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A força do contraste

Pelo contraponto de sua vida com as
histórias
de corrupção que dominam o
Brasil, Mário Covas se tornou um símbolo
do que o país quer de seus políticos

Alexandre Secco

Milton Michida/AE


Poucas vezes o Brasil rendeu a um político a homenagem emocionada que dedicou na semana passada ao governador Mário Covas, de São Paulo. Houve mais lágrimas e cortejos fúnebres maiores, mas sempre para figuras ímpares no panteão político nacional, como Getúlio Vargas ou Juscelino Kubitschek. Tancredo Neves recebeu igualmente uma despedida marcante, após se tornar o primeiro presidente civil depois da ditadura e morrer antes de se apossar da faixa presidencial. Além desses, é difícil lembrar de qualquer outro político que tenha mobilizado o coração nacional como Covas fez na última semana. Tinha 70 anos. Estima-se que 20 000 pessoas passaram pelolácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Em Santos, sua cidade natal, no litoral de São Paulo, 15 000 saíram às ruas para acompanhar o sepultamento. Na quarta-feira, na final do torneio Rio-São Paulo, 70 000 torcedores que estavam no estádio do Morumbi gritaram o nome do governador por quase um minuto em sinal de reverência.



Epitácio Pessoa/AE
MÁRIO COVAS 1930 - 2001
Cadetes da PM carregam o caixão do governador: 20 000 pessoas foram ao velório no Palácio dos Bandeirantes

Por que Mário Covas tocou tanto o país em sua despedida? Afinal, o governador paulista nunca foi um político propriamente popular. Quase sempre ganhou eleições apertadas. Estreou na política com uma derrota na disputa pela prefeitura de Santos. Chegou em quarto lugar na corrida presidencial de 1989, atrás de Collor, Lula e Brizola. E até a reta final do primeiro turno pela disputa à reeleição para governo de São Paulo, em 1998, estava na terceira posição nas pesquisas. No final, ganhou apertado de Paulo Maluf, um político identificado com princípios estranhos aos que enaltecem a biografia de Covas. Apesar de lhe terem conferido uma nova chance, os paulistas viam seu governo com ressalvas muito sérias. Numa pesquisa realizada há um ano sobre sua administração, a última disponível, 40% avaliaram seu governo como ruim ou péssimo. Em uma outra, em que dez Estados foram pesquisados, só dois governadores receberam avaliação pior que Covas.


Dida Sampaio/AE
QUEBRA DE SIGILO
O senador Luiz Estevão foi cassado em uma votação secreta, mas circulam denúncias de que o sigilo pode ter sido quebrado


Na porta da Febem, o governador precisou enfrentar de dedo em riste mães de menores rebelados. Elas estavam enfurecidas com o governador. Mário Covas, que sempre procurava circular entre o povo e fazer discurso em palanques improvisados na rua, foi recebido várias vezes com vaias e salva de ovos. Ao atravessar um acampamento montado por funcionários públicos grevistas e militantes sindicais, na frente da Secretaria de Educação, em São Paulo, foi subitamente atacado e teve de caminhar dentro de um cordão de isolamento feito pelos auxiliares, debaixo de uma chuva de latas, laranjas e até cadeiras voadoras. Nesse cerco, foi atingido na cabeça por uma pedra, perdeu os óculos e saiu com um sangramento na boca.

Então, por que Covas tocou tanto o país em sua despedida? Em primeiro lugar, fica claro que Covas assombrou as pessoas pela forma valente com que enfrentou um câncer que devorava suas entranhas. A morte anunciada, não a repentina, é o momento mais dramático da vida para a grande maioria das pessoas. Todos a temem e entram em estado de choque psicológico. Covas também a temia, mas se comportava com bravura, como se a estivesse desafiando. Para começar, ele admitiu em público que estava doente e jamais escondeu a gravidade do mal que o afligia, coisa que os políticos raramente fazem. "Vou em frente, mesmo sem todas as peças originais", disse ele, depois de uma cirurgia na qual lhe extirparam um pedaço do intestino. Já estava sem a bexiga, substituída por um órgão construído com tecido intestinal. Num discurso no Palácio dos Bandeirantes, no estágio mais evoluído da doença, começou a dizer frases sem sentido por causa do efeito dos medicamentos fortes que estava usando para controlar a dor. Tentou continuar até que a mulher, Lila Covas, pediu chorando que, por favor, parasse. A platéia se levantou para aplaudi-lo.


