Na
morte, um símbolo
Como
se viu na semana passada durante os funerais do governador
Mário Covas, o brasileiro está dando sinais
de ter atingido um certo limite de tolerância em relação
aos políticos desonestos. Na comoção
gerada pela morte de Covas, suas qualidades morais foram
ressaltadas tanto nas tribunas quanto nos cartazes e nas
faixas de rua. Isso tem um significado óbvio. Mesmo
não tendo verbalizado claramente sua insatisfação,
o povo que acompanhou o cortejo fúnebre do governador
parecia estar dizendo que tipo de homem público gostaria
de ver se multiplicar no Brasil. Num país em que
denúncias de corrupção se entrechocam
em ritmo jamais visto, o governador de São Paulo
foi unanimemente apontado como um exemplo a ser seguido
pelos políticos que a ele sobreviverão.
A corrupção é praga resistente em todos
os tipos de sociedade. Existe desde que as comunidades primitivas
passaram a gerar excedentes econômicos, que tiveram
de ser estocados e vigiados. Vai sobreviver a todo avanço
social. Mas ela pode ser contida. Como mostra o
conjunto de reportagens desta edição,
o combate à corrupção não é
apenas uma meta ligada às virtudes morais de uma
nação. Existem também razões
práticas que justificam a preocupação
com o grau de honestidade dos países. Estudos mostram
que os índices de miséria e a mortalidade
infantil caem quando se combate a corrupção.
Os países atraem investimentos em maior volume à
medida que a ação dos corruptos é menos
sentida. Já se sabe como medir os efeitos da corrupção
e que armas a exorcizam: a imprensa livre, a vigilância
dos partidos políticos, um Judiciário mais
eficiente, promotores públicos incansáveis
são algumas delas. Quanto mais atacada, mais a corrupção
se torna visível. Pesquisadores do Banco Mundial
encontraram mais manchetes denunciando roubalheira em Cingapura,
onde ela é menor, do que na Indonésia, onde
é endêmica. Reside aí a maior fonte
de esperança para os brasileiros.