Os caçadores
de cabeça
Conflito
étnico faz ressurgir na
Indonésia uma terrível tradição
Cristiano
Dias
AFP
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| Dayaks
com o troféu de guerra: como nos tempos antigos, mas
por motivo moderno |
Caçadores
de cabeça já não deveriam existir, exceto como
referências nos livros de antropologia mas essa selvageria,
que o mundo moderno e globalizado parecia ter enterrado, voltou
a acontecer na Indonésia. Na Ilha de Bornéu, os dayaks,
um grupo étnico malaio, estão decapitando os madureses,
migrantes da ilha de Madura, que vivem há quatro décadas
na região. Bandos armados com lanças percorrem os
vilarejos, capturam alguém e cortam sua cabeça com
um golpe de facão. O assassino bebe o sangue que escorre
do pescoço da vítima e retira o coração
para que o resto do bando possa comê-lo. Cabeças são
espetadas em pedaços de pau e expostas à beira dos
caminhos. A barbárie começou há três
semanas e já matou mais de 1.000
pessoas quase 150 degoladas e fez com que 80.000
madureses abandonassem suas casas em busca da proteção
do Exército e outros 20.000 saíssem
de Bornéu. Explosões similares ocorreram em 1997 e
1999, quando 3.000 pessoas, a maioria
madureses, foram mortas. Antropólogos e historiadores estão
pasmos com a revelação contida nesses episódios
de violência: os caçadores de cabeça estão
de volta à Ilha de Bornéu.
A
decapitação e a tomada de cabeça como troféu
são uma prática ritual observada em vários
lugares desde a Idade da Pedra. Na América do Sul, os índios
jivaros, que vivem nos Andes equatorianos e peruanos, são
famosos pela habilidade com que reduziam a cabeça de seus
inimigos ao tamanho de uma laranja. Os caçadores de cabeça
eram comuns em várias ilhas do arquipélago indonésio,
especialmente entre os povos do interior. Em Bornéu, o costume
foi corrente até 1894, quando os colonizadores holandeses
conseguiram convencer os dayaks a substituir cabeça humana
por coco e cabeça de animais. "O guerreiro que corta a cabeça
de uma pessoa adquire o poder espiritual da vítima e eleva
seu status na tribo", disse a VEJA o americano William Cummings,
antropólogo e historiador da Universidade South Florida e
especialista em etnologia indonésia. "Os dayaks depositam
comida e tabaco perto dos crânios para em troca ficar livres
de doenças e obter uma boa colheita."
AFP
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| Em
fuga: madureses aterrorizados recebem comida e fazem fila para
deixar Bornéu |
O conflito atual é conseqüência de uma política
desastrosa da década de 60, quando o general Suharto, ditador
da Indonésia, tentou forjar uma identidade nacional. Seu
maior desafio era vencer os contrastes culturais do arquipélago
de 17.000 ilhas, espalhadas por mais
de 4.000 quilômetros, entre os
oceanos Índico e Pacífico. O país é
um mosaico de 300 grupos étnicos que falam cerca de 450 línguas
diferentes. Para manter unido esse universo diversificado, Suharto
colocou em prática um projeto migratório. Ao mesmo
tempo que mesclaria etnias e forjaria uma identidade nacional, aliviaria
a tensão populacional de ilhas superpovoadas, como Madura
e Java. As coisas funcionaram bem até a queda do ditador,
em 1998. A partir daí, ficou a certeza de que era Suharto
quem mantinha, com mão pesada, a unidade indonésia.
Sem ele, o país vem cambaleando rumo à desintegração
política (veja mapa).
A
violência detonada agora em Bornéu surgiu do projeto
de imigração que se tornou uma bomba de efeito retardado.
Vindos de Madura, uma ilha a 600 quilômetros de distância,
os migrantes instalaram-se em Bornéu para se misturar com
os dayaks. Mas, em vez de integração, o que se viu
foi segregação. Os madureses conquistaram os melhores
empregos e compraram as terras mais férteis, enquanto os
dayaks e outros grupos malaios, que representam 40% da população,
foram relegados aos bolsões de pobreza nas periferias das
cidades. Chineses étnicos, donos da maior parte das riquezas,
são 12% dos habitantes, e os madureses, 8%. Há 2 milhões
de dayaks, na maioria cristãos. "Não se trata de decapitações
como eram os rituais antigos", observa John Bamba, diretor do Instituto
de Estudos dos Dayaks da Universidade de Pontianak, em Bornéu.
"O que está acontecendo agora é mais uma expressão
de ódio e ressentimento."
AP
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| Dayaks,
com lanças e facões: mais de 1 000 mortos em três
semanas de conflito |
Nem de longe os assassinos se parecem com os antigos guerreiros
tribais. São jovens criados com antenas parabólicas,
calças jeans e tênis. Impressiona como a rivalidade
étnica levou essa nova geração a ressuscitar
a terrível tradição. Talvez a mutilação
dos corpos seja, sobretudo, uma estratégia para aterrorizar
os madureses. Na fuga, muitos contam relatos horrendos de guerreiros
dayaks com as cabeças cortadas nas mãos. Mas o fato
é que a decapitação é um componente
fundamental na cultura dayak, que aflorou em um momento de crise.
Em períodos de extrema tensão, a tendência é
que a violência tribal seja revivida. É o mesmo padrão
dos cruentos assassinatos em massa acontecidos na Guerra da Bósnia
e durante o genocídio de Ruanda, quando pessoas foram completamente
mutiladas, decapitadas e desvisceradas. "A lição de
tudo isso, para nós, talvez seja que o potencial de violência
aterrorizante e barbarismo esteja bem abaixo da superfície.
Afinal de contas, há ocasiões em que pessoas, na sociedade
moderna, fazem coisas tão chocantes quanto essas tribos",
diz o antropólogo Cummings. "Talvez nos console o fato de
pensar que nós progredimos na direção de um
alto estágio de civilização. Mas não
tenho certeza se essa visão é correta."
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