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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Riobaldo
e Hitler
Uma janela sobre o período
em que o jovem diplomata Guimarães Rosa serviu na Alemanha A
mente do escritor ocupava-se com suas fábulas encantadas, Riobaldo, lá
no fundo, bem no fundo, já estava em gestação mas
a realidade do mundo exterior era bem outra, de bombardeios, perseguições,
morte e medo. Estamos na Alemanha, período de 1938 a 1942 (atenção:
Alemanha, 1938-1942!), e o escritor em questão é o jovem João
Guimarães Rosa, a alguns poucos anos de publicar Sagarana (1946)
e a alguns muitos de Grande Sertão: Veredas (1956). Ainda no início
da carreira diplomática, Rosa foi cair logo na Alemanha de Hitler, no alvorecer
da II Guerra Mundial, ao ganhar seu primeiro posto no exterior. Ele é agora
o cônsul adjunto do Brasil em Hamburgo e mantém um diário
onde registra: 7.IV.1940
Fui ver a segunda parte do Faust. Passaram tropas, durante horas, em frente
da estação. 30 de
maio (5ª feira) 12 horas e 20. Estou trabalhando, corrigindo o último
trecho do O Burrinho Pedrês. Mugiram as sirenes. Alarme! 10 minutos
para uma hora (três) quatro estampidos surdos, subterrâneos.
Bombas? Mais bombas, perto, sempre mais perto.
O período alemão de Guimarães Rosa, um dos mais intrigantes
de sua vida, ainda carece de um relato minucioso e abrangente. Uma janela, pequena
mas preciosa, sobre aqueles anos é aberta no informadíssimo resumo
biográfico da especialista Ana Luiza Martins Costa publicado na última
edição (realizada com o capricho de sempre) dos Cadernos de Literatura
Brasileira do Instituto Moreira Salles. É nesse trabalho que aparecem
trechos do inédito diário do jovem escritor. Mexe com a imaginação
saber que foi tão perto de Hitler que aquele que viria a ser o maior escritor
brasileiro do século XX afiava, no período entre os 30 e os 34 anos
de idade, suas garras de fera das letras. O demônio, que teria papel central
em sua obra, morava ali vizinho, tendo como uma de suas especialidades a perseguição
aos judeus. Rosa registrava: 23.II.940
Em Budweis, cidade do sul da Bohemia, (...) os judeus só
poderão andar de bonde nas plataformas. Primeira cidade a introduzir isso.
20.IX.941 Ontem começou
a obrigação do distintivo na roupa dos judeus. 22-X-941
(...) judias chorando no consulado, por terem recebido a ordem de
evacuação de Hamburgo para o dia 24. Horrível.
O clima reinante levou o jovem cônsul adjunto a viver episódios extraordinários.
Um deles foi a visita que fez a frau Wetterhuse, uma senhora de mais de 90 anos
que, doente, pediu que fosse vê-la em casa. O próprio Rosa narrou
esse caso, num artigo primeiro publicado na imprensa, depois incorporado ao livro
póstumo Ave, Palavra, sob o título "A velha". Frau Wetterhuse
vivera no Brasil e falava português. Disse que até conhecera o imperador
dom Pedro II, em Petrópolis. Junto a ela, ao receber Rosa, tinha sua filha,
Angélika. E Angélika era justamente o motivo pelo qual se permitira
incomodar o cônsul adjunto. Frau Wetterhuse contou, numa conversa que se
desenvolvia ora em alemão, ora em português, que fora casada com
um judeu. Angélika era portanto considerada uma mischling, uma mestiça,
e corria perigo. Ocorre e nesse ponto a velha senhora passou a falar em
português, para que a filha não entendesse que na verdade
ela não era filha do marido legítimo, mas fruto de um romance extraconjugal
com um brasileiro. "Ele foi um vosso compatriota, um homem nobre... O amor de
minha vida", disse. Estaria a velha falando
a verdade? Ou inventando uma história, para salvar a filha? Não
havia fiapo de documento para provar o que dizia, e por isso o cônsul adjunto
não pôde fazer nada. Mas em outros casos ajudou judeus a fugir para
o Brasil. Em favor deles, emitia mais vistos do que as cotas estipuladas em lei,
e por sua atuação ganhou o reconhecimento do governo de Israel.
Nesses casos, temos o cônsul no meio
do redemoinho. Se estamos na Alemanha, travessia dos anos 30 para os 40, como
evitá-lo? Em março de 1941, um bombardeio próximo quebra
a janela de sua casa. Em maio, uma bomba atinge sem causar vítimas
o consulado brasileiro. ("Terrível, o estado do nosso pobre consulado",
lança no diário.) Mais intrigante, porém, do que flagrar
os estilhaços do grande conflito passando tão perto é constatar
que a vida prossegue. Num dia Rosa ia ver o Fausto, de Goethe, no teatro,
noutro ia visitar as casas de Goethe e Schiller em Weimar. Sobretudo, prosseguia
seu labor literário, escrevendo ou tomando notas enquanto caíam
as bombas. Bom... O fato é que não
há mesmo como parar tudo na vida. Se havia operários operando as
fábricas, lojistas cuidando das lojas, pedreiros carregando pedras e costureiras
costurando, por que não haveria escritores escrevendo? Neste momento mesmo,
há gente tocando sua vida, como se nada de mais estivesse acontecendo em
Bagdá, na Faixa de Gaza e em Darfur. Não há nada de misterioso
nisso. Mas ao mesmo tempo há, sim. |