José Paulo Lacerda/Ag. Estado
CARDEAL DO PMDB
Jader Barbalho, presidente do Senado, pode enfrentar uma CPI para investigar desvio de dinheiro do Banco do Pará


A atitude corajosa diante do câncer instalou Mário Covas no território emocional do país. Depois da morte do governador, no entanto, surgiu avassaladoramente outro elemento de admiração, a sua inteireza moral, a retidão de caráter. Covas era em vida definido como turrão, cartesiano, eixo do partido que ajudou a fundar, o PSDB. Ninguém se lembrou muito dessas características depois da morte. A homenagem mais visível era à sua honestidade. Nas ruas por onde passou seu cortejo fúnebre, havia faixas ressaltando essa qualidade do governador. "Adeus Mário Covas, exemplo de dignidade e honestidade", dizia uma.

Talvez tenha contribuído para isso o momento especial que o país atravessa. Nunca se assistiu a tamanha quantidade de denúncias de corrupção em todos os poderes da República, em todos os níveis da federação. E foi nesse momento que morreu Mário Covas. Na comoção causada pela morte do governador, o contraste entre ele e tantos outros prevaleceu sobre as demais qualidades que lhe eram atribuídas. "Covas morre num momento em que as elites políticas não dignificam a atividade, e esse silêncio da morte talvez tenha uma repercussão que altere positivamente a qualidade da política brasileira", analisou numa entrevista o deputado Miro Teixeira, do PDT do Rio de Janeiro. No currículo de Covas, não se encontram escândalos, fitas e dossiês. Depois de quarenta anos de vida pública, deixou para a família um patrimônio compatível com a renda que tinha.


Dida Sampaio/AE
COMPRA DE PARLAMENTARES
A partir de uma escuta clandestina, o deputado Geddel Vieira Lima está sendo acusado de ter comprado a filiação de parlamentares ao PMDB para ampliar a base do partido


Se a homenagem à virtude que se viu no enterro tiver alguma influência positiva nos hábitos da elite brasileira, já terá sido uma vitória e tanto para o governador. Mas ele foi mais do que apenas um símbolo de correção. É possível que Covas tenha feito o maior ajuste fiscal da história brasileira – e essa é uma realização prodigiosa, embora não confira popularidade aos governantes. Em 1995, quando assumiu pela primeira vez o governo estadual, São Paulo tinha 70 bilhões de reais em dívidas já vencidas. O déficit do orçamento anual era de 22% – para cada real que arrecadava em impostos, o governo gastava 1,20, quase tudo consumido com o salário do funcionalismo. Covas, um homem de centro esquerda, relutou mas acabou por aplicar a cartilha liberal. Privatizou, enxugou, demitiu, modernizou. Cerca de 120 000 postos de trabalho foram fechados na administração direta e nas empresas estatais. O programa de privatizações rendeu 32 bilhões de reais ao Estado, e todo o dinheiro foi destinado a pagar dívidas. Medidas de austeridade, venda de empresas públicas e demissão de funcionários são práticas muito elogiadas em certos circuitos técnicos e acadêmicos, mas politicamente são um perigo. Sabe-se que os melhores investimentos eleitorais têm sido obras de grande visibilidade e aumentos de salários e quadros do funcionalismo. Entre os políticos de projeção no Brasil, Covas foi o que consumou a austeridade fiscal de maneira mais profunda e memorável.

Por que se teria deixado convencer pela solução liberal um homem como Mário Covas? Ao chegar ao governo, não queria de maneira nenhuma aceitar a venda do banco estadual, Banespa, que alguns de seus antecessores rapinaram. "Covas era racional. Se alguém conseguia explicar-lhe que estava errado, aceitava mudar de idéia", diz o ministro Andrea Matarazzo, encarregado da publicidade oficial do governo FHC, que presidiu a Companhia Energética de São Paulo, Cesp, no primeiro governo Covas, quando foram demitidos 14 000 funcionários de um total de 21 000. Esse programa de enxugamento destruiu a possibilidade de Covas tornar-se um governador popular. Outra área prejudicial a seus índices de popularidade foi a segurança pública. Os índices de criminalidade em seu governo subiram ano a ano sem trégua, as febens explodiram e os presídios se rebelaram. Se não tivesse morrido, o governador poderia estar colhendo os frutos da austeridade muito em breve. Nos dois anos que faltam para o fim do governo, São Paulo tem quase 7 bilhões de reais para investir em obras e serviços, o equivalente ao que no plano federal vem se gastando em investimentos a cada ano. O novo governador, Geraldo Alckmin, tem uma agenda repleta de inaugurações até 2002.


