"Vamos
sobreviver"
O presidente do BC admite que a crise
política pode afetar a economia, mas
afirma que o Brasil está preparado
para os ventos ruins
Consuelo
Dieguez
Oscar Cabral
 |
"Para
garantir o crescimento, precisamos dar continuidade
às reformas. Para isso, vamos precisar do Congresso"
|
O
presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga,
43 anos, passou a última semana com um olho na crise
argentina e outro na crise política brasileira. No
computador de seu gabinete, no prédio do BC no Rio
de Janeiro, onde despacha todas as segundas-feiras, ele
acompanhava a reação do mercado à nomeação
do novo ministro da Economia argentino e recebia informes
sobre mais um round da briga de morte entre o senador Antonio
Carlos Magalhães e o presidente do Congresso, Jader
Barbalho, com respingos sobre o governo Fernando Henrique
Cardoso. Tamanha confusão, porém, parece não
tirar a calma de Armínio, que nunca altera seu tom
de voz pausado e mantém sobre a mesa um prato com
fatias de cenoura que mastiga nos momentos mais tensos.
Ele está completando dois anos à frente do
BC, num momento que combina um bom desempenho da economia
brasileira com um início de crise política,
aliado a um cenário externo conturbado. Apesar de
admitir que a confusão política pode acabar
comprometendo os indicadores econômicos, Armínio
não acredita que nada do que virá será
muito diferente do que os obstáculos que tem enfrentado.
"Desde que estou aqui nunca peguei na economia um dia bonito
de sol. Quando não tem tempestade, tem chuvisco.
Mas nós vamos sobreviver", afirma.
Veja O aprofundamento da crise na base política
do governo e as denúncias de corrupção
podem comprometer o cenário de tranqüilidade
econômica que o país está vivendo e
acabar afastando o investidor estrangeiro?
Armínio
Podem. Não há como não responder afirmativamente.
Não é o que eu acredito que vá acontecer,
mas é possível. No limite, os bons indicadores
econômicos podem ir para o ralo. Para garantir a manutenção
do crescimento econômico, nós precisamos dar
continuidade ao processo das reformas. Para isso, vamos
precisar muito do apoio do Congresso. O Congresso tem respondido
bem, e espero que continue apoiando as reformas, que são
a garantia de que o país vai continuar crescendo.
Alguns analistas têm escrito que um pouco da subida
recente do dólar tem a ver com esta crise. Mas é
difícil dizer. São vários eventos ocorrendo
ao mesmo tempo, e não é fácil destrinchar
esse sinal.
Veja A que, então, o senhor atribui
a alta do dólar?
Armínio
A uma série de fatores: o saldo comercial, o impacto
da desaceleração da economia americana, a
situação na Argentina e talvez um pouco o
quadro político. Mas acho que o mercado está
tendo um bom comportamento.
Veja O dólar nesse patamar de 2 reais
é compatível com a meta de inflação
de 4% ao ano que o governo pretende alcançar?
Armínio
Qualquer movimento do dólar tem sempre algum impacto
inflacionário. Mas a inflação não
saiu da trajetória traçada. A meta de 4% foi
fixada lá atrás e não muda. Portanto,
se ela ficar ameaçada, o que vai mudar não
é a meta e sim a política do Banco Central
para garantir que ela seja cumprida.
Veja Dólar em alta e crescimento econômico.
Esses dois ingredientes não são detonadores
de inflação?
Armínio
Continuamos trabalhando com a hipótese de crescimento
da economia de 4,5% para este ano. Não sabemos qual
a taxa de crescimento máxima para a economia brasileira.
Temos testado esse limite, e essa é a nossa função:
permitir que o país cresça o máximo
possível sem desestabilizar a economia e sem promover
um desvio de nossa trajetória de meta de inflação.
O importante é garantir o crescimento de longo prazo.
É preciso ficar claro que o que determina o crescimento
da economia não é a política de curto
prazo do Banco Central, e sim outros fatores, como nível
de investimentos, melhora na área da educação
e aumento da produtividade da economia. O que podemos fazer
é trabalhar ainda mais esses pilares de crescimento
de longo prazo. Temos tido bons resultados nas três
áreas, mas não estamos nem perto do que gostaríamos.
Para o país crescer em velocidade de Fórmula
1 temos de avançar em várias frentes. É
isso que irá garantir o crescimento de longo prazo.
Veja O senhor afirma que o Banco Central está
atento e pronto a intervir na economia caso perceba que
a estabilidade corre risco. O BC terá liberdade para
tomar medidas impopulares às vésperas de um
ano eleitoral, como elevar os juros, por exemplo?
