descobrir
que a universidade desconhece sua existência e que nos
registros do Great Ormond consta apenas sua presença
num curso de três semanas.
Há também um ex-marido incômodo. Logo
que a notícia do sucesso chegou à Inglaterra,
o ex de Hogg, Ray Fear, correu para vender sua história
aos tablóides de escândalo. O que diz é
que, estranhamente para quem ensina a cuidar do filho dos
outros, Hogg deu pouca atenção às duas
filhas. Ela não as amamentou e até abriu mão
da licença-maternidade para voltar logo ao trabalho.
Ao se mudar para os Estados Unidos, deixou aos cuidados da
avó as meninas, com 8 e 11 anos. Até aí
não chega a ser um escândalo. O médico
americano Benjamin Spock, o escritor mais influente da história
da puericultura, foi, segundo depoimento dos próprios
filhos, um pai distante, incapaz de manifestar carinho pela
prole. Depois de algumas aparições em programas
de TV, a editora passou a rejeitar todos os pedidos de entrevistas
com a babá-escritora, sob o argumento de que ela não
tem tempo. A verdade é que os editores se assustaram
com a dificuldade de Hogg para explicar os trechos nebulosos
de seu currículo e preferem mantê-la distante
de microfones.
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Conselhos
para a mamãe pós-moderna
Tracy
Hogg, a babá das estrelas, acredita que com poucos
dias de vida a criança já tem condições
de armazenar na memória informações
complexas, capazes de definir seu comportamento no futuro.
É por isso que recomenda que a mãe e o
pai se apresentem formalmente ao bebê, logo após
o parto, e digam que papel desempenham na vida dele.
Veja outros conselhos da babá das estrelas de
como tratar o bebê nas primeiras semanas de vida:
chame-o pelo primeiro
nome e nunca de nenê. Evite apelidos carinhosos
que podem confundi-lo;
ao chegar em casa vinda
da maternidade, apresente cada cômodo da casa
ao recém-nascido. Como se você fosse o
curador de um importante museu e ele, um ilustre visitante;
amar alguém leva
tempo. O mesmo vale para o filho que acabou de nascer.
Não se preocupe se você sentir nos primeiros
dias que não o ama o suficiente;
aquele choro ardido do
recém-nascido não significa necessariamente
fome. Pode ser simplesmente um sinal de que ele está
entediado. Distraia-o, dê uma volta com ele. Se
não der certo, ofereça a chupeta;
estabeleça uma
rígida rotina para ele seguir, com horários
fixos para mamar, brincar e dormir. Bebês exaustos
dormem como um anjo. Lembre-se de que ele é que
precisa adaptar-se à sua rotina, e não
o contrário;
cuidado com os cães
e gatos da casa. Traga um lençol da maternidade
para que os animais se acostumem com o cheiro do bebê;
embale o bebê balançando-o
junto ao peito, em movimentos para a frente e para trás.
Com isso ele se lembra do andar da mãe quando
ainda estava no útero;
quando o bebê chorar,
pegue-o no colo por alguns instantes e devolva-o ao
berço assim que ele parar. Diga: "Estou aqui,
não vou a lugar nenhum". Assim vocês vão
criar um pacto de confiança e o bebê não
vai se tornar uma criança birrenta;
os bebês choram
muito nos primeiros meses e isso é normal. Não
dura para sempre, mas, se você não consegue
habituar-se ao choro, use um walkman ou protetor auricular,
daquele usado em avião.
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