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A notícia sobre a existência de um processo no qual o presidente do Senado, Jader Barbalho, é suspeito de ter surrupiado 10 milhões de reais do Banco do Pará trouxe duas novidades. A primeira é uma ironia: a única pessoa sujeita a uma punição até agora é o autor do processo. Trata-se do auditor fiscal Abrahão Patruni Junior, do Banco Central, em Curitiba, que investigou o desfalque durante cinco meses e foi o único fiscal do BC a exibir coragem de superar as pressões da época e assinar o documento em que a acusação a Jader é formalizada. No BC, Patruni Junior é suspeito de ter vazado para a imprensa a informação de que havia um processo sigiloso contra o senador. Por isso, foi premiado com licença compulsória de suas funções e, convocado a Brasília, recebeu um pito de 2 horas da diretora de fiscalização do BC, Tereza Grossi, além da ameaça de um processo administrativo. Para piorar as coisas, ele descobriu que o telefone de sua casa, em Curitiba, fora grampeado clandestinamente. "Minha vida está sendo destruída, mas quero cumprir o meu papel de brasileiro", diz Patruni, atordoado. "A investigação deixou claro o envolvimento do senador Jader Barbalho com a fraude. Basta olhar o processo."
Como basta olhar o processo, a outra novidade é um espanto:
fora do Banco Central, ninguém jamais olhou o processo, nem
mesmo os procuradores do Ministério Público do Pará,
a quem a papelada deveria ter sido enviada para que os suspeitos
fossem investigados. "Aqui o processo nunca chegou", afirma o procurador-geral
de Justiça do Pará, Geraldo Rocha, depois que seus
auxiliares se certificaram disso ao vasculhar arquivos, examinar
protocolos e conferir os computadores. No Banco Central, até
sexta-feira passada, ninguém sabia dizer se o processo algum
dia deixou as gavetas e tomou o caminho previsto por lei. É
um caso grave. Colocar na gaveta um processo com indícios
de falcatrua é crime de prevaricação, cuja
pena vai de três meses a um ano de cadeia. O processo do desvio
de 10 milhões de reais do Banpará para contas de Jader,
seus familiares e suas empresas foi concluído em 15 de maio
de 1992. Como não chegou ao Ministério Público
do Pará até hoje, em dois meses o processo fará
aniversário de nove anos de gaveta. Com a palavra o presidente
do BC na época, Francisco Gros: "Despachei tudo o que chegou
às minhas mãos. E mais não falo sobre esse
assunto".
O sucessor de Marília Crespo no comando do MP foi Manoel
Santino. Assumiu em 1995, e no ano seguinte reportagens do jornal
O Estado de S. Paulo noticiaram o sumiço do processo.
Santino ordenou uma varredura para localizar os documentos, instalou
uma sindicância para punir os culpados, mas ficou tudo por
isso mesmo. O MP, então, solicitou ao Banco Central que enviasse
uma nova cópia do processo. Nessa época, o presidente
do BC era Gustavo Loyola. Junto à nova cópia, Loyola
mandou uma curta declaração. Dizia que Jader Barbalho
não era citado na folha de rosto do processo. Loyola diz
que não leu o processo e redigiu sua carta baseado só
na folha de rosto que fora escrita, anos antes, por Francisco Gros.
"Só tomei conhecimento do ofício feito por Gros em
1992, e nele não havia citação a Jader", diz
Loyola. Na época, Jader Barbalho pressionou o Banco Central
para que fizesse essa carta dizendo que seu nome não aparecia
na parte introdutória dos papéis. Loyola fez. Agora,
já arrependido de ter assinado a declaração,
descobriu o porquê da pressão: Jader usa-a como se
fosse um atestado de inocência.
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