Armínio
Essa é minha expectativa, e não tive até
o momento nenhum sinal que indicasse qualquer restrição
à nossa capacidade de agir. A continuidade é
o ingrediente essencial para que o Brasil possa crescer
o máximo em médio e longo prazos e também
para que possa atravessar com tranqüilidade os períodos
eleitorais. Não dá para misturar política
e economia. Tem o lado positivo também: não
faremos nenhuma cerimônia se a sorte nos sorrir e
for possível caminhar na outra direção.
Ou seja, de reduzir agressivamente as taxas de juros. Nós
faríamos isso sem nenhum medo de ser acusados de
eleitoreiros ou coisas do gênero. Temos liberdade
para agir tanto para um lado quanto para o outro.
Veja Um BC independente não seria um
seguro de que realmente a economia não sofreria ingerências
políticas?
Armínio
O governo está comprometido com uma nova lei para
o BC. Uma lei que essencialmente institucionalizaria o que
tem sido a prática dos últimos tempos. A visão
do governo é de um BC voltado para a preservação
de um ambiente macroeconômico estável, previsível,
comprometido com a estabilidade de preços. O desenho
que temos em mente e que será objeto de discussão
no Congresso neste ano dá ao BC essa missão.
As diretrizes da economia seriam dadas pelo governo, e o
BC prestaria contas do que foi determinado. O que foi fixado
não poderia mudar. Esse é um modelo que tem
aceitação em governos do mundo inteiro, de
vários matizes políticos...
Veja Governos do mundo inteiro, menos o do
Ceará: o governador Tasso Jereissati afirmou recentemente
que dar independência ao BC é dar poder demais
a quem não foi eleito...
Armínio
Concordo com ele. Mas esse modelo que eu descrevi, de que
é o governo que traça as metas econômicas
a ser mantidas pelo BC, não é um modelo de
independência absoluta. É um modelo focado,
em que o governo determina as metas e o BC apenas trata
de persegui-las.
Veja Que tipo de impacto terão as eleições
presidenciais sobre os investimentos estrangeiros no país,
com os candidatos de oposição bem posicionados
no páreo?
Armínio
Em primeiro lugar, é bom ter em mente que o impacto
sobre investidores estrangeiros ou nacionais seria igual.
O empresário brasileiro quando decide não
investir tem o mesmo peso do estrangeiro que tira o Brasil
de seus planos. Estamos tratando de criar no país
um ambiente propício à poupança e a
investimentos de longo prazo. A Lei de Responsabilidade
Fiscal e o que poderia ser uma nova lei para o BC são
o que há de mais fundamental para dar tranqüilidade
aos investidores. É natural que haja alguma angústia
em relação ao que virá, mas não
sou pessimista. Vejo muita coisa positiva se institucionalizando
e um consenso até na oposição de que
temos de reforçar os alicerces do crescimento, de
que não podemos voltar à bagunça macroeconômica
da década de 80. Isso, mais que qualquer outra coisa,
tem o potencial de preservar nossa trajetória de
crescimento e a estabilidade.
Veja Isso significa que a velha ameaça
de que os empresários fariam as malas e deixariam
o país caso o PT vencesse as eleições
sumiu do horizonte?
Armínio
Quem tinha de fazer isso já fez. A turma que está
aqui sabe que o potencial de crescimento e de ganho no Brasil
é muito grande. Ninguém vai fugir.
Veja O senhor defende a necessidade de reformas
para agilizar o desenvolvimento. Nesse contexto, o fim da
CPMF não seria desejado?
Armínio
A CPMF vai acabar em 2002. Nossa preocupação
é repor a receita gerada por ela de alguma maneira,
e é isso que estamos estudando. Esse imposto aumenta
os custos de capital e onera as exportações.
Veja A situação na Argentina
tem deixado os mercados sobressaltados. O aprofundamento
da crise por lá pode ter conseqüências
drásticas para o Brasil?
Armínio
A
crise argentina tem raízes econômicas e políticas.
As econômicas têm semelhança com a nossa
crise de dois anos atrás, ligadas à queda
das exportações, ao aumento no ano passado
das taxas de juros nos Estados Unidos e à queda do
euro, por exemplo. Na área política, houve
mudança de governo com uma tensão interna
que também teve impacto relevante sobre a confiança
da população. Hoje, o que se vê lá
é um quadro onde a questão política
parece dominar a economia e se transforma num fator de incerteza.
Vários dos problemas econômicos argentinos
já se reverteram e pouca gente se dá conta.
