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Quando lançou sua cruzada mundial contra a corrupção, há quatro anos, James D. Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, comparou a roubalheira pública a um incêndio florestal: "A corrupção muitas vezes não pode ser contida. Mas sem lhe dar combate seu poder de destruição não tem limites". A instituição dirigida por Wolfensohn, que repassa anualmente centenas de milhões de dólares em ajuda aos governos de países em desenvolvimento, estava de posse de números estarrecedores. Em Kuala Lumpur, capital da Malásia, por exemplo, funcionários desonestos embolsavam 8 de cada 10 dólares destinados a certos programas de alívio da fome e da mortalidade infantil. Nas Filipinas, onde o presidente Joseph Estrada foi destituído do cargo por desonestidade há cerca de um mês, o Banco de Desenvolvimento da Ásia (ADB) calcula que um terço dos recursos era desviado pelos corruptos. Os técnicos do Banco Mundial estudaram, caso a caso, dezenas de países. No que diz respeito a seu combate, chegaram à conclusão de que duas armas eram as mais eficazes contra a praga da propina, da fraude e do enriquecimento ilícito. A primeira é a diminuição do tamanho do Estado sem prejuízo do poder do governo. Ou seja, privatizações em massa seguidas de leis e agências que disciplinem os mercados. A segunda é o cultivo de uma jóia cada vez mais rara, políticos carismáticos, sérios, respeitados e com uma imagem ilibada de honestidade. Segundo a definição acima, o Brasil perdeu na semana passada, com a morte de Mário Covas, seu maior bombeiro na luta contra o fogo da corrupção. Covas foi ao mesmo tempo um pregador da ética e um privatizador feroz que vendeu bancos, usinas, estradas, mas não alienou um átomo sequer de seu poder político. Ruas, pontes e estradas de São Paulo amanheceram na última quarta-feira enfeitadas com faixas com os dizeres "Covas, o exemplo". Morto, Mário Covas transformou-se num símbolo ainda mais eloqüente da necessidade de dar combate às chamas que devoram parte do dinheiro público antes que ele possa erguer escolas, casas populares, hospitais ou financiar pesquisas científicas. A inquietação mundial com o fenômeno da desonestidade oficial está produzindo uma safra enorme de estudos sobre seus efeitos econômicos. Descobriu-se que, a exemplo do que ocorria com a inflação há alguns anos, a corrupção é vista com enorme tolerância em diversos países. Ela é tida como um azeitador de negócios. Um mal necessário sem o qual a economia tende a emperrar. A virtude dos recentes estudos sobre a questão é mostrar que não é nada disso. Além de peste moral, a corrupção é um dos mais perversos impostos já concebidos. A inflação galopante, como demonstrado há anos pelas melhores cabeças econômicas brasileiras, foi um sifão que, com eficácia, tirava dinheiro dos pobres e o concentrava nas mãos dos ricos. A corrupção tem um resultado muito semelhante. Ela desvia parte do dinheiro destinado aos mais desvalidos habitantes de um país. A riqueza fica com os gatos gordos, os funcionários e intermediários desonestos.
O efeito econômico da corrupão é devastador. Uma importante pesquisa a respeito foi feita por Cheryl Gray, diretora do setor de redução de pobreza do Banco Mundial. No trabalho, assinado também pelo economista Daniel Kaufmann, pesquisador chileno especializado no fenômeno da roubança de dinheiro público, as conseqüências perversas da corrupção foram autopsiadas com precisão inédita. Algumas delas.
