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Gustavo Franco

A presença de Mário Covas

"Sua perda mudou para melhor a agendanacional.
Os aspirantes à cadeira que Covas provavelmente
disputaria em 2002 terão de se explicar no quesito
'zelo pela coisa pública' com um rigor muito maior
do que se presumia"



Ilustração Ale Setti


Mário Covas tinha muitos amigos, mas por infelicidade minha eu não estava entre eles. Conhecia-o apenas superficialmente, de um jantar entre economistas e políticos do PSDB em 1993 onde nos encorajou a ir adiante com o Plano Real a despeito das dúvidas que todos tínhamos. Tempos depois passei por momentos de tensão com ele, já governador, quando estávamos em lados opostos da mesa de negociação durante o período entre a intervenção no Banespa, em dezembro de 1994, e sua federalização e privatização bem-sucedida anos depois.

A morte de Mário Covas, e a comoção que a todos causou, me deixa a impressão de que falhamos lamentavelmente em perceber a grandeza desse homem enquanto vivia. Algumas de suas virtudes mais exaltadas nos últimos dias não eram típicas de políticos brasileiros e nem mesmo eram aceitas pacificamente como tal: o hábito de não ocultar seu pensamento, por exemplo, e de não se furtar a confrontar pessoas e conceitos que considerava contraditórios com suas percepções sobre o interesse público. Quando era vivo, o tinham como teimoso, turrão e intransigente. Foi preciso que partisse para que aparecessem palavras desvalorizadas na práxis política, como coerência, decência e responsabilidade. Na verdade, acho que é nesse veio que vamos encontrar a chave para entender o tamanho da comoção pela perda, ou a dimensão do homem.

A julgar por tudo que se tem escrito sobre ele, talvez nenhum outro político melhor encarnasse o "zelo pela coisa pública", isso que mais recentemente passou a ser chamado de responsabilidade fiscal. É extraordinário que ele esteja sendo exaltado em função dessas características e não exatamente porque era um "desenvolvimentista" ou um político "profundamente comprometido com o social". Temos aí, sem dúvida, uma importantíssima pista sobre a direção para onde se deslocaram a agenda nacional e os humores do Brasil. Mário Covas era dado a premonições desse tipo, como bem demonstra seu profético pronunciamento sobre a necessidade de um "choque de capitalismo" no Brasil do final dos anos 1980.

Mário Covas enxergou o anseio pela "responsabilidade fiscal" não apenas porque acreditou nos economistas quando eles lhe falavam sobre a falência fiscal do Estado; ele a experimentou na prática ao herdar o governo de São Paulo quase que inteiramente saqueado. Tão importante quanto isso, todavia, foi ter percebido, na frente dos políticos comuns, que o problema do déficit fiscal (e da inflação) era apenas outra face do "descaso com a coisa pública", ou seja, era basicamente uma imoralidade. Desse modo, Mário Covas percebeu que "responsabilidade fiscal" vai bem além da gestão econômica ortodoxa e de orçamentos equilibrados, pois alcança o sagrado terreno da ética, que deve presidir a relação entre o público e o privado.

Por motivos cada vez mais óbvios, o Brasil passou a desejar mais responsabilidade fiscal, mais ética na gestão do que é público, mais austeridade, desprendimento, sinceridade e sobretudo tolerância zero com fisiologia, corrupção, nepotismo, criaturas todas aparentadas do déficit fiscal, do patrimonialismo e do autoritarismo.

Mário Covas não contaminou essas percepções sobre os anseios do Brasil no tocante às finanças públicas por preconceitos ideológicos. Não se apoquentou um segundo sequer quando lhe diziam que São Paulo seguia "o modelo neoliberal" ou a "cartilha do FMI", posto que buscava equilibrar orçamentos e privatizar agressivamente. Essa postura não teve paralelo em outros níveis de governo nem encontrou muita ressonância nas mesmas elites políticas que compareceram em peso aos funerais de Mário Covas.

Muitos ainda vão debruçar-se sobre a trajetória de Mário Covas e disputar seu legado. A temporada de oportunismos está aberta. Uma certeza, contudo, podemos ter: sua perda nos ensinou tanto que mudou para melhor a agenda nacional. Os aspirantes à cadeira que ele provavelmente disputaria em 2002 terão de se explicar no quesito "zelo pela coisa pública" com um rigor muito maior do que se presumia. Como se ele estivesse presente.


Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)

 

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