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Embora tivesse como missão comandar a diretoria internacional do Banco do Brasil, entre 1995 e 1998, o economista Ricardo Sérgio de Oliveira dedicava-se a um assunto bastante nacional: a privatização. Mais especificamente, a participação do fundo de pensão dos funcionários do BB, a Previ, nas empresas privadas interessadas em adquirir estatais. Oficialmente, a tarefa de decidir onde a Previ aplica seu dinheiro cabe tão-somente à direção do fundo. Só que as coisas não funcionam exatamente assim em Brasília. Como a Previ tem um patrimônio de 34 bilhões de reais para investimentos, todo mundo quer dar palpite sobre onde colocar o dinheiro, mas só alguns conseguem. Ricardo Sérgio era imbatível nesse terreno. Foi ele quem ajudou a Construtora Norberto Odebrecht a levantar na Previ 260 milhões de reais para o projeto turístico Costa do Sauípe, localizado no litoral norte da Bahia. A transação deu o fôlego de que a empresa precisava para tocar o megaempreendimento com cinco hotéis e um campo de golfe. Também foi por intermédio de Ricardo Sérgio que o Consórcio Brasil, liderado pelo empresário Benjamin Steinbruch, recebeu um aporte de recursos da Previ para adquirir a Vale do Rio Doce. Steinbruch mostrou-se agradecido num primeiro momento, mas acabou rompendo com Ricardo Sérgio e relatou as razões a um amigo. Aconteceu o mesmo no leilão da Tele Norte Leste, adquirida pelo consórcio Telemar. Sem a mão forte de Ricardo Sérgio, a venda não teria ocorrido, de forma que os empresários vencedores também ficaram agradecidos mais ainda que Steinbruch. De acordo com a denúncia publicada em VEJA, a atuação de Ricardo Sérgio na Telemar resultara na cobrança de uma propina correspondente a 3,4% sobre o capital total da empresa coisa de 90 milhões de reais. Na semana passada, o senador Antonio Carlos Magalhães afirmou publicamente que conhece o caso e acrescentou que dispõe até de uma "prova testemunhal", cuja identidade não revelou. O banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, que teria descoberto o por-fora quando se associou à Telemar, recolheu-se ao silêncio. "Não confirmo nem desminto", mandou dizer. O empresário Carlos Jereissati, de quem, segundo amigos de ACM, a propina foi cobrada, disse que estava "perplexo" com a denúncia. "Só um louco daria 10 centavos que fosse em troca da vitória naquele leilão que vencemos por um lance do acaso", diz. Ricardo Sérgio também foi enfático em seu desmentido. Na terça-feira, lançou uma nota em que nega tudo e garante que jamais se imiscuiu nos negócios da Previ. Por fim, mostrou-se indignado "com a suspeita de ter recebido propina do empresário Carlos Jereissati" e informou que seu patrimônio é "fruto de uma vida inteira de trabalho honrado desde os 14 anos de idade". Só uma investigação minuciosa poderá concluir se alguma propina realmente foi paga, mas Ricardo Sérgio divulgou mentiras em sua nota. As famosas fitas do BNDES já apontavam sua movimentação nas teles por meio da Previ. Quem não se lembra da frase-símbolo do grampo, dita por ele: "Estamos no limite da nossa irresponsabilidade"? Agora, surgiu uma fita nova em que a atuação de Ricardo Sérgio na Previ fica clara. A gravação foi feita por um empresário derrotado no leilão da Telemar e traz um diálogo entre Ricardo Sérgio e o diretor de investimentos da Previ, João Bosco Madeiro da Costa, uma indicação sua, demitido logo depois da queda de Ricardo Sérgio do Banco do Brasil. A fita foi gravada às vésperas do leilão da Tele Norte Leste e contém o seguinte diálogo: Ricardo
Sérgio Alô. Onde você está,
boneca? Ricardo
Sérgio Tá Ricardo
Sérgio Tá. Ricardo
Sérgio Escuta, Bosco, é o seguinte:
a gente está ficando, a cada dia, mais experiente, né?
