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Cassino
Wai-Wai
Ilustração Pepe Casals
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Cedo
ou tarde os cassinos serão legalizados no Brasil. Existe
um projeto de lei nesse sentido, de autoria de José
Fortunati, um dos envolvidos no escândalo da gráfica
do Senado. O projeto encontra-se na Comissão de Assuntos
Sociais, tendo sido aprovado, em 1998, por outras duas comissões:
a de Constituição e Justiça e a de Assuntos
Econômicos. Nesta última, recebeu 9 votos a favor
e 5 contra. Os votos a favor vieram de uma turma da pesada,
a julgar pelo noticiário de imprensa. Gilberto Miranda
foi um dos pivôs do episódio do Sivam, sendo
investigado pela Receita Federal por enriquecimento ilícito,
ligado à Zona Franca de Manaus. Gerson Camata teve
seu nome incluído no livro-caixa de Toninho Roldi,
acusado de ser o chefe do crime organizado no Espírito
Santo. Ney Suassuna deu uma ajudinha para afundar a CPI dos
Precatórios. Edison Lobão é pai de um
dos maiores donos de bingos do país. Romero Jucá
sofreu processo criminal por peculato e corrupção
passiva. Ernandes Amorim, citado na CPI do Narcotráfico,
não fez parte da comissão, mas garantiu um fervoroso
apoio na tribuna do Senado.
Não resta a menor dúvida, portanto, de que
os cassinos serão legalizados. Esses senhores já
demonstraram que sabem trabalhar direito. Quando querem
algo, superam qualquer obstáculo. A única
coisa a fazer, a esta altura, é tentar tirar algum
proveito da situação. Tive uma idéia
capaz de resolver vários problemas numa tacada só.
Em vez de deixar que os cassinos caiam nas mãos de
mafiosos, traficantes de drogas, cafetões, lavadores
de dinheiro e políticos corruptos, como acontece
em todos os lugares do mundo, podemos autorizá-los
exclusivamente em nossas reservas indígenas. Foram
os americanos que inventaram essa história de conceder
cassinos aos índios, graças a uma lei de 1988.
Hoje, há mais de 300 desses estabelecimentos indígenas
nos Estados Unidos, como o Cassino Cherokee, o Cassino Comanche
do Rio Vermelho ou o Cassino Apache Dourado, situado nas
colinas de San Carlos, no Arizona, com seu hotel de 146
quartos, seu restaurante de cozinha típica e seu
campo de golfe de dezoito buracos.
Dois anos atrás, visitei índios da tribo wai-wai,
no norte do Pará. Foi deprimente. Doutrinados por
uma missão evangélica, eles ficavam apinhados
numa única aldeia, em torno da igreja. Viam o programa
de Gugu Liberato com antenas parabólicas. Jogavam
futebol. Praticavam a monogamia. Não tomavam entorpecentes.
Da velha essência indígena, só sobravam
o arco e a flecha. Obviamente, viviam na miséria
mais absoluta. Durante a minha visita, um indiozinho morreu
num hospital de Belém, e seu pai não tinha
dinheiro para levar o cadáver de volta para a aldeia.
Imagine se instalassem um cassino em suas terras. O Cassino
Wai-Wai. Os índios ficariam ricos. Usariam o capital
para preservar a floresta. Empregariam garimpeiros e madeireiros
como crupiês. O pastor teria uma nova ocupação,
sacramentando casamentos relâmpago, como em Las Vegas.
E os índios voltariam a ter uma vida nômade.
Se enjoassem de zanzar apenas pela floresta, poderiam estender
o nomadismo a Paris, ou Nova York, ou São Paulo,
para comprar roupas na Daslu. O importante, para mim, é
uma coisa só: se é para perder dinheiro na
roleta, não quero que ele acabe no bolso daquele
outro pessoal.
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