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Edição 1995

14 de fevereiro de 2007
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Especial
Estranhos no ninho

Os iranianos são uma das mais ricas e instruídas
comunidades estrangeiras da Califórnia.
Mas preferem passar despercebidos


Isabela Boscov, de Los Angeles


Monica Almeida/NYT
A VIDA EM "TEERANGELES"
Shahram Homayoun, diretor de uma estação que transmite da Califórnia para o Irã: política, só se for para se distanciar da terra natal

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Quando um estrangeiro pensa em Beverly Hills, imagina mansões de astros de cinema nas encostas dessa riquíssima cidade dentro da metrópole. Para os próprios angelenos, porém, Beverly Hills hoje é sinônimo de uma das comunidades mais singulares dos Estados Unidos – aquela formada pelos imigrantes iranianos e seus descendentes. Um em cada cinco moradores de Beverly Hills é de origem iraniana. Um dos membros do conselho de arquitetura da municipalidade, Hamid Gabbay, é um iraniano que, depois de estudar na Itália e morar na França, escolheu a Califórnia como destino ao sair correndo de Teerã em 1978, com a mulher e os dois filhos, para escapar à revolução islâmica que se aproximava. Hamid foi um dos defensores de uma legislação que provocou algum ranger de dentes: aquela que proíbe os chamados "palácios persas", mansões que combinam estilos a esmo e devoram os recuos laterais, colando-se às casas vizinhas. Hamid não gosta dessas edificações, mas gosta menos ainda do termo "palácio persa". "Tudo o que ele tem a sugerir sobre nós, iranianos, são preconceitos", justifica o arquiteto, um homem elegante e afável, que recebeu VEJA em sua igualmente elegante casa modernista em, claro, Beverly Hills.

Dos paquistaneses que foram para a Inglaterra aos albaneses que hoje se subempregam na Europa, os imigrantes costumam chegar a seus novos lares em situação de pobreza e desvantagem. Os Estados Unidos, porém, abrigam duas exceções notáveis à regra: a comunidade cubana e a iraniana, estabelecidas por elites que fugiram de revoluções hostis a elas. Ambas foram engrossadas por várias outras levas de compatriotas menos privilegiados. Resguardam seu peso econômico e cultural, e cresceram em números. Os que se referem aos iranianos são incertos, mas estima-se que eles formem 8% da população de Los Angeles – tanto que a cidade já leva o apelido de "Teerangeles". Mas, enquanto os cubanos ambicionam força política, os iranianos fazem de tudo para não se destacar da paisagem. Eles são o grupo mais instruído do país: têm cinco vezes mais doutorados do que a média da população, e renda per capita também superior. São, ainda, muito coesos. Como no Irã pré-revolução, incluem judeus, muçulmanos, cristãos e adeptos da religião bahai. Mas convivem livremente e consideram-se antes de tudo iranianos – ou persas, como muitos preferem ser chamados, para defletir as paranóias que o nome "Irã" hoje desperta.

Eis aí a razão pela qual a comunidade não corteja a influência: ser iraniano, no Irã ou fora dele, não é fácil. Da invasão da embaixada americana em Teerã, em 1979, às atuais aventuras atômicas do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o Irã é um ímã de desconfiança. As únicas atividades políticas que os iranianos dos Estados Unidos não temem são as que visam a dissociá-los dessa imagem instável, como as manifestações contra o governo de Teerã ou os noticiários que televisões e rádios da Califórnia transmitem para lá, com uma visão alternativa dos fatos. Um dos poucos que venceram esse temor da política é Jimmy Delshad, vice-prefeito de Beverly Hills. Um iraniano que, em 1958, deixou seu país com 100 dólares no bolso e enriqueceu na área de tecnologia, Delshad fez trabalho de formiguinha para se eleger. Bateu de porta em porta, persuadindo seus compatriotas a se registrar como eleitores. "Iranianos morrem de medo de listas", explicou ele. "No Irã, ter o nome numa lista, seja do que for, é sinônimo de encrenca."

Trabalho de formiguinha é algo de que Yassi Gabbay, o irmão mais velho de Hamid, entende bem. Até 1979, Yassi era o arquiteto favorito do xá Reza Pahlevi e dono do maior escritório de projetos do país. Por causa de sua empresa, só saiu do Irã na 25ª hora. Perdeu tudo. Em seus primeiros anos nos Estados Unidos, implorou por empregos que estagiários recusariam, em troca de salário mínimo. Yassi estourou ao construir uma casa modernista em Beverly Hills. Hoje, divide com o irmão um ateliê no ponto mais valorizado do Wilshire Boulevard, mas não se livrou da ambivalência acerca de sua trajetória. "É como se eu tivesse vivido duas vidas. Esta, a segunda, é a melhor para a minha família. Foi na primeira, porém, que eu me realizei."

Yassi é um talento e um homem de modos tão encantadores quanto reservados – razões que explicam sua larga clientela americana. Para muitos de seus conterrâneos, porém, adaptar-se é um périplo. Homa Mahmoudi, a primeira iraniana a se graduar em psicologia nos Estados Unidos e ex-chefe da divisão no hospital Cedars-Sinai, tem experiência nessa seara, embora não em primeira mão. Homa emigrou na adolescência, casou-se com um americano (de quem se divorciou) e é da religião bahai, que não supõe desníveis entre homens e mulheres. Mas, de tanto atender iranianos perplexos com as novas liberdades e códigos, bolou seminários nos quais ensina, por exemplo, a noção de "espaço pessoal" – ou seja, a nunca se aproximar demais das pessoas. Para um povo orgulhoso de sua hospitalidade ampla (e muito respeitosa), não é uma lição fácil. Homa tem um exemplo disso em casa. Seu filho namorou mulheres de todas as cores e origens. Há alguns meses, conheceu uma filha de iranianos e se apaixonou perdidamente. Concluiu, além disso, que a afinidade cultural é um ingrediente crucial do romance, que já fala em tornar permanente. Diz Homa: "Veja só. Meu filho, afinal, também é iraniano. Por essa eu não esperava".

 

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