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Especial Estranhos
no ninho Os iranianos são
uma das mais ricas e instruídas comunidades estrangeiras da Califórnia.
Mas preferem passar despercebidos 
Isabela Boscov, de Los Angeles
Monica Almeida/NYT  |
A VIDA EM "TEERANGELES"
Shahram Homayoun, diretor de uma estação
que transmite da Califórnia para o Irã: política, só
se for para se distanciar da terra natal |
Quando
um estrangeiro pensa em Beverly Hills, imagina mansões de astros de cinema
nas encostas dessa riquíssima cidade dentro da metrópole. Para os
próprios angelenos, porém, Beverly Hills hoje é sinônimo
de uma das comunidades mais singulares dos Estados Unidos aquela formada
pelos imigrantes iranianos e seus descendentes. Um em cada cinco moradores de
Beverly Hills é de origem iraniana. Um dos membros do conselho de arquitetura
da municipalidade, Hamid Gabbay, é um iraniano que, depois de estudar na
Itália e morar na França, escolheu a Califórnia como destino
ao sair correndo de Teerã em 1978, com a mulher e os dois filhos, para
escapar à revolução islâmica que se aproximava. Hamid
foi um dos defensores de uma legislação que provocou algum ranger
de dentes: aquela que proíbe os chamados "palácios persas", mansões
que combinam estilos a esmo e devoram os recuos laterais, colando-se às
casas vizinhas. Hamid não gosta dessas edificações, mas gosta
menos ainda do termo "palácio persa". "Tudo o que ele tem a sugerir sobre
nós, iranianos, são preconceitos", justifica o arquiteto, um homem
elegante e afável, que recebeu VEJA em sua igualmente elegante casa modernista
em, claro, Beverly Hills.
Dos paquistaneses que foram para a Inglaterra aos albaneses que hoje se subempregam
na Europa, os imigrantes costumam chegar a seus novos lares em situação
de pobreza e desvantagem. Os Estados Unidos, porém, abrigam duas exceções
notáveis à regra: a comunidade cubana e a iraniana, estabelecidas
por elites que fugiram de revoluções hostis a elas. Ambas foram
engrossadas por várias outras levas de compatriotas menos privilegiados.
Resguardam seu peso econômico e cultural, e cresceram em números.
Os que se referem aos iranianos são incertos, mas estima-se que eles formem
8% da população de Los Angeles tanto que a cidade já
leva o apelido de "Teerangeles". Mas, enquanto os cubanos ambicionam força
política, os iranianos fazem de tudo para não se destacar da paisagem.
Eles são o grupo mais instruído do país: têm cinco
vezes mais doutorados do que a média da população, e renda
per capita também superior. São, ainda, muito coesos. Como no Irã
pré-revolução, incluem judeus, muçulmanos, cristãos
e adeptos da religião bahai. Mas convivem livremente e consideram-se antes
de tudo iranianos ou persas, como muitos preferem ser chamados, para defletir
as paranóias que o nome "Irã" hoje desperta.
Eis aí a razão pela qual a comunidade não corteja a influência:
ser iraniano, no Irã ou fora dele, não é fácil. Da
invasão da embaixada americana em Teerã, em 1979, às atuais
aventuras atômicas do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o Irã é
um ímã de desconfiança. As únicas atividades políticas
que os iranianos dos Estados Unidos não temem são as que visam a
dissociá-los dessa imagem instável, como as manifestações
contra o governo de Teerã ou os noticiários que televisões
e rádios da Califórnia transmitem para lá, com uma visão
alternativa dos fatos. Um dos poucos que venceram esse temor da política
é Jimmy Delshad, vice-prefeito de Beverly Hills. Um iraniano que, em 1958,
deixou seu país com 100 dólares no bolso e enriqueceu na área
de tecnologia, Delshad fez trabalho de formiguinha para se eleger. Bateu de porta
em porta, persuadindo seus compatriotas a se registrar como eleitores. "Iranianos
morrem de medo de listas", explicou ele. "No Irã, ter o nome numa lista,
seja do que for, é sinônimo de encrenca."
Trabalho de formiguinha é algo de que Yassi Gabbay, o irmão mais
velho de Hamid, entende bem. Até 1979, Yassi era o arquiteto favorito do
xá Reza Pahlevi e dono do maior escritório de projetos do país.
Por causa de sua empresa, só saiu do Irã na 25ª hora. Perdeu
tudo. Em seus primeiros anos nos Estados Unidos, implorou por empregos que estagiários
recusariam, em troca de salário mínimo. Yassi estourou ao construir
uma casa modernista em Beverly Hills. Hoje, divide com o irmão um ateliê
no ponto mais valorizado do Wilshire Boulevard, mas não se livrou da ambivalência
acerca de sua trajetória. "É como se eu tivesse vivido duas vidas.
Esta, a segunda, é a melhor para a minha família. Foi na primeira,
porém, que eu me realizei."
Yassi é um talento e um homem de modos tão encantadores quanto reservados
razões que explicam sua larga clientela americana. Para muitos de
seus conterrâneos, porém, adaptar-se é um périplo.
Homa Mahmoudi, a primeira iraniana a se graduar em psicologia nos Estados Unidos
e ex-chefe da divisão no hospital Cedars-Sinai, tem experiência nessa
seara, embora não em primeira mão. Homa emigrou na adolescência,
casou-se com um americano (de quem se divorciou) e é da religião
bahai, que não supõe desníveis entre homens e mulheres. Mas,
de tanto atender iranianos perplexos com as novas liberdades e códigos,
bolou seminários nos quais ensina, por exemplo, a noção de
"espaço pessoal" ou seja, a nunca se aproximar demais das pessoas.
Para um povo orgulhoso de sua hospitalidade ampla (e muito respeitosa), não
é uma lição fácil. Homa tem um exemplo disso em casa.
Seu filho namorou mulheres de todas as cores e origens. Há alguns meses,
conheceu uma filha de iranianos e se apaixonou perdidamente. Concluiu, além
disso, que a afinidade cultural é um ingrediente crucial do romance, que
já fala em tornar permanente. Diz Homa: "Veja só. Meu filho, afinal,
também é iraniano. Por essa eu não esperava".
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