Um dos efeitos mais presentes da roubança institucionalizada é a perda de legitimidade do Estado. Essa questão, que se acreditava pertencer apenas ao reino das metas éticas que as nações se colocam, tem efeitos econômicos destruidores, conforme mostram os estudos do Banco Mundial. Numa entrevista recente, Vicente Fox, eleito presidente do México com uma agenda de reformador, respondeu a uma pergunta sobre a guerrilha de Chiapas, a conflagração conduzida no sul do país por uma espécie de Zorro que esconde o rosto sob uma máscara de ninja, com um buraco por onde passa o cachimbo. "Chiapas não é um problema nacional. É localizado. Nosso problema maior é acabar com a 'mordita'.", disse Fox. Ele se referia à tradicional propina, institucionalizada no México, sem a qual o serviço público, dos correios aos trens de passageiros, seria paralisado. Em sua visita ao submundo da corrupção, os estudiosos do Banco Mundial, do Banco de Desenvolvimento da Ásia e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts concluíram que, de modo geral, o problema atinge de maneira mais perniciosa países que passam por períodos de transição, de sistemas políticos autoritários para a democracia, de mercados fechados para a abertura comercial, do centralismo econômico para um menor intervencionismo do Estado na economia. Afeta também os que têm o poder econômico concentrado, grande riqueza natural e uma máquina estatal inflada. Ou seja, o Brasil está numa situação difícil. Atende a quase todos os requisitos detectados pelos estudiosos. Mas, perto dos países do Leste Europeu, da Ásia, da África e de muitos de seus vizinhos latino-americanos, o Brasil se sai bem. Tem melhorado ano a ano sua posição nos rankings internacionais que listam aqueles com problemas éticos mais disseminados. No Índice de Opacidade, feito pela consultoria PriceWaterhouseCoopers em janeiro, o Brasil aparece na 17ª posição. Ao todo são citados 35 nações. A China é considerada o país onde os negócios privados sofrem maior influência da atuação de funcionários públicos corruptos. Cingapura está na outra ponta. Ali os negócios fluem sem sangrias excessivas para o Estado. O Brasil está mais mal colocado que países como Grécia, Uruguai ou Colômbia. Mas aparece à frente da Argentina, Coréia do Sul e Polônia. "O Brasil está numa rota de correção. Melhorou muito, no que diz respeito à ética. Dez anos atrás ninguém imaginaria que um juiz pudesse ir parar na cadeia acusado de malversação. Como ainda há muito a ser feito, o legado de Mário Covas torna-se uma bandeira importante para o país", diz o advogado Raul Haidar, conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, em São Paulo.
O progresso brasileiro se deu por várias razões. Primeiro, porque o inchaço do Estado chegou a um ponto em que ele quebrou. Foi preciso privatizar empresas públicas. Depois, porque durante o regime militar não havia liberdade. As pessoas não faziam denúncias, a imprensa não podia publicar o que descobria. Existem outros motivos. No esforço de estabilização econômica, o país teve de se abrir para produtos e investimentos externos, que resistem a negociar com quem opera caixa dois. E, enquanto a inflação galopava, todas as suas contas ficavam turvas. A estabilidade econômica trouxe transparência, e foi possível visualizar o balanço das empresas e do setor público. "Hoje no Brasil a informação está muito mais acessível e confiável. E com a venda das estatais reduziu-se consideravelmente a corrupção no setor público", diz Eduardo de Freitas Gomide, diretor adjunto da Kroll Associates do Brasil, uma empresa de investigação com sede nos Estados Unidos que está coordenando uma pesquisa dedicada a revelar o nível atual de corrupção no Brasil. Um indicador do avanço: nos últimos cinco anos ocorreram 110 demissões na Receita Federal. Entre os demitidos, catorze estão na cadeia. "A corrupção não diminuiu nem aumentou. O que mudou é a maneira como ela é exposta e coibida. Não podemos nos enganar, achar que o serviço está feito, e relaxar. Um hospital com mais leitos não significa que o número de doentes aumentou, mas que o atendimento é melhor", observa Everardo Maciel, secretário da Receita. Segundo um estudo feito pelo professor Marcos Gonçalves da Silva, da Faculdade Getúlio Vargas de São Paulo, se a conta da corrupção for dividida igualmente por todos os brasileiros, num exercício estatístico, o custo, para cada um, corresponde a 6.658 reais por ano. "Se não houvesse maracutaia, a produtividade do país aumentaria, e como resultado a renda per capita dos brasileiros poderia subir para 9.800 reais nas próximas décadas", diz.
Um atalho para isso foi justamente o que Mário Covas fez: diminuir o Estado. Ele assumiu o governo de São Paulo deficitário. Na semana passada, havia uma sobra de 7 bilhões em caixa, limpinhos, para ser investidos até 2002. Covas desarmou alguns ninhos de corrupção. Reduziu a máquina do Estado. Demitiu, privatizou, concedeu a exploração de serviços públicos a empresas privadas. Fez mais. Aumentou o poder do governo. Essa é uma das fórmulas recomendadas pelos estudiosos do Bird para os que querem escapar do descaminho da corrupção e enveredar pela trilha da prosperidade. Outros conselhos contidos num exame feito pelo instituto de pesquisa Business Environment and Enterprise Performance Survey (Beeps):
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