O
rugido do dragão
A
China anuncia investimentos para acelerar
a
expansão econômica e encarar o desafio
de abrir
seu mercado de 1,3 bilhão de pessoas
José Eduardo Barella
AFP
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Reuters
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| Delegados
reunidos no Congresso Nacional do Povo: metas ousadas para o
país enfrentar concorrência externa |
Explosão
na escola: trabalho infantil |
Tendo
como pano de fundo os arranha-céus envidraçados às
margens do Rio Huangpu, em Xangai, empresários alemães
e um cacique do Partido Comunista local apresentaram, no início
deste mês, o mais novo megaempreendimento estrangeiro na China,
orçado em 1 bilhão de dólares: a primeira linha
férrea comercial do mundo cujos trens serão impulsionados
por levitação magnética. A partir de 2003,
com a ajuda de supercondutores, os vagões vão flutuar
sobre os trilhos, sem tocá-los, a uma velocidade de 400 quilômetros
por hora, ligando o distrito financeiro ao aeroporto em apenas dez
minutos. Três dias depois, ao discursar na abertura do Congresso
Nacional do Povo, o Parlamento chinês, formado por 2.978 delegados
do PC, o primeiro-ministro, Zhu Rongji, anunciava mais um plano
qüinqüenal do governo, uma velha tradição
comunista que há duas décadas virou um receituário
capitalista. Basicamente, significa investimentos pesados em obras
de infra-estrutura nas regiões mais pobres, o que dará
ainda mais gás para a economia continuar crescendo, abocanhando
novos mercados e atraindo investidores, como os alemães que
apostaram em Xangai.
O dragão chinês não está blefando. Se
mantiver a marcha anual de expansão de 7%, o PIB da China
deverá converter-se no segundo maior do mundo em 2020, atrás
apenas do americano. O motivo é a entrada da China, prevista
para este ano, na Organização Mundial do Comércio
(OMC). Na prática, significa que o país mais populoso
do planeta, que hoje já responde por 7% do comércio
mundial, vai abrir seu maior tesouro para a concorrência externa,
o mercado de 1,3 bilhão de potenciais consumidores. Internamente,
todas as barreiras alfandegárias vão cair ou reduzir-se
drasticamente até 2005. O impacto previsto, de 21 bilhões
de dólares por ano no comércio mundial, já
está causando calafrios em países concorrentes, como
México, Índia e os vizinhos Tigres Asiáticos.
E também na própria China, que precisará criar
80 milhões de empregos e, ao mesmo tempo, assimilar o golpe
que deverá arrasar setores inteiros defasados em relação
à concorrência externa, como a indústria automobilística.
Já as indústrias têxtil, de calçados
e de brinquedos, que já nadam de braçadas, deverão
aumentar as exportações em 200% no período.
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AFP
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| As
duas faces da China: riqueza nas zonas econômicas especiais,
como Shenzhen (à esq.), e pobreza nas regiões esquecidas
pelo governo, onde vive a maioria dos 270 milhões de miseráveis
do país |
A
China começou a se preparar em 1978, quando o então
líder Deng Xiaoping trocou os dogmas de Karl Marx pelos de
Adam Smith e deu uma guinada que incluiu a abertura de zonas econômicas
nas províncias costeiras, aumento de investimentos estrangeiros
e liberalização do comércio e do mercado agrícola,
tendo como ingredientes fartos subsídios, mão-de-obra
barata e repressão brutal à oposição.
O processo, controlado até hoje na unha pela burocracia do
PC, acabou aprofundando o fosso que separa os centros urbanos dos
grotões do interior. A renda per capita da Xangai dos trens
ultramodernos é onze vezes maior que a de vilarejos como
Fanglin, onde uma explosão numa escola primária na
semana passada matou 37 alunos. A instituição era
usada como fábrica de fogos de artifício e os alunos,
obrigados a trabalhar de graça. O socorro demorou porque
a linha telefônica tinha sido cortada por falta de pagamento.
Se 270 milhões de chineses deixaram a pobreza absoluta, um
número igual de pessoas permanece nessa situação.
Diminuir contradições como essa é o maior desafio
que resta ao presidente e secretário-geral do PC, Jiang Zemin,
de 75 anos, antes de passar o bastão, no ano que vem, ao
pragmático vice-presidente Hu Jintao, de 58 anos, o mais
cotado para comandar a quarta e talvez última geração
de líderes comunistas chineses.
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As
contradições do gigante
De 1978 para cá, o PIB da China aumentou 5 vezes.
O país deixou de ser a 32ª maior economia
do mundo para se tornar a 7ª
Nas últimas duas décadas, as exportações
saltaram de 20 bilhões de dólares para
249 bilhões de dólares por ano
Em 1978, o setor estatal respondia por 82% da produção
industrial. Hoje, não passa de 30%
De 1,3 bilhão de chineses, 900 milhões
vivem no campo e, destes, 100 milhões estão
desocupados
A taxa de analfabetismo é de 9% entre os
homens e 25% entre as mulheres
Em duas décadas, 270 milhões de chineses
saíram da pobreza absoluta. Mas a renda per capita
de 750 dólares ainda
é similar à de Honduras, um dos países
mais pobres da América
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