Mas ainda continuo muito preocupado com a grana porque, senão,
daqui a pouco você vai pôr uns 2 bi... Ricardo Sérgio Não sei, de fato, a montagem da grana. Outra coisa: não podemos criar um outro monstro. Não podemos criar um novo Benjamin. Em sua nota à imprensa, Ricardo Sérgio não apenas desmente o pagamento de propina na operação, mas também contesta a possibilidade lógica da existência de uma caixinha. Afinal, "segundo a própria imprensa, foi 'mecânica do leilão' e 'um golpe de sorte' que deram a vitória ao consórcio". Assim sendo, "não haveria sentido em pagar uma propina". Outra mentira de Ricardo Sérgio. Mais uma vez é oportuno frisar que apenas uma investigação mais profunda pode esclarecer se houve ou não pagamento de propina. Mas fato é que havia, sim, motivos e muito concretos, aliás para que vultosas somas de dinheiro migrassem de um bolso para outro. O consórcio Telemar ganhou a concorrência por obra do acaso, exatamente como diz Ricardo Sérgio. Seu concorrente no leilão saiu da disputa depois de ter arrematado outra estatal, a Tele Centro Sul. De acordo com as regras do leilão, quem comprava uma empresa era desclassificado na disputa por outra. Sem concorrentes, a Tele Norte Leste, que ficou com o domínio da telefonia fixa em dezesseis Estados, do Rio de Janeiro ao Amazonas, foi vendida com 1% de ágio 3,4 bilhões de reais. O problema é que a Telemar ganhou a disputa achando que iria perder e não tinha dinheiro para pagar o que comprou. Só conseguiu viabilizar-se em função de dinheiro público. Direta ou indiretamente, 55% da companhia está nas mãos do governo. Ricardo Sérgio e o Banco do Brasil foram peças-chave nessa operação de salvamento.
Desde que a Telemar venceu o leilão, circula a informação de que uma propina da ordem de 3% a 4% foi paga para a formação do grupo. O que chama a atenção do mercado é a distribuição das quatro empresas privadas no consórcio. Enquanto três delas tinham cada uma 10,17% do total do capital da nova empresa, o grupo de Carlos Jereissati possuía 14,59% 4,42% a mais. Com um detalhe: esse porcentual está registrado em nome de uma empresa separada, chamada Rivoli, propriedade de Jereissati. O que se comenta abertamente no mercado é que essa parcela adicional pertenceria a Ricardo Sérgio e a duas figuras muito conhecidas dos fundos de pensão, os empresários Miguel Ethel e José Brafman. Na semana passada, VEJA ouviu outra vez essa versão de um alto cardeal do tucanato. Ricardo Sérgio, Miguel Ethel e José Brafman atuaram na formação do consórcio Telemar e, coincidência, na formação do consórcio de Benjamin Steinbruch. Ricardo Sérgio recusou-se a atender VEJA na última semana. Jereissati declara que já não agüenta mais ouvir essa história. "Se não acreditam na minha honestidade, pelo menos respeitem a minha inteligência", afirma Jereissati. "Fazer um negócio desses seria primário." É de se perguntar como um simples diretor do Banco do Brasil se torna um homem tão poderoso, capaz de movimentar bilhões e bilhões, sendo um dos principais responsáveis por duas das maiores privatizações do mundo. A Vale do Rio Doce foi vendida por 3,3 bilhões de reais. E as teles foram negociadas por 22 bilhões de reais. A resposta é simples: Ricardo Sérgio não é um simples diretor do Banco do Brasil, mas um personagem ligado ao coração tucano. Um exemplo: em 1988, ano em que se formou o PSDB, um dos mais destacados políticos tucanos precisava de recursos para organizar o partido em seu Estado. Procurou a direção do partido e foi encaminhado a Ricardo Sérgio. Outro exemplo: Ricardo Sérgio arrecadou dinheiro para a campanha do atual ministro da Saúde, José Serra, ao Senado, em 1994. Um dos maiores empresários do país contou a VEJA na semana passada ter ajudado financeiramente o candidato Serra naquela ocasião. O dinheiro, equivalente a 2 milhões de reais, foi entregue a Ricardo Sérgio "em quatro ou cinco prestações, não me lembro exatamente", diz o empresário. Quando chegou ao Banco do Brasil, Ricardo Sérgio era o único diretor não escolhido pelo presidente da empresa, Paulo César Ximenes. Em pouco tempo, no entanto, os dois tornaram-se próximos. Quando o BNDES decidiu reduzir à metade a participação das seguradoras do Banco do Brasil no consórcio Telemar, desmontando assim uma parte da engenharia financeira montada por Ricardo Sérgio, o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, responsável pela privatização, foi procurado para que mudasse de idéia. Quem o procurou? Ximenes. Além de sua ligação com Serra e Ximenes, Ricardo Sérgio mantinha uma boa relação com o ex-secretário-geral da Presidência da República Eduardo Jorge Caldas Pereira. Certa vez, uma alta autoridade do governo recebeu um telefonema de Eduardo Jorge com o pedido de que recebesse o advogado carioca Jorge Serpa. O pedido foi atendido. Na conversa, relatada a VEJA na semana passada, Serpa queria da alta autoridade apoio para a indicação de Ximenes para a presidência da Petrobras e de Ricardo Sérgio para a presidência do Banco do Brasil.
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