As taxas de juros americanas caíram muito, o Brasil
tem crescido o que tem impacto positivo na Argentina
e o valor das exportações do país
subiu. Se houver uma guinada positiva na área política,
é bem provável que a Argentina consiga deslanchar.
O país é um parceiro importante e é
vizinho, o que faz a nossa economia ser sensível
a esse tipo de crise. Não temos o que fazer em relação
a uma ruptura do equilíbrio na Argentina ou em qualquer
outra parte do mundo, a não ser manter a nossa economia
em boa forma. Isso nós estamos procurando fazer.
A economia tem dado sinais de resistência ao quadro
de instabilidade externa. Não tivemos nenhum vento
a favor neste período. Ao contrário, volta
e meia vem uma tempestade, depois um chuvisco. Esta situação
da Argentina é mais um teste para o Brasil.
Veja Mas essas tempestades constantes, como
a desaceleração da economia americana, a crise
na Turquia e na Argentina, o preço do petróleo
em alta, não podem acabar afetando as nossas frágeis
contas externas e deixar o Brasil vulnerável? Não
há o risco de haver uma redução no
fluxo de capital estrangeiro para o país?
Armínio
Isso pode acontecer, sim. Estamos trabalhando com um cenário
de queda de 20% nos investimentos diretos neste ano. Já
faz parte das nossas contas. Mas não podemos esquecer
que a Europa tem sido nossa maior fonte de financiamento,
e a Europa está numa boa fase. Mais importante que
isso é o entendimento de que não temos nenhuma
dependência de capital de curto prazo. Essa era a
característica de muitos países que acabaram
vivendo crises nos últimos anos. No Brasil os investimentos
são de longo prazo. É claro que se houver
um terremoto econômico de grandes proporções
no mundo e uma queda ainda maior no fluxo de investimentos
diretos, isso nos apertará um pouco. Mas não
é essa minha expectativa. Não seria razoável
trabalhar para eliminar o déficit nas contas externas
rapidamente. Isso provocaria uma recessão desnecessária.
Temos um país com horizontes mais longos, com menos
incertezas e que está investindo pela primeira vez
em muitos anos. Não faz sentido pisar no freio da
economia por causa de probabilidades baixíssimas
de aprofundamento da crise externa. Estamos tentando conduzir
as coisas de forma equilibrada. Risco zero só existe
quando a gente está desligado. Ninguém quer
desligar a economia.
Veja O senhor não está sendo
excessivamente otimista?
Armínio
É claro que se os cenários forem muito ruins,
não só na Argentina, mas também nos
Estados Unidos e no Japão, vamos sentir. Mas há
muito tempo nós não enfrentamos uma tormenta
tão bem preparados. Nunca é agradável,
mas nós vamos sobreviver. É preciso levar
em conta que há uma certa simetria nesses riscos.
As coisas podem piorar, mas podem acabar sendo melhores
do que parecem. O ambiente externo que existe hoje é
pior que a média que eu espero para os próximos
anos. Em algum momento isso vai melhorar.
Veja Até quando o Brasil vai ficar na
dependência do financiamento externo para equilibrar
suas contas?
Armínio
Essa chamada dependência tem como contrapartida a
possibilidade de maior investimento. Se não fosse
a entrada de capital externo, em vez de o país ter
exibido 5% de crescimento nos últimos dezoito meses,
teria andado para trás.
Veja O senhor chegou ao BC há dois anos.
Além do caos cambial para enfrentar, o senhor estava
debaixo de uma saraivada de críticas. Muitos o acusavam
de ser um "empregado do especulador George Soros". Diziam
que o senhor no BC era o mesmo que uma raposa tomando conta
do galinheiro. Hoje, o senhor é uma das maiores unanimidades
do governo e até petistas mais radicais o elogiam.
Deu para encarar essa travessia com a frieza de um bom operador
de mercado financeiro?
Armínio
Na época, eu achava natural o tumulto e não
levei aquilo pelo lado pessoal. Os ataques incomodaram muito
mais a minha família. Eu, por
causa deles. Mas tinha confiança em que aquilo tudo
iria passar porque não tenho dúvidas quanto
ao meu patriotismo e o meu passado. Mais recentemente, tenho
me beneficiado dos frutos de um esforço coletivo
e, como presidente do Banco Central, ganho parte importante
do crédito. Da mesma forma que procurei não
desanimar nos momentos mais deprimentes da minha chegada,
também agora procuro não me deixar entusiasmar
muito com o tom simpático e positivo. Admito que
estou feliz, é claro, mas estou num cargo que não
me permite ser levado pelo emocional.
Saiba
mais
|
|
|
|