Ed Ferreira/AE
DESLEALDADE
O presidente avisou que considera desleal a abertura de uma CPI para investigar a privatização das teles e anunciou um pacote de investimentos para os próximos dois anos


Não existe corruptômetro para calcular a taxa de roubalheira que vigora num país em determinado momento. Portanto, é impossível afirmar se o que se nota no Brasil de hoje é algo mais ou menos grave do que já se viu em outros momentos da História. O que se pode dizer com certeza é que o aperfeiçoamento da democracia permitiu um grau inédito de investigação e de exposição do mau uso do dinheiro público. A imprensa, o Ministério Público e os próprios políticos estão mais sensíveis aos sinais de corrupção. A memória não registra desbaratamento tão surpreendente de uma organização criminosa nos grotões do país como o que ocorreu com a quadrilha do ex-deputado federal Hildebrando Pascoal, o que serrava gente usando motosserra no Acre. O juiz Nicolau dos Santos Neto, do escândalo do TRT de São Paulo, está preso. Seu associado na maracutaia, o ex-senador Luiz Estevão teve seu mandato cassado. Contra o presidente do Senado, o paraense Jader Barbalho, cardeal do PMDB, pesam acusações cada dia mais sérias. Recentemente, VEJA publicou a transcrição de fitas em que o líder do mesmo partido na Câmara, Geddel Vieira Lima, é apresentado numa situação que sugere pagamento a outros parlamentares para que engrossem as filas do PMDB.

Diferentemente do que já ocorreu em outras safras de denúncias, a vida do país, fora de Brasília, continuou sem maiores sobressaltos. Já houve um tempo em que, nessas circunstâncias, a sociedade reagia através de espasmos. Crises geradas em Brasília eram contagiosas, logo se transformavam em problemas sistêmicos que envolviam no mesmo balaio instituições completamente diferentes, do sistema financeiro ao universo dos militares. "Estamos vendo que a vida continua, que a economia continua e que o país continua, apesar das crises. Assim é a democracia", diz o cientista político Jairo Nicolau.

Finalmente, tudo isso parece ter antecipado irremediavelmente um debate que o presidente Fernando Henrique Cardoso só queria ver começar no ano que vem. O governo controlou a inflação e sobreviveu a graves crises internacionais. A economia parece entrar nos eixos. O atendimento médico melhorou e este governo teve o mérito de conseguir matricular todas as crianças na escola. No entanto, a base aliada não tem um candidato que empolgue o eleitorado. Segundo as pesquisas, a soma das intenções de voto nos candidatos da oposição batem em mais de 50% contra 30% dos candidatos governistas. Considerando o sucesso do governo, é uma situação estranha.


Ed Ferreira/AE
A RESPOSTA
Retrucando a um ataque do presidente Fernando Henrique Cardoso, Magalhães disse que vai ser como "um tambor que vibra contra os corruptos"


Para muitos pesquisadores a explicação é que governos, assim como iogurte, têm prazo de validade. O atual está chegando a seu limite, por mais êxitos que tenha conseguido. No clima de entrechoque de denúncias, o presidente Fernando Henrique aproveitou o lançamento de um pacote bilionário de investimentos para os próximos dois anos para fazer um apelo às lideranças políticas do país. Fernando Henrique considera que seu governo, mais preocupado com as circunstâncias que geram a corrupção do que com denúncias isoladas, tem trabalhado no sentido de desfazer os sistemas favoráveis ao mau uso dos recursos públicos. A privatização de estatais é apenas uma das ações que cita nessa direção. Afirma ainda que seu governo tem apurado tudo o que lhe levam ao conhecimento e encara como deslealdade o namoro de alguns parlamentares com a instalação de uma CPI para apurar esquemas de corrupção no processo de privatização das telefônicas. "Fazer CPI para quê? Para apurar o que já se apurou, fazer barulho e criar instabilidade?" Incomodado com as críticas que vem recebendo do ex-aliado Antonio Carlos Magalhães, FHC referiu-se a ele com uma severidade que nunca havia expressado antes em relação ao senador baiano. "O ACM é igual a um trombone isolado na orquestra." Quer dizer que Antonio Carlos fará barulho sozinho porque o PFL ficará ao lado do governo, como decidiu oficialmente na semana passada. Distante mais de 1 000 quilômetros de Brasília, ACM discursava no município de Jequié, interior da Bahia, na noite de quinta-feira passada, quando desabou o palanque em que estava, na companhia de 100 pessoas, ferindo levemente algumas delas. Ileso de mais essa aventura, ACM aproveitou a atenção despertada pelo episódio para retrucar o ataque do presidente. Afirmou que não será o trombone, "mas o tambor que vibra contra os corruptos". A novela voltará na segunda-feira, quando o Congresso retomar sua rotina.

 
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