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Além da jabuticaba, o Brasil acaba de ganhar outra exclusividade mundial: é a da fita que faz um tremendo barulho, derruba dois ministros, coloca um senador sob o risco de cassação de seu mandato e, depois de todo esse salseiro, constata-se que a fita não era bem aquilo... Na quinta-feira passada, o foneticista Ricardo Molina, de Campinas, exibiu aos senadores a transcrição da fita em que está gravada a conversa do senador Antonio Carlos Magalhães com procuradores da República. O suposto conteúdo da fita fora publicado pela revista IstoÉ e trazia dois trechos explosivos. Num, ACM avisava aos procuradores que, se fosse quebrado o sigilo telefônico de Eduardo Jorge, ex-secretário-geral do Palácio do Planalto, o presidente Fernando Henrique ficaria em dificuldades. Em outro trecho, ACM contava aos procuradores que tinha em seu poder "a lista de todo mundo que votou a favor e contra" a cassação do ex-senador Luiz Estevão no ano passado. O primeiro trecho irritou o presidente, que se sentiu moralmente agredido por ACM e demitiu os dois ministros indicados pelo senador. O outro motivou pedidos de cassação do mandato de ACM por suposta violação do sigilo de uma votação secreta. Na quinta-feira, o foneticista Molina apresentou aos senadores um relatório de 55 páginas com a transcrição dos 57 minutos da fita. E não há, na transcrição, nem uma frase nem outra. Em nenhum momento, ACM diz que a quebra do sigilo de Eduardo Jorge comprometeria o presidente Fernando Henrique. Também não diz aos procuradores que possui a "lista" da votação na sessão que cassou Luiz Estevão. "A montanha pariu um rato", concluiu o líder do PT no Senado, José Eduardo Dutra, um dos parlamentares que pediram a abertura de processo contra ACM no Conselho de Ética. "A IstoÉ fez uma emenda aglutinativa na transcrição da fita", completou, com bom humor. No jargão legislativo, chama-se de "emenda aglutinativa" aquela peça que reúne pedaços de projetos diferentes e os agrupa num novo projeto de lei. Com péssima qualidade, a gravação teve 75% de seu conteúdo recuperado por Molina. Até pode ser que as frases comprometedoras que vieram a público estejam justamente nos 25% não recuperados, embora o procurador Luiz Francisco de Souza tenha afirmado, desde o início, que entendera a declaração de ACM sobre a votação como a expressão de uma convicção pessoal e não como informação de uma lista. Além disso, já se pode afirmar que os trechos antes publicados eram, como diz Dutra, aglutinativos. Na parte da cassação de Luiz Estevão, por exemplo, publicou-se uma longa frase em que ACM fala que a senadora Heloísa Helena votou a favor de Luiz Estevão, que ele tem "a lista" da votação, que isso não se pode "falar porque Luiz Estevão vai tentar anular" a votação e que, caso isso aconteça, "quebra o Senado". Na versão degravada por Molina, a ordem é outra. O procurador Guilherme Schelb diz que Estevão "vai tentar anular a cassação dele no Senado" e ACM reage dizendo que "a opinião pública quebra o Senado", mas isso é dito bem antes, e não depois, da referência ao voto de Heloísa Helena. Sinal de que, em ritmo aglutinativo, os trechos andaram pulando de um lugar para o outro.
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